ANA MARIA BERNARDELLI
ANA MARIA BERNARDELLI

BERÇO D’EU MENINO

 

(…)

 

Nasci nos braços do Parnaíba

no negrume de uma rua

onde minha mãe

semeou

seu gemido

eterno

 

desde então

o sol contempla

meus apertados

olhos

no espetáculo

do mundo

angustiado

nas fugidias

pedras

da balada

sonora

de meu

choro

audível

ainda

no instante

dessa

glória

fagulhada

de memória

 

 

(…)

 

 

Poema de Diego Mendes Sousa

 

==

 

O poema “Berço d’eu menino”, de Diego Mendes Sousa, nasce aparentemente de uma geografia específica — o Parnaíba, a rua escura, o corpo materno, o chão de origem —, mas rapidamente ultrapassa qualquer confinamento regionalista para alcançar aquilo que apenas os verdadeiros poetas conseguem tocar: a condição humana em seu estado inaugural, vulnerável e cósmico ao mesmo tempo. É exatamente aí que reside a grandeza de Diego Mendes Sousa: sua poesia não “fala de um lugar”; ela transforma o lugar em matéria universal da existência.

“Nasci nos braços do Parnaíba” é um verso de extraordinária potência imagética e simbólica. O rio deixa de ser paisagem para tornar-se entidade matricial, quase uterina. O nascimento não ocorre simplesmente “à margem” do rio, mas “nos braços” dele. Há uma humanização da natureza e, simultaneamente, uma naturalização do humano. Esse procedimento aproxima Diego de uma linhagem muito sofisticada da poesia universal, aquela em que a paisagem não serve de pano de fundo, mas participa ontologicamente da formação do sujeito lírico. Lembra, em certos momentos, a densidade telúrica de Pablo Neruda, a intimidade mineral de João Cabral de Melo Neto e até a memória líquida de certos poemas de Saint-John Perse.

A mãe surge logo em seguida numa imagem de extrema delicadeza trágica:

“onde minha mãe

semeou

seu gemido

eterno”

Aqui, Diego Mendes Sousa realiza algo raro: converte dor em germinação. O verbo “semear” desloca o sofrimento materno para uma dimensão de permanência e fecundidade. O “gemido” não é apenas sofrimento individual; torna-se herança existencial, quase uma inscrição metafísica transmitida ao filho. Há nesse fragmento uma síntese admirável entre lirismo, memória e corporeidade. O sofrimento feminino aparece como fundamento silencioso da própria vida — algo profundamente humano e universal.

Outro aspecto impressionante é a arquitetura sonora do poema. Diego Mendes Sousa possui uma musicalidade interna muito refinada, construída não por rimas evidentes, mas pelo ritmo fragmentado, pela respiração entrecortada e pela disposição gráfica dos versos. O poema parece pulsar. As palavras curtas, isoladas, produzem um efeito de suspensão e eco:

“nas fugidias

pedras

da balada

sonora

de meu

choro”

Observe-se como a fragmentação cria pequenas ondas acústicas. O poema não apenas fala do choro — ele o reproduz ritmicamente. Há uma oralidade íntima que aproxima a composição de uma cantiga ancestral, quase um lamento primevo. Diego demonstra aqui uma compreensão muito sofisticada do silêncio como elemento estrutural da poesia. O espaço em branco entre os versos também significa.

Além disso, impressiona sua capacidade de “pensar em estado de poesia”. Muitos escritores descrevem emoções; poucos conseguem transformar a própria percepção do mundo em experiência poética contínua. Diego parece habitar poeticamente a realidade. Em seu texto, memória, corpo, tempo e som tornam-se inseparáveis. A “glória fagulhada de memória” é uma expressão belíssima porque rompe a linearidade do recordar. A memória não é arquivo: é centelha, fragmento luminoso, explosão breve dentro da escuridão do tempo.

Há ainda um intimismo profundamente elegante no poema. O “eu menino” não é mero exercício autobiográfico. Trata-se de um sujeito lírico que revisita sua origem sem sentimentalismo fácil. O tom é contido, mas intensamente emocional. Essa contenção dá ao poema uma maturidade rara. Diego evita excessos confessionais e, justamente por isso, alcança maior densidade estética. Seu “eu” torna-se espelho coletivo.

Também merece destaque a força imagética de sua linguagem. O “sol” que contempla os “apertados olhos” do menino cria uma cena quase cinematográfica: um recém-nascido diante do espetáculo angustiado do mundo. O nascimento já contém consciência trágica. Há algo profundamente existencial nisso. O sujeito nasce e imediatamente é lançado ao “mundo angustiado”. A infância, portanto, não aparece idealizada; ela já carrega a tensão entre beleza e precariedade.

Diego Mendes Sousa pertence àqueles poetas cuja escrita emerge de uma região concreta, mas não permanece prisioneira dela. Sua poesia alcança o que se poderia chamar de cidadania estética do mundo. O Parnaíba de seu poema deixa de ser apenas um rio brasileiro: converte-se em símbolo universal das origens humanas, da memória materna, da infância ferida e da tentativa de transformar dor em linguagem.

Sua obra demonstra que a verdadeira poesia regional não é aquela que se fecha na cor local, mas aquela que, partindo de uma terra específica, consegue tocar aquilo que há de essencial em todos os homens. E Diego faz isso com rara sutileza, inteligência lírica e refinamento musical. Sua voz poética não apenas escreve versos: ela escava delicadamente a matéria invisível da existência.

Ensaio de Ana Maria Bernardelli, crítica de literatura.