Pega de boi no sertão
Pega de boi no sertão

Reginaldo Miranda[1]

A fazenda Dermária jazia em abandono e desleixo desde que o vaqueiro Palmério cumprira sua cincagem e apartara o próprio rumo. Vigora nas larguras do sertão esse pacto tácito, estatuto de honra e palavra que rege a vaqueirice no sistema de quatro uma: o vaqueiro, feito sócio da catingueira, aparta para si uma rês em cada quatro nascidas sob o seu pastoreio. Volvidos cinco invernos, quando as primeiras novilhas do seu quinhão ensaiam as primeiras parições, o sertanejo levanta o moirão de seu próprio curral. É lei antiga, lavrada no princípio dos tempos. Ali, o gado grassa solto na imensidão da chapada aberta, léguas de capim agreste, arbustos, ramas e milhãs entremeados entre a mata retorcida. E geralmente só conhece o cheiro do curral uma única vez na vida, sob o gume brando do ferro e a marcação do sinal.

Por essa míngua de braço, o rebanho de Dermária brabeou, virou balaio, como costumavam dizer os sertanejos do vale do Esfolado, em lembrança de antiga revolta, cujos lances dramáticos ouviram na voz de seus ancestrais. Os animais, tomados de um ardor xucro, negavam-se a vir para o curral da fazenda. Pastavam a aspereza do carrascal pelo Vão do Tuturubá, embrenhavam-se no Tucunzal, valiam-se do Baixão do Moreira e das quebradas que medeiam entre o Xixá, as Porteiras, a Torre, a Ponta da Serra e o Buritizinho. Por instinto e para suprir as deficiências nutricionais da pastagem, o gado lambia os morros salitrosos formando os afamados lambedoros. E mitigava a sede nas grotas profundas, no curso sinuoso do rio Esfolado ou no espelho calmo da vizinha lagoa do Buritizinho. Assim marchavam as eras, sob os desígnios de Deus e a aspereza da caatinga. Virara paragem de gado brabo, terra de ninguém.

Quando Firmino Podoi aportou para assumir a vaqueirice, deparou-se com o caos estabelecido. Prometeu ao patrão, contudo, amansar a novilhada nova e dar fim aos marruás velhacos, aqueles touros ressequidos que botavam o resto do rebanho a perder com suas manhas de isolamento.

Entre as reses que peitavam a sua autoridade, sobressaía um novilho malabar: bicho altivo, de carcaça troncuda e chifres longos, pontiagudos como adagas de ferreiro, que governava, pelo terror do exemplo, uma boiada inteira. Mal captava o restolho d’uma voz humana ou o estalo de um galho, abria em desabalada carreira pelas chapadas, sumindo nas brenhas da mata adusta. Era bicho de pelagem escura, avermelhada como terra queimada, mestiço de vaca pé-duro com touro zebuíno, daquela casta mítica trazida da distante Costa de Malabar e aclimatada nos gerais de Goiás, adquirida tempos atrás aos tangerinos que cruzavam as barrancas do Tocantins em demanda das grandes feiras de gado do Nordeste.

A derradeira vez que Firmino avistara o marruá fora na Vereda da Ponte. Alto verão, o sol a pino dardejava seus raios como lanças sobre as restingas do buritizal e as ondulações da Serra da Torre, cujas cristas de pedra pareciam arranhar o azul imutável do céu. Foi entre o alarde das curicas e o trinado agudo dos xexéus que o vaqueiro divisou apenas o vulto sanguíneo do animal na bruma poeirenta do crepúsculo. O bicho soltou um urro estrepitoso, um bramido que fez tremer a folhagem das catingueiras, e escafedeu-se, deixando para trás o estalar seco dos cascos no pedregulho e o chiado do mato rasgado. Tal qual o mítico Boi Aruá, parecia criatura feita de vento e deboche.

— Eu hei de deitar a mão nesse novilho — sentenciou Firmino, com o brio de vaqueiro ferido na carne.

No dia seguinte, a madrugada ainda não rompera o breu quando o vaqueiro despertou. Selou o melhor cavalo da fazenda: um rosilho sertanejo, legítimo herdeiro das montarias ibéricas, cujo tirocínio de campo fora moldado na lida do gado. Trouxe-o da rocinha úmida na beira do Brejo para o pátio da fazenda, prendendo-o ao tronco de uma faveira frondosa. O animal arfava, pisando miúdo no cascalho enquanto recebia o freio e os arreios de sola grossa. Era montaria de cega confiança. Ao redor, os cachorros campeadores, Surubim e Cheile, saltitavam numa dança ansiosa, farejando o prenúncio da caçada. Esses fiéis companheiros tinham com ele um licute medonho, não o largando em quaisquer das jornadas.

Firmino vestiu-se de sua armadura heráldica: o chapéu de couro de aba batida, o gibão e as perneiras untadas com a densidade do óleo de mocotó, couraça contra os espinhos do sertão. Trotando pelo carreiro sinuoso, transpôs a Vereda da Ponte e ganhou o descampado da chapada em rumo à estrada dos Poços. A certa altura, o olho clínico do vaqueiro, que lê o chão como se lê um breviário, topou com o rastro fresco, fumegante, cuja marca excedia em largor todas as outras. Era o malabar que riscara o chão.

