ANA MARIA BERNARDELLI - CRÍTICA DE LITERATURA
ANA MARIA BERNARDELLI - CRÍTICA DE LITERATURA

(...)

 

Lavo os pés no mar

como lavadeira de rio

que encharca as mãos

nas águas

das correntezas

perenes

e bate

o coração na pedra

de um cais nostálgico

e puro

 

 

Lavo os pés no mar…

 

(Poema de Diego Mendes Sousa)

 

Os poemas falam de tudo.

Falam do amor e da morte, das cidades e dos quintais, das guerras humanas e das delicadezas invisíveis do cotidiano. Há poemas que narram, outros que denunciam, alguns que apenas contemplam. Existem os que passam rapidamente pelos olhos, e existem aqueles que nos atravessam devagar, como certas marés da memória.

Mas há ainda uma categoria mais rara: poemas que deixam de ser apenas linguagem para se tornarem verdadeiros rituais poéticos. Textos em que a palavra não apenas descreve um gesto; ela o consagra. 

O poema de Diego Mendes Sousa pertence justamente a essa linhagem: a dos versos que transformam a experiência humana em cerimônia íntima entre corpo, tempo e transcendência. Seus versos não descrevem paisagens: eles as ritualizam.

Os versos de Diego Mendes Sousa transformam o mar em continuação da memória ancestral. Seu poema não é um corpo diante da água; é quase uma cerimônia íntima entre tempo, sal e origem. Ao dizer “lavo os pés no mar”, o poeta desloca o gesto cotidiano para uma dimensão simbólica profundamente brasileira: a lavadeira de rio, figura de resistência silenciosa, aparece como arquétipo do cuidado, da persistência e da purificação afetiva.

Mas o verso mais perturbador talvez seja outro: “bate o coração na pedra”.

Não a roupa. 

O coração.

E nisso reside a inteligência rara do poema: a pedra do cais deixa de ser apenas matéria física e torna-se superfície de confronto emocional. 

Amar, recordar e existir passam a ser formas de atrito contra o tempo.

A fotografia de Jairo Nunes Leocádio, na Praia da Pedra do Sal, amplia essa experiência. Há naquela paisagem algo mineral e metafísico ao mesmo tempo. O litoral piauiense parece não ter sido feito apenas de geografia, mas de permanências. Como se as pedras guardassem vozes antigas, restos de marés humanas, vestígios de partidas.

O poema termina suspenso em reticências porque certas águas não acabam.

Continuam correndo dentro de quem as leu.

 

(...)

 

Lavo os pés no mar

como lavadeira de rio

que encharca as mãos

nas águas

das correntezas

perenes

e bate

o coração na pedra

de um cais nostálgico

e puro

 

 

Lavo os pés no mar…

 

 

Ensaio de Ana Maria Bernardelli - crítica de literatura.

 

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