[WASHINGTON RAMOS]

O ESCRITOR

Dorme sonhando com canetas, lápis, borracha, folha de papel em branco, teclado de computador, com o Word e o Pages, com impressoras e como se tudo isso flutuasse em sua cabeça, como se fossem um conjunto de nuvens brancas e árvores amarelas flutuando num céu vermelho. Acorda. Sua primeira oração é um verso para um poema ou uma longa frase para um texto em prosa, escrita com uma esferográfica ou com um lápis. Ligar notebook ou celular dá muito trabalho. Tem que esperar o bicho ficar no ponto, e um escritor como ele não pode esperar nem um segundo. A ideia, escorregadia e sinuosa como um mussum, pode fugir.

Vai ao banheiro escovar os dentes e tomar banho, pensando nos sonhos que teve na noite passada, germinando-os para um texto. Dos vários sonhos que teve, o que mais o impressionou foi aquele de uma índia galopando num cavalo castanho com manchas brancas, saltando por cima de riachos murmurantes correndo sobre um leito de seixos e areia onde nadavam peixinhos dourados, numa água tão cristalina, que remetia a um estado de pureza infinita. Entre os vários riachos, mediavam prados mais verdinhos do que as cédulas de 1 real, que já saíram de circulação.

A índia era filha de Deus. Fora a Ele consagrada na pia batismal do povoado cuja igreja era varrida e abençoada todos os dias. Ela, a igreja, era a maior riqueza do povoado. A índia levava dois alforges cheios de livros e cadernos. Ia para a escola onde dava aulas para crianças. Ela era proibida de se casar e de namorar. Era a prometida de Deus e tinha que manter a pureza de seu corpo para que sua fala fosse a mais digna possível de divulgar as mensagens divinas. Era muito fecundo seu ventre, mas proibido de gerar filhos.

Sua mãe é uma velha índia gueguê. Seu pai era um mulato forte, que abandonou a companheira assim que a filha nasceu. A indiazinha, então, mais bela do que Bartira e do que Iracema, a virgem dos lábios de mel, foi criada pela mãe na aldeia perto do povoado Carnaubal. Foi levada por sua genitora à pia batismal, onde foi batizada, tendo Deus como padrinho e Nossa Senhora como madrinha. O padre não chiou contra a vontade da mãe na escolha dos padrinhos, pois ela ameaçou manter a filha pagã, ou ir atrás dos protestantes que batizavam crianças, mergulhando-as nas águas do riacho Macambira, que passa a meia légua do povoado Carnaubal. Ela disse ainda ao padre que não acredita mais em homem nenhum depois que foi abandonada pelo pai de sua filha. Homem não presta! Nenhum merece chegar nem perto de minha filha!

O escritor entra em ação no sonho. Põe sela num cavalo branco e começa a perseguir a indiazinha. Ela aumenta o galope, sai do prado verdejante e entra numa estreita vereda ladeada por arbustos espinhentos como unha de gato, dos quais ela já está acostumada a se desviar. Ele, então, sem coragem de encarar a vereda, sentindo-se sujo por não pagar o que deve, por mentir, por falar mal dos amigos e por já ter se relacionado com prostitutas, desiste de persegui-la. Teve a ombridade de reconhecer que seu comportamento era mais sujo do que pau de galinheiro e o tornava indigno de chegar perto daquela pura filha de Deus.