Luiz Ayrton Santos Junior
Luiz Ayrton Santos Junior

A COSTURA DE LINHAS E DE DESTINOS EM LUIZ AYRTON SANTOS JUNIOR

 

Por Diego Mendes Sousa

 

O tempo é um cirurgião implacável e o iluminado Luiz Ayrton Santos Junior (1961-) aprendeu a manejar os instrumentos das gavetas do extraordinário. Não há o médico conceituado de um lado, o professor consagrado do outro e o poeta no final do mágico destino. Nele, tudo transborda e se mistura na mesma quimera das miudezas humanas.

Quem o vê empunhar o bisturi, com a precisão cirúrgica de quem mestreou na USP e doutorou-se em Pernambuco, talvez não imagine que aquela mesma mão, horas mais tarde, segura uma caneta-tinteiro para rabiscar a imortalidade nas páginas da Academia Piauiense de Letras (APL), onde se cristaliza como um dos mais brilhantes membros.

A verdade é que o bisturi e a caneta, para Luiz Ayrton, são instrumentos gêmeos. Ambos servem para a mesma urgência: abrir frestas na dor para que a luz possa penetrar.

Há uma poesia silenciosa nos corredores da Fundação Maria Carvalho Santos. Ali, onde o câncer de mama tenta impor o findar de uma jornada, Luiz Ayrton Santos Junior costuma colocar reticências. Onde o medo tenta roubar a feminilidade e o sorriso, o médico-ativista devolve o amparo. É o exercício da medicina em seu estado mais puro e primitivo: o sacerdócio do alívio.

Luiz Ayrton Santos Junior compreendeu, muito antes das estatísticas frias dos congressos de mastologia, que curar o corpo sem acolher a alma é apenas metade da missão. Por isso, rodou o país, presidiu a Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama) e transformou a dor de tantas mulheres em uma bandeira nacional de dignidade.

Na sala de aula, diante dos olhos atentos dos alunos da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e da Universidade Estadual do Piauí (UESPI), Luiz Ayrton Santos Junior não ensina apenas a anatomia, história da medicina ou a patologia. Ensina a bioética do olhar e do saber olhar, como operou secretamente Fernando Pessoa: o essencial é saber ver. Mostra que atrás de um prontuário existe um nome, uma história, um medo e uma esperança. Luiz Ayrton é o mestre que subverte a frieza dos jalecos brancos, temperando a rigidez da ciência com a filosofia, com a poesia e com o calor do afeto.

Luiz Ayrton Santos Junior é esse homem-maestro que encontra tempo no compasso da pressa diária. Ele caminha pelo mundo com a curiosidade dos verdadeiros poetas e com a responsabilidade dos cientistas. Sabe que a vida é um sopro, como dizia Oscar Niemeyer, e Luiz Ayrton escolheu gastar o seu sopro oxigenando os dias de quem mais precisa.

Ao final do dia, quando as luzes do consultório se apagam e o silêncio da noite convida à reflexão, Luiz Ayrton Santos Junior recolhe-se não como quem cumpriu um dever, mas como quem renovou um pacto com a existência. Um pacto de cura, de letras e de amor ao próximo. Sorte do Piauí por ter em sua terra um homem célebre que sabe curar com a ciência e eternizar o tempo com as palavras.

Por Diego Mendes Sousa, servidor público federal, advogado e escritor.