Onde Está Mandu Ladino?
Por Jose Ribamar Garcia Em: 19/03/2026, às 22H14
ONDE ESTÁ MANDU LADINO?
Em Teresina, os meses terminados em “bro” são considerados os mais quentes do ano. Foi exatamente no começo do mês de setembro que realizei esta caminhada.
O sol esquentava os miolos. Desci a Rua BenjaminConstant, entrei à esquerda, na Av. Maranhão, e segui até o Troca-Troca, onde parte do cais havia sido tomada pelo mato. Ainda restando fôlego, atravessei o outrora Parque da Bandeira, passei pelo centro comercial e alcancei a Praça Pedro II, onde adentrei o prédio do Centro Artesanato Mestre Dezinho, antiga sede do Quartel Central da Policia Militar. Esse Centro foi criado no governo de Lucídio Portela, através do Programa de Desenvolvimento do Artesanato Piauiense (PR0DART). Logo à entrada, vê-se a escultura da Árvore Macrofauna, em ferro retorcido, de autoria do saudoso artista plástico e escultor piauiense Carlos Martins.
No pátio interno do prédio, quando diretora do PRODART era a dinâmica e competente sra. Janiery P. Broder, foi instalado o “Jardim da História”. E nele homenageados algumas pessoas comuns, do povo, que, de certa forma, participaram positivamente da História do Piauí, porém, relegados pela História oficial. Pois essa, como se sabe, é narrada pelos vencedores que só registram os fatos que lhes interessam -- nem sempre fidedignos. Daí a benfazeja homenagem as essas figuras com suas estátuas em tamanho natural e placas descritivas. Dentre os homenageados estava o índio Mandu Ladino, de cuja estátua eu fui padrinho e patrocinador.
No entanto, surpreendeu-me não encontrá-la no local. Simplesmente desapareceu, só ficando a base de cimento sobre a qual estava assentada. O que fizeram da estátua? Para onde a levaram? Ninguém soube informar e não havia alguém da direção do PRODART para me esclarecer. Pelo menos, enquanto ali estive.
Quem foi Mandu Ladino?
Responde o escritor e acadêmico Anfrísio Neto Lobão Castelo Branco, no seu denso, épico e relevante livro “Mandu Ladino”: “Personagem real que faz parte da História do Piauí, Maranhão e Ceará. Personagem épico, heróico, vulto incomparável em sagacidade e destemor que lutou bravamente contra os invasores de sua terra e pela liberdade de sua gente”.
Dele diz também o escritor, historiador e acadêmico Reginaldo Miranda, no seu ensaio inserido na obra coletiva “Os Índios do Piauí”, org. pelo escritor, jurista e acadêmico Nelson Nery Costa: “Foi um indígena muito inteligente e resoluto, com perspicácia e senso de liderança, que se opôs ao duro sistema colonial, unindo as nações nativas do Meio-Norte brasileiro em pertinaz resistência contra a invasão de suas terras pelo colonizador estrangeiro.”
Esse foi Mandu Ladino.
Na noite da inauguração de sua estátua, de autoria do escultor Charles do Delta, estavam presentes, entre outras autoridades, o governador Mão Santa e Janiery Broder. Ao iniciar a solenidade, desabou um temporal. Minha mãe, que levei para assistir ao evento, nem pôde sair da sala onde aguardava o seu início, tamanho o aguaceiro. E eu, ao começar a falar, a luz elétrica foi embora. Mesmo assim, continuei falando no escuro.Isso na noite de 15 de fevereiro de 2000.
Enfim, cadê a estátua do bravo guerreiro?
(Do livro “Tempo de Ciranda”, de José Ribamar Garcia, Litteris Editora, Rio-RJ, 2025).

