Literatura brasileira:  sobre algumas histórias literárias mais recentes

                                                              Cunha e Silva Filho

I .CONSIDERAÇÕES  GERAIS.

   NÃO OBSTANTE,   não tenha por objetivo desenvolver   aqui uma discussão mais ampla da fase em que se encontra a produção da literatura brasileira contemporânea,farei, no entanto,   alguns comentários gerais sobre o conteúdo dessas obras de referências e, por conseguinte,   particularmeante sobre questões estruturais  que julgo pertinentes,    conforme posso vislumbrar a partir do que tenho  lido nos últimos anos, notadamente     relativas ao  tema e à  forma na ficção brasileira  comtemporânea. 

      Grande parte das melhores e mais recentes  histórias da literatura brasileira de que hoje dispomos,  quando publicadas em sucessivas edições, não têm dado conta, com maior amplitude e urgência,  da novíssima produção literária, aqui considerando o interregno  dos anos noventa até agora.

      Estou  pensando particularmente nas mais famosas delas,  a  obra coletiva,  dirigida  por Afrânio Coutinho, A literatura no Brasil, em seis volumes,  a História da literatura brasileira, de  Massaud Moisés, em três volumes,  a História concisa da literatura brasileira, de Alfredo Bosi, A literatura brasileira,  de  José Aderaldo Castelo, em dois volumes, numa produção coletiva; também coletiva,  a obra dirigida por Sílvio Castro,  História da literatura brasileira, em três volumes. Ao que tudo indica,   os seus autore , com exceção talvez, de Sílvio Castro, parecem que deram por encerrada  sua missão.  

      O  notável   volume de José Guilherme  Merquior,   De Anchieta  a Euclides da Cunha -  breve história da literatura brasileira. 3 ed. Rio de Janeiro: Topbooks. ,1996. veio  substancialmente  aprimorar   e alargar a visão   profunda   e  erudita   da     história  da literatura brasileira. No gênero,  uma obras-prima de historiografia   em razão da perspicácia ao  estudar  alguns autore captais    do cânone  brasileiro. Pena é   não tenha  seu estudo  atingido   até ao Modernismo  brasileiro no mesmo volume.

      Nessa obra, os estudos sobre  o Modernismo  podem se lidos em outros ensaios de sua lavra.  Desse modo, completando   o que faltou    na  sua mencionada  história de literária. Cumpre  afirmar, como destaques  de sua     competência,  no gênero historiográfico,  os percuciente estudos    que    faz  de escritores  de alto valor estético como   Machado de Assis, Rui Barbosa, Raul Pompeia e Euclides da Cunha   abrangendo,   em admiráveis sínteses,  as obras do  bruxo do Cosme Velho, assim como as análises  densas   e originais   sobre Rui Barbosa e Euclides da Cunha, Por outro lado,  vale lembrar que, nas finas  análises   sobre  a ficção de Machado  de Assis, é  de  se assinalar    o que   elucida   superiormente  sobre  a classificação  de Machado de Assis, como   um autor     impressionista. Um ouro aspecto  fundamental    que Merquior   explora  na  sua história literária     gira  em torno da questão do perspectivismo   da narrativa   machadiana,    assunto da maior  importância  para se entender a  focalização múltipla   dos narradores   em Quincas Borba, por exemplo. A grande  contribuição de Merquoir, no que diz respeito à historiografia brasileira    se assenta     no vasto  espectro  de sua familiaridade e diálogo   com autores  da literatura    universal  das diversas  épocas,   o que   torna sua obra   muito  mais   consistente no desenvolvimento  de suas  análises  e compreensão    histórico-social-estética do fenômeno da criação literária.

          Sabemos que Bosi, autor  talvez da mais lida das mencionadas histórias literárias   acima, não deu continuidade, nas mais recentes edições, e foram tantas,  da produção  literária  daquele período, ou seja,  final do século  20 e  primeira década do século  atual. É uma pena que as coisas assim tenham  ocorrido. É bem verdade que a  contribuição da historiadora  italiana, Luciana Stegagno-Picchio,  autora de uma  valiosa e densa  obra sobre nossos autores, a sua História da literatura  brasileira, 2. ed revista e atualizada 2004. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar),    Infelizmente, não poderá  brindar-nos com uma  nova  edição, ainda mais atualizada, por haver falecido.

