A onça e a discórdia na Malhada de Pedras
Por Reginaldo Miranda Em: 15/02/2026, às 14H55
A onça e a discórdia na Malhada de Pedras
Reginaldo Miranda[1]
Na fazenda Malhada de Pedras, no vale do rio Esfolado, o vaqueiro Neto acordou com o latido dos cachorros e o berro desesperado dos caprinos no chiqueiro. Ouviu o barulho e logo soube: era a suçuarana que voltava a cobrar seu imposto em carne. Expulsa das chapadas lá no alto, onde o desmatamento para a soja desfolhava a terra e sumia com a caça, a onça descia as serras para matar no vale.
Sem perda de tempo, Neto pegou a lanterna e a espingarda. Abriu a porta da casa-grande e apressou o passo, seguido pelos cães agitados. Não andou dez passos quando ouviu o supapo: o baque seco do bicho saltando a cerca de metro e meio com uma marrã na boca. Ao alcançar o lugar, alumiou o chão e viu as marcas de sangue e o rastro fresco no solo arenoso. No curral, as cabras corriam em círculos, procurando fuga do cheiro da morte.
Neto encontrou duas cabras feridas esperneando no chão. Pensou logo em sacrificá-las para aproveitar a carne e mandou chamar o vizinho, Chico Reis, que morava a meia légua. A onça matara três, embora só levara uma. Já era a terceira vez que atacava na fazenda, mas nunca tão perto da casa, dentro do curral. O rastro não deixava dúvida da força da bicha: largo como punho de homem.
Com o romper do dia, chegou Chico Reis. Ofegante, ajudou Neto no pátio defronte à casa. Enquanto um segurava a criação amarrada ao galho da catingueira, o outro tirava o couro e tratava a carne. Terminada a tarefa, seguiram ambos para dentro do cocal, rastejando o bicho entre os babaçuais.
Não foi difícil segui-la pelas pegadas recentes e pelas marcas de sangue na folhagem. Logo encontraram, encoberta por palhas secas, a carcaça deixada pelo felino. Como sertanejos experimentados, sabiam que a onça voltaria à ceva pelo mesmo caminho. Ali, Chico Reis armou a arapuca: fincou forquilhas de candeia para firmar a espingarda na altura do peito da fera e esticou um fio de tucum atravessado no trilho. Bastaria a dianteira da onça peitar a linha invisível para que o gatilho se soltasse contra o próprio coração. Disfarçaram tudo com galhos de unha-de-gato e voltaram para casa.
Na madrugada seguinte, Chico Reis chamou Neto à porta. De faca à mão e outra espingarda de reserva, seguiram para o cocal. Os cães iam à frente, mas logo recuaram ao pressentir o cheiro do bicho. Não demorou para perceberem que a arma disparara. Havia poças de sangue fresco, mas a onça não estava ali.
— Essa onça tá baleada aí adiante e pode atacar nós! — disse Chico Reis, com o respeito que se tem a bicho enfezado.
Resolveram buscar reforço. Neto selou o cavalo e galopou até a fazenda vizinha para trazer Martinho, moço metido a valente vindo das bandas do Itaueira. Foram os três rastejar o felino pelas matas e ramagens do cocal. Martinho ia na frente, mas a coragem de todos minguava quando os cães velhos refugavam. Foi um cachorrinho novo, sem ciência do perigo, que correu adiante e descobriu a onça já estendida, morta pelo tiro certeiro.
Puderam, enfim, medir o tamanho do bicho. Tiraram-lhe o couro, que ficou com Neto, espichado em varas para secar nos galhos de uma laranjeira do quintal. Neto passou a dizer, com orgulho, que matara a onça. Martinho, por seu turno, decepou uma das mãos da fera e mostrava a quem chegava à sua casa, dizendo-se o autor do feito. Chico Reis não ficava atrás, lembrando que a armadilha fora dele.
Não tardou que se desentendessem pela autoria da façanha. O que era amizade antiga, de vizinho e compadre, rachou pela vaidade de um couro de onça. Foi preciso a palavra de outros para apartar os ânimos e evitar o pior, mas o estrago ficou. Nunca mais se falaram.
A onça morreu uma vez só, mas a amizade deles apodreceu antes mesmo que o couro na laranjeira terminasse de secar.
[1] Advogado e escritor. Membro do IAB, da APL e do IHGPI. Contato: [email protected]

