Túnel do Tempo
Por Raphael Cerqueira Silva Em: 28/04/2026, às 19H40
Vinha eu pelas ruas — antigos hits nos fones, daqueles que nos fazem questionar por que o tempo passa tão depressa —, desviando de bostas e lixo, praguejando contra a barulheira do trânsito e essa gente que, em vez de andar, se arrasta pela vida. Vinha eu, um olho na lua e outro nas estreitas e esburacadas calçadas, a burocracia entalada na garganta.
No cruzamento, parei.
E, embora pareça absurdo, olhei também para a esquerda: no trânsito desta urbe insana, mesmo numa via de mão única, é preciso olhar para todos os lados.
Uma vez certificado de que não vinha nenhum ciclista pela contramão — como aquela desgraça pelada de anteontem —, esgueirei-me entre os veículos que rugiam à espera do sinal verde.
Uai, que é aquilo ali?
A fachada do museu, adornada de balões brancos e azuis; as janelas, abertas para o anoitecer, iluminavam um comprido tapete vermelho. Num pergaminho impresso em cartolina, lia-se: TÚNEL DO TEMPO.
Defronte, banners afixados em expositores portáteis exibiam fotografias antigas — prédios e casas, pessoas e veículos que já não existem.
Parei. Olhei.
E só então percebi o trânsito interditado naquele trecho da rua.
Aproximei-me devagarinho. O leitor sabe: nós, mineiros, somos muito ressabiados.
Lendo as legendas, tentei descobrir — ou lembrar — a localização daquelas construções. Identifiquei a ladeira por onde passo diariamente para chegar em casa. Até que não mudou muito, concluí, procurando em algum canto a data da fotografia. Não sei se o leitor sabe: sou obcecado por datas.
— Esta aqui é a Casa Teles.
— Hein? — perguntei, pausando a playlist.
Uma senhorinha apontou para a foto:
— Casa Teles.
Sem saber o que dizer, continuei contemplando a mostra.
— Aqui do lado, ó só, tinha um hotel. Eu cresci aí. É que minha mãe trabalhou muitos anos pros donos desse hotel.
Centelhas de nostalgia faiscavam em seus olhos cerúleos.
Ainda calado — as palavras sempre me escapam nessas horas —, passei ao outro expositor.
Vozes animadas desciam os poucos degraus do museu.
Gostaria de entrar; contudo, um compromisso inadiável me impedia.
A senhorinha, como um gramofone enguiçado, repetiu:
— Cresci nesse hotel. Era do senhor...
Não pude ouvir o nome: um dos balões estourou.
A dona, perdida em reminiscências, esqueceu-se de mim.
Voltei à minha musiquinha.
Mais duas ou três fotos, tomei o rumo de casa. Além de inadiável, meu compromisso era daqueles em que atrasos são inadmissíveis.

