Morte e Ressurreição de Cristo. Imagem: Internet
Morte e Ressurreição de Cristo. Imagem: Internet

O Espírito Pascal: entre o silêncio, a cruz e a esperança

 

O relato da paixão de Cristo apresenta, desde o início, uma tensão profunda entre o poder humano e o mistério divino. Diante de Pôncio Pilatos, Jesus é interrogado: “És tu o rei dos judeus?” (Lucas 23,3). Como Jesus teria passado a noite, sem dormir, rezando e refletindo sobre as consequências daquele julgamento no Sinédrio, tão apressado quanto injusto, e agora tendo que responder à ironia do prefeito[1] da Judeia? A resposta, breve e enigmática - “Tu o dizes” - inaugura uma postura que marcará todo o percurso até a cruz: o silêncio. Interpelado novamente, Jesus opta por não responder. Esse silêncio, longe de ser fraqueza, revela uma consciência plena da injustiça do julgamento e da missão que estava prestes a cumprir.

Conduzido também a Herodes Antipas, Jesus mantém a mesma atitude. Não há defesa formal, advogado ou estratégia jurídica. Os sacerdotes assumem a acusação, enquanto o réu permanece em silêncio. De volta a Pilatos, este reconhece não encontrar culpa alguma no acusado. Ainda assim, a pressão política e popular, incitada pelos líderes religiosos, prevalece. Mesmo diante do aviso de sua esposa, Cláudia, Pilatos cede à multidão, que prefere libertar Barrabás e condenar Jesus à morte.

A sentença é acompanhada de um símbolo cruel do poder romano: a inscrição do crime do condenado. Fazia parte do terrorismo de Estado promovido pelos romanos. Incapaz de atribuir a Jesus qualquer delito comum  - como rebelião, assassinato ou roubo - Pilatos ordena que se escreva: “Jesus Nazareno, Rei dos Judeus”. A inscrição, redigida em hebraico, latim e grego, pretendia ser uma acusação, mas tornou-se, paradoxalmente, uma proclamação. Jesus será muito mais do que isso.

A partir daí, inicia-se o caminho do Calvário. Fora dos muros de Jerusalém, Jesus percorre a via-crúcis até o local da crucificação. Pregado na cruz, mãos e pés atravessados, ele experimenta a dor extrema e o abandono. Entre a hora sexta e a hora nona, a terra se cobre de trevas. No auge do sofrimento, ecoa o grito: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?” (Marcos 15,33). Ouvindo isso, alguns dos circunstantes diziam: - Ele chama por Elias! Um deles correu e ensopou uma esponja em vinagre, e pondo-a na ponta de uma vara deu-lhe para beber, dizendo:  - Deixai, vejamos se Elias vem tirá-lo (Marcos, 15, 33). Ainda assim, esse aparente desespero não é o fim da narrativa. Jesus dá um grito fortíssimo, que ecoa pelas montanhas e vales de Jerusalém. Suas últimas palavras  - “Tudo está consumado” (João 19,30) - indicam o cumprimento de uma missão. O Evangelho de João dirá terem sido as últimas palavras de Jesus antes de sua ressurreição. Ele inclinou a cabeça, como se já não tivesse mais forças para sustenta-la, e fechou os olhos e entregou o espírito (Joao, 19,30). 

A morte de Jesus é acompanhada por sinais cósmicos: a terra treme, rochas se partem. No entanto, é no silêncio do sábado que o mistério se aprofunda. A tradição cristã afirma que Cristo desce aos infernos, não como vencido, mas como redentor, para libertar as almas. O silêncio que antes marcava sua postura diante dos homens agora antecede a maior manifestação de vitória: a ressurreição.

É nesse ponto que se revela o núcleo do chamado “mistério pascal”. Morte e vida não são opostos definitivos, mas etapas de uma mesma passagem. A Páscoa, que significa justamente “passagem”, celebra a vitória da vida sobre a morte. Assim, a cruz deixa de ser apenas um instrumento de sofrimento para se tornar símbolo do amor que supera a finitude.

Essa compreensão ilumina a experiência humana. Em meio às contradições da existência, dores, injustiças e aparentes becos sem saída, a esperança cristã oferece um horizonte de sentido. A vida não é reduzida ao sofrimento imediato, mas orientada por uma promessa de plenitude.

Só à luz da fé e da esperança podemos não interpretar a história de Jesus como uma simples história de sofrimento e fracasso, mas também ouvir, por detrás do “Meu Deus, por que me abandonastes”, o tranquilo epílogo: “Eu venci o mundo” e “Eu estarei convosco até o fim dos tempos”. Só à luz da fé e da esperança podemos ver a sua presença, e o sopro da renovação e cura do Espírito (Tomáš Halík).

