Tudo dá uma crônica
Por Raphael Cerqueira Silva Em: 30/01/2026, às 20H14
O carrinho está, há uns sete minutos, parado próximo à igreja. Teriam acabado meus dados móveis? Na dúvida, volto para o wi-fi do hotel.
Mas, pelo visto, é o danado mesmo que não anda. Acabou a gasolina? Enguiçou? O jeito é esperar. E, como esperar sentado é melhor, puxo uma cadeira.
Súbito, a corrida é cancelada. Vai começar tudo outra vez! E a motorista estava tão pertinho, uns 530 metros daqui…
O aplicativo localiza agora um HB20 branco. Cinco minutos.
Ele vem pela mesma rota do outro. Oxalá não cancele aos quarenta e cinco do segundo tempo.
Um minuto.
Deixo o frescor do saguão. A calçada definitivamente não é o melhor lugar do mundo: excessivamente ensolarada.
Vejo meu salvador se aproximar na rua deserta. Encaro o brônzeo e leonino sorriso da estátua — que até então parecia rir de minhas esperanças. Vitorioso, retruco:
— O carro tá vindo ali, bobalhona.
Embarco.
Ar-condicionado no máximo. Ufa! O tiozão que me trouxe pela manhã, além de encher o saco com discursos extremistas, não teve a empatia de ligar o ar.
— Pro museu, meu consagrado?
Acho ridículo os motoristas perguntarem o destino se o selecionei previamente no aplicativo. Por isso, resmungo um “sim”.
Seguimos em silêncio — felizmente nada de rádio tocando sofrências desgraçadas, noticiando tragédias ou ecoando baboseiras do Planalto Central.
Na esquina do Berttu’s, um belíssimo rosto espera alguém. Passamos. Sua jovialidade me acompanha, como diria o poeta, retida em minhas retinas tão fatigadas.
Uma senhorinha, dessas com cara de enterro de terceira classe, atravessa fora da faixa. O motorista segura um palavrão.
Obrigado, meu bom homem: tudo que não preciso, nesta dominical e sufocante tarde, é ouvir palavras vulgares — embora aquela dona merecesse meia dúzia delas.
Paramos no sinal. Um cara no celular passa rente à minha janela:
— Tudo começou a desandar quando o Ursinho deixou de ser Puff e passou a ser Pooh.
Mais um vivendo a crise da meia-idade, concluo.
Cruzamos a avenida. Sorrio com a metáfora e tento imaginar as desilusões que aquele sujeito experimentou. De fato, no nosso tempo — ele deve regular idade comigo — o urso não tinha esse nome entojado e afrescalhado que tem agora.
O motorista rela o pneu no meio-fio.
Abro a porta. A lufada quente quase me faz desistir de descer.
— Valeu, meu consagrado.
“Consagrado”. Onde essa criatura foi buscar esse adjetivo?
Passo pela catraca; desço os degraus.
Uma morena com cara de tristeza conduz um cachorro desengonçado pela guia.
— Você tem pet? — pergunta ao barbudo que fuma à sombra.
E ele, soprando a feia fumaça que macula o dia:
— Não, eu tenho cachorro.
À beira do lago, reflito: certo está aquele cronista-geógrafo caruaruense — ou geógrafo-cronista caruaruense, sei lá — quando diz que tudo dá uma crônica.

