[WASHINGTON RAMOS]

                                      N I N G U É M   T E M

     Fiz uma pesquisa informal pelo Whatsapp. O que a motivou foi “Um útero tem o tamanho de um punho”, título de um livro de poesia de Angélica Freitas. Eu, não sei exatamente quando, havia lido esse título em revistas literárias, e ele me ficou no cérebro. Gosto dele. Considero-o criativo e surpreendente. Pode ser visto também como um verso de onze sílabas poéticas. Mas a autora nada tem a ver com a lírica tradicional.

     Agora, nos últimos dez dias, esse título voltou a me perturbar o juízo, e eu resolvi fazer a pesquisa com amigos que, assim como eu, gostam de literatura. São poetas, ficcionistas, cronistas, professores, editores, revisores, críticos, leitores... Perguntei, a 41 amigos(três deles moram em outras cidades: Rio, Brasília e S. Paulo. O de Brasília raramente lê autores atuais), se eles tinham algum livro de Angélica Freitas que pudessem me emprestar. Ninguém tem, e apenas 4 amigos disseram já ter lido esparsamente alguns poemas dessa poetisa. Os demais nunca tinham ouvido falar dessa autora. Essas respostas não são nenhum demérito para meus amigos. Eu também estou no meio dessa ignorância, embora já conhecesse de nome a escritora. Mas jamais havia lido poemas seus nem tinha nenhum livro dela. Tenho agora, pois meu caro amigo Igor Dreyde, a quem sou muito grato, enviou três obras de Angélica Freitas para meu Kindle.

     Mas quem é Angélica Freitas? É natural da cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul. Nasceu em 1973. É tradutora, tem vivência internacional, trabalhou no Estadão. “Um útero tem o tamanho de um punho” foi premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte como o melhor livro de poesia de 2012. “Rilke Shake”, outro livro seu de poesia, foi o vencedor do “Best Translated Book Award” nos EUA, em 2015. “Um útero tem o tamanho de um punho”, que é sua Magnum Opus, foi editado pela Cosac Naif e pela Companhia das Letras, casas editoriais famosíssimas no Brasil.

     Agora as reflexões sobre a pesquisa: como é que pode uma escritora brasileira premiada aqui e nos EUA, que trabalhou num grande jornal brasileiro, que tem um livro seu publicado por  grandes editoras, não ser muito conhecida no meio literário? Como é que pode que ela, que escreve poesias, não seja muito conhecida por poetas?

     Vivemos em uma época em que é muito fácil fazer a divulgação de livros e seus autores. Temos a internet funcionando ininterruptamente dia e noite com acesso gratuito em muitos lugares, inclusive em praças públicas. Uma mensagem colocada na web pode atingir, em instantes, milhões de pessoas no Brasil e no Exterior. Mas será que é justamente a astronômica e instantânea quantidade de informações à nossa disposição que faz com que elas se diluam rapidamente nos meios virtual e real e percam a relevância? Será que temos hoje excesso de ficcionistas e poetas? E o que dizer de concursos e eventos literários no Brasil hoje? Não há números exatos, porém existem centenas de concursos. No Ministério da Cultura, estão cadastrados 513 eventos literários como festas, feiras, salões, bienais... Então, será que todo esse enorme mundo literário, que é tão bom, tão necessário, contém em si mesmo um germe que ajuda a efetivar sua insignificância nesta sociedade tão pluralizada?

     Lembremos ainda que os monstros sagrados das literaturas brasileira e universal se formaram no período anterior à internet, quando o número de autores e leitores era muito menor do que hoje. Uma coisa foi João Cabral de Melo Neto, em 1956, ter publicado “Morte e Vida Severina”, que já ultrapassou a marca de 100 edições, e ter feito sucesso embora os meios de comunicação da época fossem, na rapidez comunicativa, irrelevantes em relação ao que temos hoje. Outra, muito diferente, foi Angélica Freitas, 56 anos depois, ter publicado “Um útero tem o tamanho de um punho” e não ter feito sucesso nem mesmo entre muito poetas.

     De tudo isso, fica uma advertência a poetas e ficcionistas de ego muito inflado, que acham que um dia ainda colherão os louros da glória e do sucesso extraordinário e se tornarão monstros sagrados da literatura: tirem o cavalinho da chuva e diminuam a inchação do ego, pois essa ilusão não vai se concretizar.