ANA MARIA BERNARDELLI
ANA MARIA BERNARDELLI

"Minhas mãos 

carregam

o sal cristalino

das ondas do mar

do Piauí"

(Diego Mendes Sousa)

 

Esses versos não se limitam a dizer — eles tocam. E, em especial, parecem nascer de um lugar onde o corpo e a memória já não se separam.

“Minhas mãos carregam o sal cristalino das ondas do mar do Piauí” é uma imagem de densidade sensível. As mãos, símbolo do fazer, do toque, da experiência, e lembram o mar e elas o retêm. O sal cristalino não é matéria só; é vestígio. É aquilo que permanece depois do encontro entre o corpo e a imensidão.

Há, nesse verso, uma geografia íntima. O mar do Piauí, tão breve em extensão territorial, mas infinito em significado, surge não como paisagem distante, mas como presença incorporada. O eu lírico não contempla o mar: ele o carrega. E carregar, aqui, é quase um ato sagrado, como se cada grão de sal fosse uma partícula de tempo, uma memória solidificada na pele.

O “cristalino” acrescenta ainda outra camada: não é um sal qualquer, é um sal que brilha, que refrata luz, que transforma a experiência em algo quase precioso. Há beleza no resíduo. Há poesia no que fica.

E talvez o mais profundo seja isso: o verso sugere que certos encontros com o mundo não terminam quando nos afastamos dele. Eles permanecem em nós... nas mãos, na pele, naquilo que tocamos depois. O mar, então, deixa de ser lugar e se torna condição.

É um verso que fala de pertencimento, de memória sensorial e de uma espécie de eternidade mínima...  aquela que cabe nas mãos, mas nunca se esgota nelas.

 

Ensaio de Ana Maria Bernardelli, crítica de literatura.