O outro lado da memória e da fantasia
Em: 27/11/2025, às 08H59
[Dílson Lages Monteiro – professor e editor de Entretextos]
Francisco José Soares Torres traz a público “O outro lado”, narrativa de ficção científica de dicção própria evidente ao bom leitor. Não é o autor um estreante. Há décadas se dedica à literatura, tendo produzido em gêneros diversos: crônica, poema, conto e, agora, romance.
Estamos diante de uma obra que nos provoca a pensarmos no significado existencial da imaginação. A pensarmos na pequena cidade nordestina a partir da fusão de sua dimensão de estranhamento à sua condição, recorrente, de realidade. A pensarmos como construímos a nossas percepções do mundo.
A propósito disso, até que ponto a aparência é a realidade? E o que isso tem a ver com O Outro Lado, de Francisco José Soares Torres? Esta obra é um chamamento para, principalmente, percebermos o mundo da aparência: o que, de fato, é o que vemos ou sentimos, o que permanece de nossa existência?
No interdito do desconhecido, nas palavras do próprio autor, está “uma pequena cidade, provavelmente desconhecida de muitos” e “a fragilidade de almas de vidro, o perfume fugaz do amor, a atemporalidade de seres invisíveis que nos cercam”. Estão deuses, como o Céu e a Terra, que são também mundos, e o Tempo.
Entre as chaves para ler a narrativa, que se quer constituir como conto de fadas (diga-se: lida por meio de sua dimensão simbólica: medos, desejos, escolhas morais), está a explicação do autor em nota introdutória:
“Os deuses, apesar de imortais, não são eternos e dependem dos mortais para sobreviverem nas mentes de seus próprios criadores, os homens, passando a desejar e assumir características e sentimentos humanos e, por isso, exigem sacrifícios, para não serem esquecidos, porque senão poderiam, até mesmo perecerem, de fato”.
Numa breve alusão ao cinema, a obra nos faz lembrar de um clássico de aventura fantástica: Guerra de Titãs. Nele, o povo vai desacreditando nos Deuses. Diante de uma cidade em destruição, os deuses não intervêm; somente se forem solicitados a ajudar. Lendo O outro lado, questionamos: “Quais seriam os deuses modernos, o superpoder que nos explica e comanda pelo controle social de valores e crenças mais imediatas?”. Alguém vai nos dizer que é a inteligência artificial.
O cinema traz um amplo painel de narrativas com as quais podemos originar diálogos com O outro lado, Um outro filme do gênero igualmente válido é Os Vingadores, a partir do qual concluímos acerca do papel dos super-heróis como representação do super-humano: os humanos podem ser o próprio super-herói sem a dependência divina. Ora, deuses, no sentido mitológico e não no espiritual, são conceitos e para que existam necessitam de quem os reproduza. Por isso, só o tempo é eterno, o pai de todos os deuses. O que é a mitologia, senão uma explicação para o mundo dos conceitos? Qual a duração real daquilo em que acreditamos num mundo coberto de incertezas, aparências e realidades simuladas para existirem ou findarem em um clique, em um tempo em que até o sentimento parece esvaziar-se no fluxo do cancelamento?
Pois bem.
O romance de Francisco Soares Torres propõe-se a fabular sobre uma matéria já amplamente vasculhada pela Filosofia: a materialidade do real. Muito já se especulou sobre as condições do observador e os dados dos sentidos em abordagens que até hoje fascinam e constroem teses para a formulação do que é o belo e de sua afuncionalidade pragmática. Poderíamos aqui citar uma ampla lista de Platão à contemporaneidade e estabelecer liames com pontos de convergência com a narrativa de O Outro Lado, mas fiquemos aqui na superfície de algumas representações mentais que a obra nos autoriza e as usemos com roteiro ou ponto de partida para uma leitura individualizada.
Ora, o romance se estrutura por uma ambiguidade deliberada entre dois mundos, o real e o imaginado, em fronteiras tênues, como o são a imaginação e a memória. O leitor acompanha um personagem que tenta compreender eventos e sensações que o ultrapassam. A narrativa, enfatize-se, ecoa a própria mente em estado de errância, desconfiando da memória e de suas montagens.
Imaginemos, inicialmente, o cenário que o narrador constrói: dois mundos, divididos pelo vazio ou o Brejo:
“O Vazio indefinido entre a escuridão e a claridade, entre as demais estrelas e o sol, como habitantes de lugar nenhum, e quando erguiam os olhos para o céu, era para enxergarem os pensamentos das nuvens cerradas...” (p.20).