Nesse contexto, a fé assume papel central. Como ensina o Evangelho: “Tende fé em Deus” (Marcos 11,22), pois “tudo o que pedirdes na oração, crede que o tendes recebido, e vos será dado” (Marcos 11,24). Não se trata, porém, de uma fé meramente intelectual ou abstrata, mas de uma confiança radical, existencial, que atravessa a incerteza e se sustenta mesmo na ausência de respostas. É a fé descrita por Tomáš Halík: uma “fé pequena”, despojada de certezas fáceis; a fé do “segundo sopro”, aquela que quase se esgota, mas persiste; a “fé ferida”, cujas chagas - à semelhança das do Ressuscitado - não desaparecem, mas resplandecem como sinais de graça. Trata-se, enfim, de uma fé pascal, que precisa morrer para renascer, que atravessa o silêncio do Sábado de Aleluia, quando se chora diante do “túmulo de Deus”, para então abrir-se à experiência da ressurreição. Essa fé se traduz em esperança - verdadeira chave que abre o caminho em direção a Deus - e se concretiza em obras. Como adverte a Epístola de Tiago, a fé que não se encarna na vida permanece morta, pois é na prática que se torna viva e autêntica.

Autores como Joseph Ratzinger (Bento XVI) enfatizam que a fé não pode ser reduzida a uma fórmula racional ou demonstrada como um teorema matemático. Ela se constrói na experiência vivida, no caminho existencial marcado pelo amor e pela esperança. Nesse sentido, Deus não se revela como um objeto visível e apreensível, mas como presença que se manifesta nos atos daqueles que creem.

A partir dessa compreensão, a fé à qual somos chamados não é meramente humana, sujeita às oscilações das ideologias e às incertezas das filosofias do tempo presente. Trata-se de uma fé que tem sua origem em Deus, uma “fé divina”, que não se apoia apenas na razão, mas na confiança profunda de que Ele escuta e acolhe a oração daqueles que nele creem. Nessa perspectiva, a fé e a esperança, assim como o amor, constituem virtudes infusas: não são fruto exclusivo do esforço humano, mas dons gratuitos da graça, expressões do amor incondicional de Deus que se comunica à humanidade.

Quando essas virtudes não habitam o coração humano, o espaço de Deus não permanece vazio; ele é rapidamente ocupado por outras referências últimas: ideologias, interesses ou falsas seguranças que pretendem dar sentido à existência.

Por isso, reconhecer a presença de Deus no mundo não significa apreendê-lo como um objeto ou uma entidade tangível, mas percebê-lo na vida concreta, nos gestos e nas atitudes daqueles que vivem a fé, o amor e a esperança. É assim que Deus se torna, de certo modo, “visível”: não por uma evidência imediata, mas pela transparência da vida transformada daqueles que creem. Como bem se afirma, Deus está 'presente' e 'visível' no mundo, mediante os atos de fé, amor e de esperança das pessoas que acreditam, e não como uma 'entidade' que possa ser apreendida por outros meios.

O Novo Testamento afirma que a única fé que resistirá à prova frente a Deus será a "fé viva". Deus aprecia atitudes, comportamentos e atos que estejam de acordo com as verdades da fé. "Mas alguém dirá: 'Tu tens fé, e eu tenho obras'. Mostra-me a tua fé sem obras e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras. Crês que há um só Deus" (Tiago, 2, 18). A mera convicção, se não for encarnada na vida, é uma "fé morta".

Dessa forma, o espírito pascal não se limita à memória de um acontecimento histórico. Ele se atualiza continuamente na vida de cada pessoa que, diante do sofrimento, escolhe a esperança, diante do silêncio, encontra sentido, e diante da morte, aposta na vida. A cruz, então, deixa de ser um ponto final e se torna passagem, um convite permanente à transformação e ao fortalecimento da fé.

 

Referências:

 

Alvarez, Rodrigo. Jesus: o homem mais amado da história. Rio de Janeiro: LeYa, 2018.

Bíblia Católica do Jovem. São Paulo: Editora Ave-Maria, 2012.

Halík, Tomáš. A noite do confessor: a fé cristã num mundo de incerteza. Petrópolis, RJ, Vozes, 2016..

Ratzinger, Joseph. A infância de Jesus. São Paulo: Planeta, 2012.

 

 


[1] Pôncio Pilatos não foi prefeito de uma única cidade, mas sim o governador (prefeito ou procurador) da província romana da Judeia, que incluía a Samaria e a Idumeia, aproximadamente entre os anos 26 e 36 d.C.