Origens e evolução do sistema missioneiro
Por José Fortes Em: 25/02/2010, às 00H03
A criação do sistema das missões deve ser estudado no contexto da política colonial desenvolvida pelas potências européias para a recém-descoberta América, que originalmente era habitada por inúmeras etnias de povos indígenas, em vários graus de civilização. Apesar de alguns contatos preliminares entre europeus e índios terem sido pacíficos, logo os colonizadores começaram a empreender uma conquista belicosa e sanguinária, submetendo os nativos pela força das superiores armas e técnicas militares européias, e despojando-os de quaisquer tesouros que fossem encontrados. Em vista das atrocidades que iam sendo cometidas, reis e papas legislaram a favor dos índios, mas com pouco efeito, pois o controle sobre as províncias distantes era muito difícil, e os abusos continuaram ao longo de toda a história da colonização. Junto com os primeiros colonizadores chegaram religiosos de várias Ordens missionárias, principalmente franciscanos e dominicanos. Sua presença se justificava porque entre os objetivos da Conquista estava a cristianização dos povos dominados, mas muitos desses missionários foram complacentes com o uso da violência e se beneficiaram da sua exploração. Pouco depois, preocupado com os rumos descontrolados que a Conquista espanhola tomava, Carlos I de Espanha chamou os jesuítas para intervirem no processo, enquanto que Dom João III de Portugal dava as primeiras ordens para que a evangelização dos índios fosse entregue aos cuidados da Companhia de Jesus.[5][6][7]
Inácio de Loyola com um livro onde se lê o lema da sua Ordem: Ad maiorem Dei gloriam (Para a maior glória de Deus)
A Companhia de Jesus foi fundada em 1534 por Santo Inácio de Loyola, e em poucos anos conquistou grande prestígio por seu dinamismo e pelo sólido preparo teológico e cultural de seus membros, que ascenderam a posições de destaque no clero e nos conselhos de reis e príncipes. A Ordem se tornou a principal força da Igreja Católica no processo da Contra-Reforma, renovou a pedagogia na Europa, e de fato representou a vanguarda religiosa em seu tempo, contando com privilégios especiais e grande independência da estrutura hierárquica católica, mas votando uma obediência total ao papa.[8][9] Os jesuítas aportaram no Brasil em 1549, no Peru chegaram em 1567, no México em 1572 e na Nova França em 1611, mas o sistema missioneiro levou várias décadas para se estruturar e consolidar.[1] Dessa forma, as primeiras tentativas de evangelização foram informais, itinerantes, pouco coerentes e sem resultados significativos, e encontraram os entraves da ausência de instituições jurídicas e administrativas de apoio eficazes, da pouca colaboração de outras Ordens - quando não sua conivência com as práticas predatórias dos colonizadores, como lamentou no Brasil Manuel da Nóbrega - e da objeção dos primeiros habitantes que já estavam instalados, para quem os índios eram tão desprezíveis quanto os negros e só lhes pareciam úteis como trabalhadores braçais. A primeira iniciativa de fundação de povoados especiais para os índios cristianizados partiu de Dom João III, que em Regimento ao primeiro governador-geral do Brasil Tomé de Sousa ordenou que eles vivessem em grupos nas proximidades das vilas para que pudessem entrar em mais íntimo contato com os cristãos e pudessem ser melhor doutrinados. A idéia foi louvada por Nóbrega, pois ele sem demora percebeu a ineficiência das missões itinerantes, pouco antes de o padre espanhol José de Acosta fazer a mesma constatação no Peru.[7]
Na foto, Inácio de Loyola com um livro onde se lê o lema da sua Ordem: Ad maiorem Dei gloriam (Para a maior glória de Deus)

