O centauro da caatinga: mitologia e gênese do vaqueiro

Reginaldo Miranda[1]

O vaqueiro do sertão nordestino encarna, com singular propriedade, a lenda do centauro. Montado em seu ágil cavalo de sela, revela-se o verdadeiro híbrido da mitologia helênica, fundindo sua inteligência e comando, em simbiose perfeita, à altura e força do animal. Para vencer a aspereza da caatinga, de aparência impenetrável, reveste-se integralmente de couro curtido: botas, perneiras, gibão e chapéu. Também a montaria é guarnecida pelo peitoral do mesmo couro bovino, para que ambos, irmanados em um só corpo, possam, na impetuosa "pega de boi", rasgar a vegetação sem o receio dos espinhos da jurema ou da unha-de-gato, por mais resistentes que se apresentem. A fragilidade da pele humana encontra anteparo no revestimento espesso do couro, curtido na raspa do juazeiro ou da aroeira. A sela, os arreios e o cabeção do animal completam essa armadura orgânica.

A completa roupagem de couro resguarda o homem contra as adversidades do meio, enquanto a montaria, ágil e aguerrida, auxilia-o tanto a vencer as distâncias quanto a alcançar e conduzir o gado. Do dorso ou lombo do animal, o vaqueiro adquire altura e imponência, preservado de serpentes insidiosas ou da onça mais feroz que lhe possa cruzar o caminho. Convém notar que o olfato apurado do animal auxilia a perceber, de longe, a presença dessas e de outras feras que habitam o vasto sertão. Complementando o quadro, o facão amolado ou a peixeira afiada à ilharga tornam o sertanejo apto a qualquer lide ou confronto. Tal cenário, comum em nosso "Sertão de Dentro", constitui a descrição fidedigna do mais robusto centauro das montanhas da Tessália: inteligência, força e capacidade de defesa.

Nesse percurso, o cão fiel é o auxiliar indispensável, assemelhando-se ao soldado que segue seu capitão. É ele a sentinela que o adverte do perigo iminente, o adjunto que domina o boi mais arisco e acua a caça: o veado, o mateiro, a cotia, a paca ou o tatu, que lhe servirá de sustento, com a carne assada à ponta do espeto. Para manter o vigor, o vaqueiro conduz o "frito" de carne-seca com farinha de mandioca, elaborada em fornos rudimentares. Esse farnel, transportado na garupa e envolto em pano, de onde advém a expressão "pano de frito", provê tanto o homem quanto o fiel canino. A rapadura, oriunda de rústicos alambiques, atua como o energético vital para ele e para a montaria. Conforme se disse, dependendo do tempo e da distância, essa provisão pode ser reforçada com a carne de mateiro ou veado, abatidos com o auxílio do cachorro.

Em virtude dessa faina solitária, campeando o gado vacum em malhadas dispersas pela vastidão, o vaqueiro torna-se um ser ensimesmado, de pouca fala e linguagem cifrada. No período colonial, o convívio social amiúde se restringia à ferra anual das crias. Ali se celebrava a partilha "de quatro uma": de cada quatro novas crias, uma cabia ao vaqueiro e as demais ao patrão. Tal contrato, de natureza verbal e tácita, estendia-se geralmente por um quinquênio, lapso temporal suficiente para que o vaqueiro amealhasse o necessário para fundar sua própria fazenda, em campo aberto, onde fincava o moirão de seu novo curral.

No manejo do gado, o vaqueiro projeta um canto melancólico e profundo: o aboio. Sem léxico definido ou métrica de versos, a toada estabelece uma comunicação quase metafísica com o rebanho, um chamado atávico sem letra, sem frases, sem verso, senão no excitamento final, que assim pode ser : “Êêê, êêêêê gado bonito, êêêêê gado manso, êêêêê...”. Tal manifestação, conforme asseveram os estudos de Luís da Câmara Cascudo, remonta à herança árabe deixada na Península Ibérica pelos mouros, cruzando o oceano para ecoar na imensidão do nosso sertão.

Este centauro rústico, integrado à cena do sertão, possui raízes históricas profundas. Sua linhagem remonta ao jovem alentejano e à sua milenar lida com o gado nas campinas lusitanas. Ao desbravar o sertão áspero, o colonizador seguiu "a pata dos bois", que lhe abriram as veredas. No Alto Sertão, essa genética consorciou-se à nativa tapuia, herdeira de um conhecimento multimilenar da flora tropical, verdadeiro celeiro e farmacopeia a céu aberto. Tal saber foi providencial para distinguir os frutos comestíveis dos tóxicos e para identificar a terapêutica contra os males que lhes assaltavam a saúde. A esse rico contingente somou-se a contribuição do braço africano, forjando uma cultura típica. São, pois, profundas, ricas e variadas as raízes históricas do vaqueiro nordestino.

Por fim, os animais, trazidos pelos antepassados ibéricos, sofreram o crivo de uma rigorosa seleção natural. Nas planícies de capim-mimoso ou nas chapadas agrestes do Alto Sertão, subsistiram apenas os espécimes mais aptos. Desse processo evolutivo emergiu o gado de raça curraleiro-pé-duro: de pequeno porte, porém infenso a verminoses e resiliente às plantas tóxicas da flora regional. Essa atividade e os hábitos que a circundam constituem a "Civilização do Couro", conforme a feliz denominação do historiador Capistrano de Abreu, caracterizando indelevelmente a paisagem humana do sertão. Assim, esse centauro rústico atravessa os séculos como o pilar de uma civilização forjada no couro e no aboio, o herói de uma epopeia de quinhentos anos que ainda hoje cavalga, imortal, pela imensidão do Sertão de Dentro.

 

 

 

 


[1] Da Academia Piauiense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí. E-mail: [email protected]