O delegado
Por Raphael Cerqueira Silva Em: 24/06/2026, às 12H59
— Quem é?
— Quem?
— Aquele ali, ó.
— Onde?
— O que acabou de entrar agora.
— Ah! É o nosso delegado.
— Ai, eu com um delegato desses lá em casa...
— Sossega o facho, Ariel.
— Isso sim é um homem!
— Não me faz arrepender de ter te trazido.
— Que barba! Mil vezes melhor que esses ninhos de guacho por aí.
— E esse garçom que não traz mais cerveja, hein?
— Minha sede agora é outra.
— Eu, hein.
— Quando cê me chamou, jamé pensei que fosse festa desse nível.
— Você pensou o quê?
— Sei lá. Que só ia ter mais do mesmo. Tipo festa estranha com gente esquisita.
— Como assim?
— Achei que só ia dar homem comum. Desses que a gente pega no fim da noite pra não ficar na seca.
— Ó, o garçom vindo aí.
— Agora vejo que me enganei. Re-don-da-men-te.
— Vai uma?
— Uma? Vê duas pra mim, meu querido.
— Manera, Ariel, manera.
— Tô sedente, Gio.
— Tá o quê?
— Ai! Esse delegato podia me algemar numa cela apertadinha, me torturar noite e dia...
— Pois eu acho é que você devia parar de beber.
— Espia. É miragem ou ele tá acenando pra cá?
— Ele é assim mesmo. Cumprimenta todo mundo.
— Vocês se conhecem?
— E como não ia conhecer? Trabalhamos juntos há mais de dez anos.
— Peraí, Gio. Desde quando você trabalha na polícia?
— Polícia? Que negócio de polícia é esse?
— Esse deus babilônico não é delegado?
— É.
— E como vocês trabalham juntos se você nunca foi da polícia?
— O cara é nosso delegado sindical, oras.
— Delegado sindical!? Daqueles que fazem greve e brigam com patrão na porta da fábrica?
— Mais ou menos isso.
— Porra, Gio... que brochada.
— Ô, garçom, desce outra aqui. E rápido!

