Créditos da imagem: IA
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DISCURSO DE POSSE NA ACADEMIA MAÇÔNICA DE LETRAS – CADEIRA Nº 14 – EM 27 DE MAIO DE 2026 – POR MARCELO MARTINS EULÁLIO

 

A Herança das Letras e a Responsabilidade da Continuidade

 

Irmãos Confrades, familiares e amigos presentes!

 

De início, dirijo-me ao Grande Arquiteto do Universo, a quem agradeço pela graça de vivenciar este momento tão significativo e pela honra de integrar esta respeitável Academia Maçônica de Letras do Piauí, ocupando a Cadeira n. 14.

Neste momento especial, não poderia deixar de expressar minha gratidão aos meus pais, que me ensinaram o valor da educação, da honestidade e da perseverança. Deles recebi não apenas a vida, mas também os alicerces morais que sustentam minha caminhada. Se hoje aqui estou, ocupando esta honrosa cadeira, devo muito aos exemplos de dedicação, trabalho e amor que sempre me ofereceram.

À minha esposa, minha gratidão pela família que construímos, por estarmos juntos compartilhando sonhos, pela companhia leal, pela compreensão nos momentos de ausência e pelo incentivo constante ao longo da minha trajetória. Compartilhar a vida ao lado de alguém que acredita em nossos sonhos torna os caminhos mais leves e as conquistas mais significativas.

Aos meus filhos, maior razão de tantas batalhas e inspirações diárias, agradeço por despertarem em mim o desejo permanente de ser melhor. Que eles sempre compreendam que o conhecimento, a cultura e os valores humanos constituem algumas das heranças mais preciosas que podemos construir e transmitir.

Talvez por isso eu sempre tenha compreendido que as letras não pertencem apenas ao intelecto. Elas também pertencem à memória afetiva, à formação humana e aos vínculos que construímos ao longo da nossa formação e jornada terrena.

Assumir esta cadeira não significa apenas ocupar um lugar na Academia. Significa receber um legado, que carrega consigo uma memória, e nos impõe uma responsabilidade e continuidade.

A Cadeira n. 14 tem como patrono Jacob Almendra de Souza Gayoso, figura cuja trajetória honra, ao mesmo tempo, as letras, a medicina, a vida pública e a Maçonaria. Médico formado em Salvador, oficial do Exército, participante da campanha de Canudos, deputado estadual e membro da Loja Maçônica Caridade Segunda, Jacob Gayoso representa o ideal do homem comprometido com o conhecimento, com a sociedade e com os valores humanistas. Sua história projeta-se para além de sua própria existência, alcançando gerações que igualmente contribuíram para a vida pública e intelectual do Piauí, como ocorreu com Jacob Manuel Gayoso e Almendra, que também deixou sua marca na política, no Exército e na cultura piauiense, chegando à Academia Piauiense de Letras.

Ao ocupar esta cadeira, sinto-me não apenas honrado, mas também desafiado a estar à altura da memória de seu patrono, homem que compreendeu que a verdadeira grandeza reside no serviço prestado à coletividade e no cultivo permanente do espírito humano.

Registro igualmente minha reverência à memória do Irmão Adolfo Martins Moraes, que anteriormente ocupou esta Cadeira nº 14 da Academia Maçônica de Letras do Piauí. Homem de sólida formação intelectual, graduou-se em Engenharia Agronômica pela Universidade Federal do Ceará, em 1973 e, posteriormente, obteve o título de mestre pela Universidade Federal do Piauí, vinculada ao Programa TROPEN, consolidando uma trajetória marcada pelo compromisso com o conhecimento científico e com o desenvolvimento regional. Sua formação acadêmica revelou um espírito dedicado à compreensão profunda das potencialidades e desafios do solo piauiense, sempre associando ciência, planejamento e responsabilidade social.

Ao longo de sua vida profissional, Adolfo Martins Moraes exerceu relevantes funções públicas e técnicas, destacando-se por sua atuação na Secretaria de Planejamento do Estado do Piauí e como analista de pesquisa da Fundação Centro de Pesquisas Sociais e Econômicas do Piauí. Seu trabalho esteve voltado à reflexão estratégica sobre o desenvolvimento do Estado, reunindo ciência, planejamento regional e formulação de políticas públicas. Especialista na área de Agronomia, com ênfase em gênese, morfologia e classificação dos solos, dedicou-se a estudos relacionados à conservação ambiental, aos recursos minerais e às dinâmicas territoriais do Piauí, contribuindo para uma visão mais técnica e sustentável do crescimento regional.

Mais do que um pesquisador ou gestor público, Adolfo Martins Moraes representou a figura do intelectual comprometido com a realidade de sua terra. Seu percurso demonstra que o verdadeiro saber não se encerra nos livros ou nos laboratórios, mas se projeta na construção de políticas, no fortalecimento das instituições e na busca pelo desenvolvimento humano e social. Ao assumir esta cadeira que lhe pertenceu, recebo também a responsabilidade simbólica de honrar uma trajetória marcada pela seriedade acadêmica, pelo serviço público e pelo amor ao Piauí.

