Perdas e Donos
Em: 22/02/2026, às 19H19
[Halan Silva]
Que a sorte fez a parte dela, isso todo mundo sabe, mas o que veio depois coube à sortuda fazer, nesse caso: à Dona Mocinha. Desesperada para encontrar a porca zincada de pressão, que fora levada de cima de sua mesa de trabalho e que depois lhe custou um olho da cara, D. Mocinha chegou à repartição antes mesmo dos galos cantarem. Pensando estar sozinha, ela virou a sala pelo avesso, mas, ao abrir o basculante da janela, surpreendeu-se com o forte odor de “Pau-Ronca”, que recendia do fundo da garagem, a indicar a presença matutina do seu Paraná.
Em cima da mesa de trabalho, no lugar da porca extraviada, D. Mocinha encontrou um bilhete de loteria preenchido e um pouco amarfanhado, como se alguém tivesse desistido de fazer a aposta. No cume do desespero, ela jogou o bilhete no cesto de lixo, mas logo mudou de ideia, derramou o lixo no chão e pegou o bilhete de volta. À medida que os colegas de trabalho chegavam, D. Mocinha passava de mesa em mesa, brandindo o bilhete de loteria e perguntando quem era o dono dele. Porém, o esforço foi em vão, ninguém lhe deu a menor atenção, nem mesmo o seu Paraná, que é viciado em jogos de azar - especialmente em jogos de dados e de roleta. Fracassada a tentativa de encontrar o dono, D. Mocinha pôs o bilhete no bolso da blusa e saiu para entregar senhas aos pais de alunos, que formavam uma longa fila do lado de fora da escola.
Encerrado o expediente, D. Mocinha pegou o ônibus na Frei Serafim e desceu na altura da praça do bairro Mocambinho, percorreu quinhentos metros e chegou à Quadra 33, Setor “C”, do Mocambinho III. Estava calor, D. Mocinha suava a cântaros, exausta, entregou as pesadas sacolas de supermercado para o neto, o João Pedro. Na sequência, fez o que é de hábito: tomou banho, vestiu um “robe de chambre” carmim, colocou a roupa servida no cesto e saiu para botar o lixo na calçada… Durante o jantar, D. Mocinha distraiu-se pensando na situação do irmão, que não consegue arranjar trabalho; vê-lo todos os dias dentro de casa, sem dar um prego numa barra de sabão, era a maior de suas preocupações cotidianas. D. Mocinha não viu o dia raiar, acordou tarde, atrasada para o trabalho, o que a fez pedir um pequeno favor ao irmão:
— Faz-me um favor, Chico, bote a roupa suja para lavar, o sabão está na despensa. — Disse D. Mocinha ao irmão, minutos antes de sair correndo para o ponto de ônibus.
O irmão era um tipo esquisito, tinha pavor de ver o rosto refletido na superfície dos espelhos. Sem responder à irmã, permaneceu calado, grudado na “TV”, assistindo ao programa “Chaves”. Porém, como se tivesse sido atingido por um raio, levantou-se e saiu correndo para o quintal onde, às pressas, subiu no pé de manga: estava na hora de a vizinha tomar banho ao relento.
À noite, quando retornou da escola, após ter perdido o ônibus por duas vezes seguidas, por distração, D. Mocinha encontrou a roupa servida no mesmo lugar, do jeito que a deixara. Vendo o irmão diante da “TV”, pensou: — Coitadinho, deve ter se distraído assistindo ao “Chaves”. Em seguida, procurou o aconchego do quarto e caiu num sono instantâneo, quase letárgico, mas acordou pouco tempo depois, assombrada pela alma do avô, que em sonho insistia para que fosse fazer a aposta. Apesar de ser desapegada ao dinheiro, D. Mocinha atendeu ao apelo do fantasma do seu avô, que sempre lhe aparecia em sonhos perturbadores - pegou o bilhete no bolso da blusa e amanheceu na porta da casa lotérica.
Ao conferir e conferir o resultado do sorteio, D. Mocinha não pensou duas vezes: ligou para o chefe, comunicando que não iria trabalhar porque estava caindo uma forte chuva no Mocambinho. Palhares ficou desconfiado, estranhou essa chuva em pleno mês de outubro. Sem acreditar na fortuna que acabara de ganhar, D. Mocinha sentiu calafrios, revirou os olhos e viu o mundo rodar, passou mal na porta da casa lotérica. Quando soube da premiação de D. Mocinha, o seu Paraná apareceu com uma conversa bonita, reivindicando o bilhete que, segundo ele, havia esquecido sobre a mesa de D. Mocinha. Porém, ninguém acreditou nas palavras dele, nem mesmo o Baltazar, seu eterno companheiro nas fabulosas caçadas de onça. Os colegas de repartição tinham um pé atrás com o seu Paraná, devido a uma de suas lambanças: ele se esqueceu de pagar um bolão de loteria que foi premiado.
Para não despertar inveja dos colegas de trabalho, D. Mocinha protocolou um pedido de licença sem vencimentos. Não sabia ela que o chefe andava despeitado, dizendo para todo mundo que D. Mocinha só queria se aparecer; por conta disso, Palhares indeferiu a licença, sob alegação de que D. Mocinha não ressarciu ao erário o valor da porca zincada de pressão, que desaparecera da coordenação por negligência dela. Para não dar o braço a torcer, D. Mocinha desistiu da licença e voltou a trabalhar. Porém, o seu Paraná não dava trégua, quando ia deixar a garrafa de café, enchia-lhe a paciência, dizendo que ainda iria provar que o bilhete era dele.
— Se eu não tivesse cruzado a bola, você não teria feito esse gol. — Insistia o Paraná, na expectativa de matar D. Mocinha no cansaço.
— Sai pra lá, jacaré, que eu nunca te dei confiança. — Respondia-lhe D. Mocinha.
Pertinaz, o seu Paraná não costumava desistir de um jogo - por mais difícil que ele fosse. Sair de mãos abanando, isso nunca; o seu Paraná gostava de levar vantagem em tudo - seja na entrada ou na saída.
— É, D. Mocinha, pelo visto você já esqueceu a promessa que fez: que se fosse premiada na loteria, ajudaria uma família pobre. — Lembrou-a o seu Paraná, movendo a pedra para dar cheque-mate.
— Essa promessa já está paga, Paraná, ajudei uma família pobre: a minha! — Respondeu-lhe D. Mocinha, com uma risadinha.
Dizem que o bom jogador não é o que ganha sempre, mas aquele que sabe perder no jogo. O seu Paraná, antes de sair, jogou a toalha, piscou o olho para D. Mocinha, fez um aceno e sorriu, dizendo-lhe:
— Quando fizer uma festa de “granfino”, lembre-se do Paraná, continuo tirando serviço de garçom.
Desde que fora sorteada na loteria, D. Mocinha mudou da água para o vinho, é outra pessoa, só anda metida nos panos, não é mais aquela que saiu de Lagoa do Piauí, puxando a cachorrinha. Está esnobe, irreconhecível, sem mais nem menos abriu a carteira, tirou duas notas de cem reais e deu ao seu Paraná, dizendo:
— Pegue, vá tomar uma merenda por aí!
A maior virtude do seu Paraná é a gratidão, ele não costuma cuspir no prato que comeu, por isso, antes de meter o dinheiro no bolso, ele teve o cuidado de expressar gratidão à sua benfeitora:
— Essa aí não é pouca merda, não — é gente!
Halan Silva, escritor.