Rastejou com astúcia de caçador. Não tardou para que avistasse a malhada e, no centro do rebanho, a silhueta monumental do monarca da caatinga. Ao farejar o perigo no vento, o novilho rompeu em fuga. Firmino afrouxou as rédeas do rosilho e cravou-lhe as esporas no vazio do flanco. O cavalo desandou feito uma flecha em campo aberto. Todavia, o marruá, escolado nas manhas do mato, buscou o abrigo seguro de um crú de mata fechada.

Firmino não mediu o perigo. Deitou-se sobre o dorso do rosilho, colando o queixo ao pescoço do animal para esquivar-se dos troncos, ramos e garranchos que ameaçavam degolá-lo. O cavalo, dotado daquela destreza antiga moldada em quinhentos anos de caatinga, desviava-se dos galhos recurvados, juremas e xique-xiques com uma agilidade impressionante. Mas o malabar jogava em seu próprio templo: alcançou a costaneira da serra e sumiu no labirinto de pedras do Morro Furado. O rosilho, banhado em suor e espuma, parou ofegante. Dois dias depois, Firmino repetiu a investida, colhendo o mesmo e amargo fracasso. O boi passara do plano real para o plano das assombrações.

No sábado seguinte, nas rodas da feira de Bertolínia, a prosa ganhou corpo e calor pelos balcões do mercado. Entre um trago e outro de cachaça de alambique, a jactância dos homens acendeu.

— Fosse eu o vaqueiro de Dermária, e já teria desencantado esse boi na ponta da corda — vangloriou-se Luís Corina, todo ancho, ajeitando o chapéu de couro na testa. — O bicho tem pernas, mas não tem asas; é corredor, não é visagem — emendou Zé Mundoca, com o desdém típico dos fortes.

Ali mesmo, lavraram o juramento de honra: na segunda-feira iriam juntos à Dermária para quebrar o orgulho do malabar. E selaram o trato com uma jura sagrada: haviam de beber uma garrafa de aguardente sentados sobre a pança do marruá vencido.

Em cumprimento do trato, com a barra do dia os três experientes vaqueiros encontraram-se na fazenda, encouraçados e montados em cavalos sertanejos de puro tirocínio. Romperam em linha reta em direção ao Vão do Tuturubá, onde sabiam as últimas notícias do marruá. Após um breve rastejo no solo árido, por entre gramíneas e tucuns, chegaram ao rebanho. E o malabar irrompeu do mato numa carreira furiosa.

— Larga as rédeas e fia em Deus! — bradou Firmino.

Os três traquejados cavalos arremeteram vertiginosamente, rasgando o carrascal num estrépito frenético de cascos sobre a crosta da terra seca. A cachorrada ia no encalço, com o latido grosso ecoando nas costaneiras da adjacente Serra do Esfolado. Luís Corina, empurrado pela soberba, foi o primeiro a emparelhar com o vulto avermelhado. Sentia o cheiro de gado e o hálito quente do touro. Num movimento de pura audácia, esticou o braço para colher o sedém do novilho. Mas o sertão cobra seu preço: o ombro de Luís chocou-se com violência contra um galho seco de catingueira. O vaqueiro foi colhido no ar e arremessado ao chão, rolando na poeira e nos espinhos. A dor foi aguda, mas a madeira era jovem e nenhum osso se partiu.

Na vanguarda do tropel, Zé Mundoca valeu-se da passagem de um grotão onde o boi, acuado pelo relevo, murchou o corpo. Emparelhou a montaria, estendeu o braço encouraçado, alcançou a cauda do animal e enleou-a firmemente na mão. O novilho vacilou, desabando sobre os quartos e bufando terra, mas a fúria do sangue malabar operou um milagre: ele ergueu-se num arranco violento. Foi o instante em que os cães se fizeram fustigo: Surubim saltou, preciso, cravando os dentes nas ventas sangrentas do boi, enquanto Cheile se prendia ao pescoço, usando o próprio peso para ancorar o gigante da caatinga.

Zé Mundoca aproveitou o esteio da cachorrada, dobrou novamente o sedém sobre os dedos e derreou o marruá de vez. Saltou da sela diretamente sobre o seu lombo, buscando passar-lhe a cauda entre as pernas para anular-lhe a força. Nisso, despontou Firmino Podoi com a corda de relho em punho, laçando os mocotós com nós cegos. Luís Corina, que havia sacudido a poeira do tombo, chegou na carreira para subjugar a cabeça e os chifres de adaga.

Pearam-no. O imponente e indócil marruá já não era mais o balaio das caatingas. Arfava, por fim, vencido, estertorando sua fúria contra o chão ancestral de Dermária.

Zé Mundoca sorriu com o canto da boca, tateou a garupa do cavalo e sacou a garrafa de cachaça, resguardada num canudo de couro legítimo. Arrancou a rolha com os dentes. Ali, entre os ermos grotões do Vão do Tuturubá, sentados sobre a pança arfante e enorme do malabar, os três vaqueiros cumpriram o rito. O trago da vitória queimou-lhes a garganta. O sertão, com sua ordem restabelecida, voltava a ter dono.

 

 


[1] Membro da Academia Piauiense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí. Contato: [email protected]