[WASHINGTON RAMOS]

                                               O QUE ENTENDI

     Não é fácil discorrer sobre uma obra literária famosa, elogiada por muitos que a leram e por outros que não a leram e apenas repetem os elogios dos outros. É mais difícil ainda quando o autor é um clássico e ganhador do Prêmio Nobel de Literatura. Esse é meu caso após ler A montanha mágica, de Thomas Mann.

     Fazia muito tempo que eu pretendia ler essa obra, mas só agora tive oportunidade de fazê-lo. A edição que li é a da editora Companhia das Letras. Tem 848 páginas. Poderia ter menos, se o autor fosse mais conciso. Sua linguagem, à maneira dos autores realistas e naturalistas, é arrastada e cheia de descrições, algumas totalmente dispensáveis. A montanha mágica é um livro publicado em 1924, quando o Modernismo já estava sedimentado na Europa, mas seu estilo se encontra ainda no século XIX.

     Quando leio um livro, a primeira coisa que procuro compreender e explicar é seu título. No caso de A montanha mágica, essa minha procura foi do começo ao fim da leitura. Mas o resultado é pessoal e destoa bastante dos muitos elogios que existem sobre esse livro. Ora, sabemos que o adjetivo mágica, dentre vários significados, tem o de maravilhoso, bacana etc. Porém, no caso desse romance de Thomas Mann, esse sentido positivo não se efetiva. A montanha, na narrativa, é um sanatório para tuberculosos nos Alpes suíços. Mas não ocorrem lá muitas coisas boas e edificantes. São poucas as boas ações, como as visitas que Hans Castorp, o personagem central, faz a doentes terminais, levando-lhes flores e palavras de consolo. Acontecem fatos assombrosos e degradantes, como dois suicídios, um deles por motivo fútil, ou seja, por causa de discussão ideológica. Há ainda muitas mortes de pacientes. Ocorrem farras com bebidas alcoólicas e cigarros, sem que a direção do sanatório tome alguma decisão contra esse absurdo. Como é que pode doentes em tratamento se darem o luxo de fazer farras? Desde o final do século XIX e começos do XX que se sabe que fumar faz mal à saúde. Além disso, não é necessário ser um cientista da Medicina para saber que inalar fumaça só pode é fazer mal. Inalar fumaça voluntariamente é coisa que os outros animais não fazem. É ato próprio da estupidez humana. Pois é! Mas no sanatório se faz esse absurdo.

     Hans Castorp, que chega ao sanatório para visitar seu primo Joachim, termina adoecendo e fuma. Conversa com um dos médicos da direção do lugar sobre a excelência de alguns tipos de charuto. Esse médico é fumante também. Outra personagem que contribui para tornar o sanatório um lugar muito mais propício à bagunça humana do que à saúde é Clawdia (é assim mesmo com w) Chaucat, uma mulher russa casada que chega sozinha ao sanatório e tem um caso com Hans Castorp. Ela vai embora e depois volta acompanhada com outro macho, que não é seu marido, e tem mais um caso com Hans. Ou seja, ela trai o marido e o amante.

     Então, com base nesses absurdos (há outros mais), eu só posso compreender que o título é uma ironia, embora eu ache que o autor não teve a intenção de ser irônico. De modo explícito, modifico-o para A montanha diabólica.

     Após concluir a leitura, fui à internet atrás de resenhas sobre o livro na tentativa de compreender melhor seu título e seu conteúdo. Nada encontrei de relevante. E o pior é que cada uma é pior do que a outra. Cada uma parece ser cópia da outra, e todas se perdem nos mesmos elogios vazios e apenas tangenciando o livro. São muitos também os elogios a Thomas Mann. Apenas três críticos literários o detonaram: um do jornal The New York Times, outro da revista The New Yorker e o naturalizado brasileiro Otto Maria Carpeaux, que o chamou de “o melhor escritor entre os escritores de segunda ordem.”

     Por fim, não quero desestimular ninguém a ler A montanha mágica e outros livros de Thomas Mann. Mas, para mim, esse autor e esse livro não têm a genialidade que muitos lhes atribuem. Essa atribuição não é fruto de leitura atenta, mas de elogios que outros fizeram. É um que copia o outro, que copia o outro, que copia o outro... E por aí vai.