O verbo contra o tempo
Por Décio Torres Cruz Em: 18/06/2026, às 23H31
O verbo contra o tempo
Décio Torres Cruz*
O estilo minimalista de Fernando Rocha Peres
Poemação em São Paulo (Macunaíma, 2025) é o título do novo livro de Fernando da Rocha Peres lançado no ano passado em Salvador e em São Paulo. O título, que une as palavras poema e ação em um único signo, intencionalmente ou não, alude aos movimentos artístico-literários da poesia marginal da década de 70, como a exposição eclética PoemAção, ocorrida no MAM do Rio de Janeiro em 1974. Composto de 54 poemas sobre variados temas, os versos curtos são marcados por um estilo fragmentário e minimalista que o autor adota em sua escrita.
O livro inicia com uma homenagem à resiliência do cavalo Caramelo que tanto chamou a atenção das pessoas ao conseguir sobreviver equilibrado por três dias sobre um teto de uma casa durante a enchente do Rio Guaíba no Rio Grande do Sul. Esta ode à surreal paciência revela a resistência à morte que nos ronda e se repete no poema ad libitum “Em princípio”, no qual o conhecimento dos fluxos da vida é concluído com a descoberta de que o poeta, assim como o poema, também possui sua finitude: “Saber: que o homem mata, / que o poeta envelhece, / que a morte ronda, / que o poema finda.”
A sombra da finitude e as marcas do tempo
A velhice, a morte, a passagem do tempo, e o corpo sobre o qual o tempo grava marcas e sulcos são temas recorrentes em muitos dos poemas. Esses traços aparecem em “Ele”, “2024”, “Fato” e “Retrato” quando o “corpo pede paz”, “os pés e mãos / pedem calma / e cama”, mas a “cabeça ainda [é] boa” e “o coração / com dois stents / ainda funciona / para o amor / a escrita / da poesia / e sua leitura.”
O tema da andança temporal continua em “Vidatempo” quando o caminhar do relógio vai embranquecendo as cores do cabelo e percorrendo as outras partes do corpo, transformando o fogo do sexo em uma “sexualidade sensível” que desperta outros prazeres de toques e aconchegos trazidos pelo “olhar do amor / afinado e novo”, mostrando que “o tempo é imbatível / a vida rápida”, e que “a morte sinaliza / e age graciosamente / trajada / com a nossa exaparência / aos trinta.” Na velhice, “o corpo debate / e perde uma luta / presente do passado / acumulado, / em cada ruga / e reentrância / do corpo / e da visão atrás / dos óculos e cataratas.”
Shakespeare, em alguns de seus sonetos, fala da transitoriedade da vida e apresenta a literatura como a única possibilidade de sobrevivência de uma pessoa retratada em versos que sempre retorna à existência toda vez que alguém lê os poemas sobre ela. Neste mesmo poema citado acima, Peres conclui de modo similar, afirmando que “o corpo na vida, / só pervive / com a palavra escrita / e o seu falar / tempofalavida.”
Já em “Ausência”, todos os membros da família que já se foram compõe uma fotografia na parede que vem lembrar ao poeta que ele está só e deve se preparar para o dia em que seu corpo físico também irá se juntar aos outros na fotografia.
Metalinguagem e o lirismo da musa
Há, também, poemas metalinguísticos nos quais dicionários, palavras, a leitura, a língua portuguesa, o poema e o ato da escrita se tornam tema, como em “Aprendizado”, “Dicionário”, “Conversa”, “Restos”, “Absconcreto”, “Giro”, “Cenário”, “Nomeações”, “É”, “Ponto”, “Fruto”, “Tristuras”, “Tradição” e “Final” (“Não sei / quais foram / minhas letras / quando menino. / Meu abc / qual foi / que resultou, / quando juntei / letra a letra / pra formar / palavra? / Hoje / poeto / e findo / ao fundo / do sentido da vida.”).
“Urânia” (“a musa / da astronomia / feito mulher / na Bahia”) ocupa o centro de alguns poemas, nos quais o poeta revela seu amor e sua paixão em anos de mútua convivência, como em “Momento”, “Chegança”, “2024”, “Onze”, “Conjugar” (“Na primeira / pessoa / do verbo / querer / desejo / Urânia / pois o amor / não tem idade”).
Paisagens da memória e homenagens à vida
O autor aborda, ainda, as mudanças de estações (“Paisagem”) e as paisagens locais e estrangeiras, onde figuram as cidades de Salvador (“Pingos”, “Bambus” e “Lugar”), São Paulo (“Poecrônica”, “Momento” e “Notícias”), Évora (“Évora), Galícia (“Tristuras” e “Tradição”) e Tahiti (“Tubolimpia”). Encontramos lembranças da infância como se fossem quadros ou paisagens da memória desafiando a solidão e o inconsciente: “Pintura”, “Infância”, “Dito”, “Verdade”, “Final” e “Postal”. Neste último, o autor nos revela um dado geralmente invisibilizado, a solidão infantil: “O canto / sai / de dentro / da cozinheira / da arrumadeira, / com suas / cantigas / de roda. / Eu menino / as tinha / como companheiras / da solidão / infantil, / no princípio / do meu caminho”).