Assim se apresenta o mundo como espaço físico:
“O Céu Côncavo e a Terra Plana imitavam cidades vizinhas, o horizonte da terra, ao nível dos olhos, parecia tocar o céu” (p.20).
O “outro lado” não é um lugar definido, mas um movimento: o inconsciente em sua potência desestabilizadora; a memória que retorna de modo fragmentário; o passado que insiste em atravessar o presente; uma zona metafísica, intuída mas nunca explicada; ou ainda a quebra súbita da percepção ordinária do mundo.
Do mundo em sua dimensão cósmica, o narrador passa à cidade, para a qual vai regressando um médico depois de longos anos. Esse mundo é filtrado pela estranheza do universo dos deuses. É a memória concebida como espaço para a ficção científica, em sua feição geográfica, social e simbólica.
A narrativa desloca o leitor continuamente, e esse deslocamento é o que dá forma ao romance. Não se trata de decifrar o que é real ou irreal, mas de compreender que a experiência humana é feita de vazamentos, passagens, indecisões. Ainda assim, não nos conseguimos desgrudar das perguntas: o que é o real? O que é a imaginação.
O que nos fisga em O Outro lado é, sobretudo, a memória como matéria de ficção científica. A utilização de seu componente social como matéria para a fantasia. Muitos escritores do gênero concebem o fantástico em oposição ao realismo. Não é o caso de Soares Torres. Francisco Torres se apropria do realismo para condicioná-lo ao discurso da narrativa fantástica. Por isso, o protagonista acessa lembranças que não são estáveis; ao contrário, retornam com lacunas, distorções. Um eu fragmentado: o desalinhamento entre percepção e realidade; o sentimento de deslocamento existencial, como se o personagem não pertencesse integralmente ao mundo visível; a presença de um mal-estar difuso, que acompanha toda a narrativa; a ideia de que o sujeito é maior — e mais obscuro — do que sua versão consciente admite.
Assim, o romance não explora apenas um enredo, mas um modo de existência. Explora uma espécie de sensação de vertigem, dita em um lirismo contido, feito de introspecção profunda; de passagens quase cinematográficas; em ritmo oscilante — ora lento e meditativo, ora abrupto e inquietante.
Em toda a obra, o autoficcional, o menino do interior, vai dando substância à memória em dois planos que se confundem: passado e presente são matéria única. Lembra-nos Sartre, que investigou, à luz de Bergson, sobretudo, profundamente, a imaginação: “A memória é fundada sobre a existência de um tal sujeito e sobre a possibilidade que ele tem de se apropriar de certas imagens e conservá-las.”
É ainda Sartre que, citando Bergson, diz:
“A formação da lembrança não é nunca posterior à da percepção, mas é contemporânea dela. A medida que a percepção se cria, sua lembrança, se perfila ao lado. (...) o tempo não poderá acrescentar nada à sua imagem sem desnaturá-la; ela conservará para a memória seu lugar e sua data” (p.41).
O Outro Lado nos convoca a reconhecer que a realidade nunca se apresenta inteira: é fragmento, travessia, dobra do tempo, lampejo de consciência. A obra de Francisco José Soares Torres não pretende oferecer respostas, mas instaurar um estado de sensibilidade — esse limiar entre o visível e o intuído — em que o leitor é convidado a habitar a inquietação.
Se a memória se forma junto à percepção, como nos lembram Bergson e Sartre, então cada gesto de recordar em O Outro Lado é também um ato de imaginar. O romance, ao fundir o retorno à pequena cidade com o assombro do mito, mostra que o real não é um território fixo, mas um campo móvel de significações onde passado e presente se enroscam.
Ao final da leitura, percebemos que o “outro lado” não é um espaço, mas um estado — o espaço interno onde os deuses modernos, as sombras da infância, as falhas da lembrança e os espectros da percepção disputam sentido. E é nessa zona liminar, onde a ficção se entranha na experiência, que a obra alcança sua potência maior: lembrar-nos de que, talvez, somos feitos dessa matéria ambígua que insiste em unir imaginação e mundo.
Assim, o romance não se encerra; permanece em suspenso, ecoando como pergunta aberta ao leitor: o que, afinal, chamamos de realidade quando tudo o que temos são memórias que se reinventam no instante mesmo em que surgem?

