Perdas e Donos

[Halan Silva]

Que a sorte fez a parte dela, isso todo mundo sabe, mas o que veio depois coube à sortuda fazer, nesse caso: à Dona Mocinha. Desesperada para encontrar a porca zincada de pressão, que desaparecera de cima da mesa de trabalho e, que depois lhe custaria um olho da cara, D. Mocinha chegou repartição antes do galo cantar. Pensando estar sozinha, virou a sala pelo avesso mas, ao abrir o basculante da janela, surpreendeu-se com o forte odor de “Pau-Ronca”, que recendia do fundo garagem, a indicar a presença matutina do seu Paraná.

Em cima da mesa de trabalho, no lugar da porca extraviada, D. Mocinha encontrou um bilhete de loteria preenchido, e um pouco amarfanhado, como se alguém tivesse desistido de fazer a aposta.  No cume do desespero, jogou o bilhete no cesto de lixo, mas logo mudou de ideia, derramou o lixo no chão e recolheu o bilhete. Na medida que os colegas de trabalho chegavam, ela passava de mesa em mesa, brandindo o bilhete de loteria e perguntando quem era o do dono dele. O esforço foi em vão, ninguém lhe deu a mínima atenção, nem mesmo o seu Paraná, que é viciado em jogos de azar - especialmente jogos de dados e de roleta. Fracassada a tentativa de encontrar o dono, D. Mocinha pôs o bilhete no bolso e saiu para entregar senhas aos pais de alunos, que formavam uma longa fila do lado de fora da repartição.

Encerrado o expediente, D. Mocinha pegou o ônibus na Frei Serafim e desceu na altura da praça do Mocambinho, percorreu quinhentos metros e chegou na Quadra 33, Setor “C”, do Mocambinho III. Exausta, ela entregou as pesadas sacolas de supermercado para o neto, o João Pedro. Na sequência, tomou um merecido banho, vestiu um “robe de chambre” carmim, pôs a roupa servida no cesto, e levou o lixo até a calçada. Enquanto jantava, D. Mocinha pegou-se pensando no irmão, que não consegue arranjar trabalho; vê-lo dentro de casa, sem dar um prego numa barra de sabão, sem dúvida era a maior de suas preocupações. No dia seguinte, acordou tarde, completamente atrasada, por isso pediu um favor ao irmão:

- Faz-me um favor - Chico, bote a roupa suja para lavar, o sabão está na despensa.  - Disse D. Mocinha ao irmão, minutos antes de sair correndo ao ponto de ônibus.

O irmão era um tipo esquisito, tinha pavor de ver o rosto refletido na superfície dos espelhos. Sem responder a irmã, permaneceu grudado na “TV”, assistido ao programa “Chaves”. Porém, como se tivesse lembrado de algo sagrado, levantou-se e correu para o quintal onde, às pressas, subiu no pé de manga: estava na hora da vizinha tomar banho ao relento.

Quando retornou da repartição, após ter perdido o ônibus por duas vezes seguidas, D. Mocinha encontrou a roupa suja no mesmo lugar, do jeito que a deixara. Vendo o irmão diante da “TV”, pensou: - Coitadinho, deve ter se distraído assistindo ao “Chaves”. Em seguida, procurou o aconchego do quarto e caiu num sono quase letárgico, mas acordou pouco tempo depois, assombrada pela alma do avô; em sonho a alma pedia para que ela fizesse a aposta. Apesar de ser desapegada ao dinheiro, D. Mocinha pegou o bilhete no bolso da calça e amanheceu na porta da casa lotérica.

Quando conferiu o resultado do sorteio, D. Mocinha não pensou duas vezes: ligou para o chefe, comunicando que não iria trabalhar porque estava caindo um forte chuva no Mocambinho. Palhares ficou desconfiado, estranhou essa chuva em pleno mês de outubro. Sem acreditar no valor do prêmio, D. Mocinha revirou os olhos e viu o mundo rodar, passou mal na porta da casa lotérica. Quando soube da premiação de D. Mocinha, o seu Paraná apareceu com uma conversa bonita, reivindicando o bilhete que, segundo ele, esqueceu sobre a mesa de D. Mocinha. Porém, ninguém acreditou nas palavras dele, nem mesmo o Baltazar, seu eterno companheiro nas fabulosas caçadas de onça. Os colegas de repartição, tinham um pé atrás com o seu Paraná, por conta de um bolão premiado, que ele esqueceu pagar.

Para não despertar inveja, D. Mocinha protocolou um pedido de licença sem vencimento. Não sabia ela que o chefe andava despeitado, dizendo que D. Mocinha só queria ser; por conta disso Palhares indeferiu o pedido de licença, sob alegação de que D. Mocinha não ressarciu ao erário o valor da porca zincada de pressão, que desapareceu da coordenação de geografia. Para não dar o braço a torcer ao chefe, D. mocinha desistiu da licença e voltou a trabalhar. Porém, o seu Paraná não dava trégua, quando ia deixar a garrafa de café, enchia-lhe a paciência, dizendo que o bilhete era dele.

- Se eu não tivesse cruzado a bola, você não teria feito esse gol. – Insistia, o Paraná, na expectativa de matar D. mocinha no cansaço.

- Sai pra lá, jacaré, que nunca te dei confiança. – Respondia-lhe, D. Mocinha.        

Pertinaz, o seu Paraná não costumava desistir de um jogo – por mais difícil que ele fosse. Sair de mãos abanando, isso nunca; o seu Paraná gosta de levar vantagem em tudo - seja na entrada ou na saída.

- É, D. Mocinha, pelo visto você esqueceu a promessa que fez: que se fosse premiada na loteria, ajudaria uma família pobre. – Lembrou-a, o seu Paraná, movendo a pedra para dar cheque mate.

- Essa promessa já está paga, Paraná, ajudei uma família pobre: a minha! – Respondeu-lhe, D. Mocinha, com uma risadinha.

Dizem que o bom jogador não é o que ganha sempre, mas aquele que sabe perder no jogo. O seu Paraná, antes de sair, jogou a toalha, piscou o olho para D. Mocinha, fez um aceno e sorriu, dizendo-lhe:

- Quando fizer uma festa de “granfino”, lembre-se do Paraná, continuo tirando serviço de garçom.

Desde que fora sorteada na loteria, D. Mocinha mudou da água para o vinho, é outra pessoa, só anda arrumada, não é mais aquela que saiu de Lagoa do Piauí.  Sem mais nem menos, abriu a carteira e tirou duas cédulas de cem reais e deu ao seu Paraná: pegue, vá tomar uma merenda por ai! A maior virtude do seu Paraná é, sem dúvida, a gratidão, pois antes de sair com o dinheiro no bolso, ele teve a decência de expressar gratidão à sua benfeitora:

 - Essa daí não pouca merda, não, – é gente!