Entrevista com Tarciana Ribeiro

“Sou de uma cidade onde os sonhos dificilmente têm vez.”

 

Como começar a conversa com a minha amiga Tarciana Ribeiro? Apesar de um diálogo tranquilo, eu soube que tocaríamos em pontos importantes. Taróloga, sei que os símbolos lhe dão encanto. A entrevistada de hoje é uma escritora que transpira jovialidade e que está sempre a passear pelo mundo com doçura e encanto.

 

Você é natural de que município do Piauí?

Teresina mesmo.

Tarciana, você é mais conhecida como taróloga. Em que momento a escrita e o tarô passaram a dialogar no seu percurso?

Desenvolvi o trabalho com os oráculos, principalmente com o tarot, concomitante ao meu processo de especialização em Semiótica e Análise do Discurso. Descobri que a partir daquele momento meus atendimentos todos tinham uma vertente da Semiótica...visto que eu não consigo fazer um atendimento sem citar uma música, um poema, uma peça, um quadro, uma cena que seja. Desde então, achei válido que o meu trabalho sempre se aproximasse do meu cliente utilizando a Semiótica, que pra mim é rica, divertida e muito útil para assimilar os simbolismos de cada carta.

Você percebe o tarô como uma forma de leitura (do mundo, do outro, de si)? Como isso atravessa sua escrita? Há algo que ele te ensinou sobre narrar?

Sim, com certeza. Costumo falar nos atendimentos que o tarot para mim é uma espécie de novela… cada carta representa um capítulo da nossa vida. E sim, muitas vezes me valho da simbologia para compor um escrito, ainda que eu não escreva obrigando o tarot, ele me dá muita luz sobre o que quero provocar no leitor quando escrevo.

Seus textos têm fortes elementos simbólicos, a que você atribui isso?

Desde criança sempre tive curiosidade pelo místico… lembro de por volta dos 12 anos ler revistinhas Capricho e ficar entusiasmada sobre o que cada planeta representava dentro da nossa personalidade… Quando adulta, encontrei Jung, tive mais contato com figuras de linguagem na graduação e, como mencionado, a especialização me abriu muita a mente. Creio que seja uma união de tudo: a curiosidade pelo místico, a formação e o encantamento em transformar sensações e vivências em elementos vivos na escrita.

Você está lançando o seu primeiro livro agora. Como foi esse processo? Fale um pouco sobre ele.

Honestamente eu nunca tive uma gana muito forte sobre lançamentos… sou de uma cidade onde os sonhos dificilmente têm vez… e não falo isso numa posição de vítima das circunstâncias, muito pelo contrário, falo como espectadora de um local onde o lazer é quase que uma recompensa por tanto trabalho. Nossos movimentos são, em sua maioria, independentes. Muitas vezes não temos apoio. Passei então a enviar os textos para outras editoras, sem aguardar editais… Bom, é isso… Acabou que o livro foi escolhido pela Editora Escola Cidadã. Estou feliz por essa primeira possibilidade impressa.

Em seu processo de escrita você começa pelo todo ou pelas partes? Pelo conceito ou pelo detalhe?

Não sou uma escritora assídua. Não escrevo todos os dias. Ao contrário de pensar… isso é toda hora. Geralmente começo o texto pela frase que preciso que exista. O restante do texto é pretexto para justificar a frase. Todo ele importa… mas eu começo geralmente pela ideia final.

Tarciana Ribeiro existe sem a escrita?

Materialmente, poderia existir, mas certamente seria uma pessoa com um olhar diferente sobre o mundo. Acredito que a escrita é um manifesto filosófico. Eu poderia existir, não faço ideia de quem eu seria.

Que tipo de transformação você espera provocar no seu leitor através dos seus textos?

Principalmente que sintam que não estão sozinhos sentindo seja lá o que for. Ter uma identificação textual me acalenta. Gosto de imaginar que esse sentimento atravesse aquele que me lê.

algo que você ainda não conseguiu escrever, mas sente que está à espreita?

Não tenho pretensão para romances, no entanto novelas me apaixonam. Acredito que um dia possa acontecer.

Você é uma mulher escritora. Que mulheres te inspiraram a ocupar esse lugar?

Principalmente: Clarice, Adélia Prado e Matilde Campilho.

Pesquisas históricas indicam que as mulheres representam a maioria leitora no cenário literário brasileiro, entretanto elas ainda são minoria no quesito publicação. A que você atribui essa diferença no cenário literário nacional?

Mulheres são máquinas invisíveis que sustentam o patriarcado. Nosso principal aliado é nosso maior fugitivo: o tempo. Creio que nem todas dispomos de tal luxo.

Ser mulher atrapalhou ou atrapalha sua investida no mundo artístico literário? Você já sentiu o seu trabalho diminuído ou invalidado pelo simples fato de ser mulher?

Se eu fosse homem, provavelmente teria mais passe livre em alguns locais ou grupos. Mas me faço uma pergunta: será que se eu fosse homem,teria menos preguiça social? Porque como mulher, tenho demais. E acho que isso pode ter atrasado muito o meu processo de publicação. Quase perdi o timming esperando reconhecimento de coletivos.

O que significa ser uma artista para você?

Pensar e viver com autenticidade, deixando uma marca válida por onde passar. Lançar mil livros e não deixar uma única pessoa mais consciente do seu próprio poder e da sua sensibilidade, não imprimir uma boa lembrança (sem romantismo) não está nos meus planos.

Um estudo recente publicado na revista Saúde Coletiva aponta um percentual de 12% de mulheres com transtornos mentais comuns contra 3,2% dos homens, bem como a maior prevalência de pensamentos suicidas em mulheres. Você sente ou percebe que as questões psicológicas afetam a produção literária das artistas do sexo feminino?

Com certeza. Somos aparelhadas desde cedo a sermos uma espécie de “polvo”. Criamos membros para poder dar conta de tudo. Essa sobrecarga cultural inconsciente (ou consciente) contribui para que deixemos a escrita de lado e cuidemos de outras milhares de coisas durante a vida. Não digo que para todos os homens a vida literária é fácil… mas sim, é visivelmente diferente.

Se sua escrita fosse uma carta de tarô, qual seria, e por quê?

O Eremita. Demoro um tempo dentro da caverna para produzir um texto, que geralmente é uma visão minha sobre uma situação vivida ou observada.

Quem quiser adquirir os seus livros, como deve proceder?

Pode entrar em contato diretamente comigo através do contato e redes sociais.

Deixe o seu contato para quem tiver interesse.

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