O pensamento ecológico surge nas árvores canoras que “chamam os pássaros ao entardecer / na cidade grande” (“Asilo”), na descrição da destruição de regiões brasileiras pelo fogo, como na Amazônia e no Pantanal (“Fogaréu”), ou pelas águas, como no Rio Grande do Sul (“Caramelo”). Ou, simplesmente, ao mencionar a vingança da natureza quando esta resiste à sua destruição pelo concreto das cidades em “Poecrônica”, poema dedicado ao tropicalista Tom Zé, cujo título condensa as palavras poema e crônica em um único significante polissêmico que pode, ainda, ser interpretado como uma referência ao escritor Edgar Allan Poe.
Além de destacar a importância da preservação da natureza e de nossa fauna e flora, o livro também faz homenagens aos jogos olímpicos e aos esportes (em “Tubolimpia”, “Olimpiadar” e “Olimpiadada”) e, até mesmo, à cerveja e sua criação pela abadessa medieva Hildegarda de Bingen (“Santidade”).
Em suma, Poemação em São Paulo consolida-se como uma obra multifacetada, onde o autor, Fernando da Rocha Peres, une a urgência da realidade imediata (simbolizada pela resiliência de um cavalo e da necessidade da preservação da natureza) com reflexões universais sobre a finitude, o envelhecimento e o passar do tempo que cobra o seu preço. Transitando entre versos minimalistas marcados pela contemplação do desgaste natural do corpo humano, mesclando incursões pela metalinguagem e pelo lirismo afetuoso dedicado à sua musa Urânia ou pelas lembranças da infância e da adolescência, o autor baiano reafirma a literatura (e, em especial, a poesia) como o derradeiro refúgio contra o esquecimento. Trata-se de um livro muito bem escrito e fiel ao espírito da poesia-ação que evoca em seu título, demonstrando que a palavra escrita permanece sendo a ferramenta mais potente para eternizar a vida e a memória humana e também como possibilidade de gerar mudanças que possam ter um retorno prático para as pessoas e para a sociedade no modo de ver e agir no mundo à nossa volta.
Sobre o autor
Nascido em Salvador, Bahia, Fernando da Rocha Peres é um destacado poeta, historiador, administrador cultural e professor, tendo dedicado 40 anos de sua vida ao Departamento de História da Universidade Federal da Bahia (UFBA), instituição que lhe concedeu o título de Professor Emérito em 2008 e onde também atuou como Pró-Reitor de Extensão e diretor do Centro de Estudos Baianos. Apresenta-se como defensor da universidade pública e da integridade da cidade de Salvador. Além de sólida carreira docente, Peres foi diretor do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) na Bahia e em Sergipe, e diretor-presidente da Fundação Cultural do Estado da Bahia. Foi agraciado em 2013 com a Ordem do Mérito do Patriarca São Bento. No campo das artes e do panorama editorial, fundou em parceria com Glauber Rocha, Calasans Neto e Paulo Gil Soares as “Jogralescas” (poesia teatralizada), a revista Mapa, a Yemanjá Filmes e as edições Macunaíma. Membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e da Academia de Letras da Bahia, é autor premiado de diversas obras importantes publicadas no Brasil e no exterior. Dentre sua vasta obra, destacam-se: Cinco Poetas (1966), em coautoria com Carvalho Filho, Florisvaldo Mattos, Godofredo Filho e Myriam Fraga, com ilustrações de Calasans Neto; Poemas Bissextos (1972); Gregório de Mattos e Guerra: uma re-visão biográfica (1983), com prefácio de Antônio Houaiss, obra vencedora do Prêmio Joaquim Nabuco da Academia Brasileira de Letras; Louvação a Pedro Nava, em coautoria com Carlos Drummond de Andrade et al. (1983); Breviário de Antônio Conselheiro, em coautoria com Walnice Nogueira Galvão (2002); Gregório de Mattos: O poeta devorador (2004); Memória da Sé (2009, 3 ed) etc. Sua obra pode ser encontrada em diversas lojas online.
* Décio Torres Cruz é escritor premiado, membro da Academia de Letras da Bahia, da ACL (SP), da ALARJ e membro correspondente da APL. Autor, dentre outros, de Viagens & travessias, A poesia da matemática, Histórias roubadas e Paisagens interiores.

