[Gabriel Perisse]

Chegou a este blog uma pergunta mencionando São Jerônimo, padroeiro dos tradutores, santo que os católicos homenageiam no mês de setembro: "Já que está falando de religião, por acaso houve erro na tradução de São Jerônimo na expressão bíblica 'é mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha, do que...' ou 'camelo' está errado e deveria ser 'corda' (do grego)?"

De fato, surgiu uma polêmica em torno dessa passagem, em que Jesus afirma não terem os ricos a menor chance de entrar no reino de Deus. Seria tão impossível quanto um camelo passar pelo buraco da agulha (cf. Mt 19:23-30; Mc 10:23-31 e Lc 18:24-30).

Conforme alusão de Deonísio da Silva em seu A vida íntima das frases (Novo Século, 2009), foram levantadas duas hipóteses com relação à tradução, tornando a frase menos exagerada... hipóteses que na verdade se opõem.

Teria havido, no texto grego, uma troca entre kamelos ("camelo") e kamilos ("corda grossa", "calabre"). A própria palavra do aramaico utilizada por Cristo carregaria ambiguidade — gamla ("camelo") e gamala ("corda grossa").

Além de parecer mais lógico (afinal, o que teria um camelo a ver com agulhas?), a imagem da corda grossa permitiria uma saída para os ricos, como nos conta João Ribeiro no livro Frazes feitas (Francisco Alves, 1908). Segundo interpretação mais liberal, o calabre poderia passar pelo fundo da agulha, contanto que fosse desfiado. Passaria fio por fio, exigindo paciência e esforço.

Numa segunda hipótese, que suavizaria também a frase evangélica e daria uma chance aos ricos, diz-se que o "olho da agulha" era o nome de uma por­ta estrei­ta à entrada de Jeru­sa­lém. Se o camelo inclinasse a cabeça (sinal de humildade...) ou se deixasse cair por terra boa parte da carga (desprendimento...), poderia atravessá-la.

Não é possível aceitar as duas hipóteses ao mesmo tempo. Ou o camelo é uma corda ou a agulha é uma porta. Ambas parecem mais sensatas do que a hipérbole patente no texto em latim: "Facilius est camelum per foramen acus transire, quam divitem intrare in regnum Dei." (Mt 19:24). A tradução: "É mais fácil o camelo passar pelo buraco da agulha do que o rico entrar no reino de Deus."

Camelo atravessando
o buraco da agulha
graças ao dinheiro,
de Eric Angeloch

 
As duas hipóteses, no entanto, carecem de fundamentos mais sólidos. Analisar o texto evangélico requer contextualizações linguísticas, culturais e teológicas. O "rico", para Cristo, era todo aquele que confiava nos bens materiais mais do que em Deus. O camelo tentando passar pelo buraco da agulha é hipérbole humorística. O exagero desmonta a ideia dominante de que os bens materiais, muitos ou poucos, garantem algum tipo de salvação. Essa presunção e essa arrogância são perigoso caminho. Impossível entrar no âmbito divino sem a riqueza espiritual.

De mais a mais, não se trata de frase absurda para os ouvintes orientais. Basta lembrar passagem semelhante no livro sagrado dos muçulmanos (Alcorão 7:40): "Aqueles que desmentirem os Nossos versículos e se ensoberbecerem, jamais lhes serão abertas as portas do céu, nem entrarão no Paraíso, até que um camelo passe pelo buraco de uma agulha."

Entre os judeus, é conhecida a passagem no Talmude em que, para definir uma coisa impossível, fala-se de um elefante atravessando o orifício da agulha (cf. Tratado Berachot 55b).