Registro ainda que seu percurso intelectual e sua contribuição para esta Academia ajudaram a manter viva a tradição maçônica das letras, da cultura e da fraternidade. Toda cadeira acadêmica também é feita da presença daqueles que a antecederam. E é impossível ingressar neste espaço sem reconhecer, com respeito e gratidão, os passos já trilhados por aqueles que nos antecederam.

Meus Irmãos, para os que amam as letras, poucas honras podem ser maiores do que pertencer a uma Academia de Letras. Para mim, a Academia assemelha-se a uma verdadeira estufa cultural. É um ambiente fértil à criação intelectual, onde ideias florescem, se entrelaçam e se aperfeiçoam continuamente. É um espaço de convivência luminosa, no qual compartilhamos saberes e inspirações em um contínuo processo de estímulo mútuo e saudável produção literária.

Ler e escrever são habilidades tipicamente humanas, são hábitos que nos aperfeiçoam como seres humanos. Contudo, vivemos um tempo em que essas habilidades parecem ameaçadas por um certo risco de atrofia em meio aos avanços da inteligência artificial. É certo que não poderemos conter o avanço da inteligência artificial. Ela veio para ficar, diz o escritor Sérgio Rodrigues, que acrescenta: “estamos a caminho de uma literatura orgânica, aquela em que uma pessoa escolhe palavras uma por uma e o texto com ambições artísticas produzido com aditivos robóticos”. Acredito que a máquina não nos substituirá. Nesse cenário, torna-se ainda mais essencial que a Academia não se descuide de seu papel fundamental, qual seja, o de fomentar, em cada um de nós, o cultivo permanente da leitura, da escrita e do pensamento autêntico e crítico.

A aventura da escrita, muitas vezes, não é percebida em toda a sua dimensão. E, no entanto, trata-se de uma experiência profundamente humana e prazerosa. Pela escrita romanceamos, poetizamos, narramos histórias e estórias - reais ou fictícias - e convidamos o leitor a viajar conosco por mundos jamais imaginados.

Escrever é arte. É a arte das palavras, palavras que, como ensinou Drummond, não nascem amarradas, elas saltam, se encontram, se dissolvem. Quem escreve deve submeter-se ao reino das palavras. Lá estão os romances e as poesias que ainda precisam nascer. Lá estão elas, como dizia Drummond, sós e mudas, em estado de dicionário.

Escrever exige paciência e prudência, tempo e alma, leitura e ciência, disciplina e calma, perspicácia e resiliência. Exige desprender a alma, pescar sonhos e ousar imaginar mundos ainda inexistentes. Exige conhecer as virtudes e fragilidades humanas, pois toda grande literatura nasce, em alguma medida, da tentativa de compreender o próprio ser humano nas suas vicissitudes e fortunas.

Ignácio de Loyola Brandão recomenda que não se pergunte a alguém que esteja escrevendo um livro: “quando sai?” Ele não saberá responder. Quem escreve não tem ideia de quando terminará. Diz o décimo ocupante da Cadeira 11 da Academia Brasileira de Letras: “Não temos ideia de quando vamos terminar. Mesmo os mais sérios, organizados, sistemáticos, os que planejam tudo, acabam se metendo em uma aventura que, a partir de certo momento, fica fora de nosso domínio. Mas sempre é fascinante. Nessa batalha, ficamos com a sensação de tempo infinito. É o nosso ponto de maior excitação.”

Escrever é caçar palavras. O papel torna-se confessionário e desafio. A escrita testa o escritor, assim como o solo árido ou movediço desafia a resistência do andarilho. Escrever é resgatar o passado, testemunhar o presente e antecipar o futuro. É construir vínculos com personagens, histórias e sentimentos. É dar espaço à imaginação, desafiar a lógica e ultrapassar os limites impostos ao espírito humano.

Foi assim com Homero e a imortalidade de seus versos na Ilíada e na Odisseia, obras que exigem de nós muito mais do que uma leitura ingênua. Foi assim também com Dante, cuja Divina Comédia nos revela o estado da alma após a morte, nos conduz, de forma magistral, às profundezas da alma humana e aos mistérios da existência. É filosofia e poesia.

Como bem ensinou Machado de Assis, “o que se deve exigir do escritor, antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço”. E as letras, como ele próprio afirmou, são boas amigas.

E se Machado nos inspira, Graciliano Ramos nos disciplina. Ao comparar o ofício da escrita ao trabalho das lavadeiras, ele nos ensina que escrever exige rigor, paciência e depuração. A palavra não foi feita para enfeitar ou brilhar como ouro falso. A palavra foi feita para dizer - com verdade, precisão e essência.

Meus Irmãos, aqui estou movido pela esperança de contribuir com esta Academia, desafiando as palavras, compartilhando saberes, incentivando produções e somando esforços para que a chama das letras permaneça viva.

Que esta Academia permaneça sempre como casa da palavra, da memória e do espírito maçônico. Que nela continuemos cultivando não apenas a literatura, mas também a sensibilidade humana, a reflexão crítica e o compromisso com aquilo que nos torna verdadeiramente civilizados.

Obrigado!