imagem criada por IA
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            Vinha eu pelas ruas — antigos hits nos fones, daqueles que nos fazem questionar por que o tempo passa tão depressa —, desviando de bostas e lixo, praguejando contra a barulheira do trânsito e essa gente que, em vez de andar, se arrasta pela vida. Vinha eu, um olho na lua e outro nas estreitas e esburacadas calçadas, a burocracia entalada na garganta.

            No cruzamento, parei.

            E, embora pareça absurdo, olhei também para a esquerda: no trânsito desta urbe insana, mesmo numa via de mão única, é preciso olhar para todos os lados.  

            Uma vez certificado de que não vinha nenhum ciclista pela contramão  — como aquela desgraça pelada de anteontem —, esgueirei-me entre os veículos que rugiam à espera do sinal verde.

            Uai, que é aquilo ali?

           A fachada do museu, adornada de balões brancos e azuis; as janelas, abertas para o anoitecer, iluminavam um comprido tapete vermelho. Num pergaminho impresso em cartolina, lia-se: TÚNEL DO TEMPO.

            Defronte, banners afixados em expositores portáteis exibiam fotografias antigas — prédios e casas, pessoas e veículos que já não existem.

            Parei. Olhei.

            E só então percebi o trânsito interditado naquele trecho da rua.

            Aproximei-me devagarinho. O leitor sabe: nós, mineiros, somos muito ressabiados. 

            Lendo as legendas, tentei descobrir — ou lembrar — a localização daquelas construções. Identifiquei a ladeira por onde passo diariamente para chegar em casa. Até que não mudou muito, concluí, procurando em algum canto a data da fotografia. Não sei se o leitor sabe: sou obcecado por datas.

            — Esta aqui é a Casa Teles.

            — Hein? — perguntei, pausando a playlist.

            Uma senhorinha apontou para a foto:

            — Casa Teles. 

            Sem saber o que dizer, continuei contemplando a mostra. 

            — Aqui do lado, ó só, tinha um hotel. Eu cresci aí. É que minha mãe trabalhou muitos anos pros donos desse hotel.

            Centelhas de nostalgia faiscavam em seus olhos cerúleos.

            Ainda calado — as palavras sempre me escapam nessas horas —, passei ao outro expositor.

            Vozes animadas desciam os poucos degraus do museu.

            Gostaria de entrar; contudo, um compromisso inadiável me impedia.
            A senhorinha, como um gramofone enguiçado, repetiu:

            — Cresci nesse hotel. Era do senhor...

            Não pude ouvir o nome: um dos balões estourou. 

            A dona, perdida em reminiscências, esqueceu-se de mim.

            Voltei à minha musiquinha.

            Mais duas ou três fotos, tomei o rumo de casa. Além de inadiável, meu compromisso era daqueles em que atrasos são inadmissíveis.