           Há algum tempo, me confidenciaram que Eduardo Portella(),  talentoso e festejado  crítico literário e teórico da literatura,  estava preparando uma história da literatura brasileira, assim como Gilberto Mendonça Telles,  outro nome  muito   competente  para  empreender   um  publicação  dessa envergadura  intelectual havia   dito que  estava, da mesma forma,  preparando  uma obra  nos moldes das demais,  com  as diferenças, é óbvio,   de visões estéticas   diferentes  sobre  como   produzir  mais uma  história literária.Da mesma forma,  não poderia olvidar nesta lista obra de historIal literária  brasileira,  as obras do piauiense  Assis Brasil   e seu caráter  de síntese bem estrutrada, que é A nova literatura, em 4 volumes,(1) e a de Mário Fautino (1930-1962)(), igualmente piauiense,  de título De Anchieta aos concretos, mas só dedicda à poesia. São Paulo> Companhia das Letras. Org. de Maria Eugênia Boaventura, 2003

       De outro  autor, Douglas Tufano,  aliás,  um  excelente autor didático que já adotei muitos  anos  atrás em  turmas   de literatura  brasileira e portuguesa    para o ensino  médio,  segundo  me  informaram, então  estaria  escrevendo  uma  obra   mais  profunda sobre  literatura  brasileira, desta vez destinada a estudantes  universitários  de literatura.(2)

      Poderia  citar ainda  uma outra historia literária, da qual  tive conhecimento, a  História da literatura brasileira -  dos primeiros cronistas aos último românticos. 2 ed. São Paulo: EDUSP,2002, também, tal como a de Douglas Tufano, didática - .   Sua  relevância    está  em que,   a   par de uma boa   e segura exposição sobre cada  estilo  de  época, ela  contém  antologia  dos autores estudados   e,  para cada escritor mais representativo Roncari  faz  uma  análise  bem  alongada   de suas  principais   características temáticas A obra  vem  vem  acompanhada   de uma antologia  referente  ao  autor  consignado.

       O poeta Carlos Nejar, tendo  escrito sua  História da literatura brasileira: da carta de Pero Vaz de Caminha à contemporaneidade. (Rio de Janeiro:Relume Dumará,: Copesul. :Telos. 2007)  prometeu também  dar-lhe continuidade enfocando  autores da década de sessenta do século   passado até nossos dias.   Aguardo, pois, que  nossos historiadores literários possam  dar sua contribuição necessária de, pelo menos, duas décadas para cá. 

         Convém salientar que, na ficção dos mais novos  autores brasileiro ,  felizmente, alguns  passos já se deram nesta direção, como é exemplo do pequeno ensaio Ficção brasileira contemporânea. (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009,  174 p.) de Karl Erik Schollhammer, docente da PUC-Rio.

         Neste livro,  o ensaísta competentemente aborda as mais recentes  produções ficcionais da literatura  de nosso dias, analisando alguns  de nossos autores mais novos e   fazendo,  alem  disso,  um  mapeamento  das últimas  gerações, cobrindo não somente  os autores principais da  chamada geração 90  como  ainda   da chamada “geração 00” (não sei se a expressão  foi cunhada pelo autor do ensaio). Autores dessa “geração 00”  entre outros, são Daniel Galera, Santiago Nazarian, Michel Laub, Cecília Giannetti, Verônica Stigger,  i. e., um grupo de autores com livros  editados já no século  atual.

No ensaio, Karl Erik faz sua exposição tendo como premissa  a questão do conceito  de autor  “contemporâneo”  e de  todas as implicações  complexas e por vezes  fugidias que o termo evoca  provenientes da dificuldade de lidar com  aquele conceito, seja do ponto de vista histórico-social, sejas do ponto de vista da situação dos autores em elaborar  sua produção diante das opções de visão atual ou não da realidade brasileira,    sobretudo  quando ainda se tem em vista  um outro conceito  de alcance  também movediço, que é o de  “pós-moderno”.

Digno de  acentuar  no ensaio de Karl Erik é  o  seu sentido de oportunidade  e de atualização (veja-se-lhe a  fundamental bibliografia de ficção,  no final do volume, onde estão relacionados,  a par de autores mais velhos e ainda plenamente produzindo,  aqueles da “geração de 90” e da ‘geração 00”, bem como de obras teóricas e críticas), pondo  o leitor especializado, estudantes universitários e pesquisadores em sintonia com o que de mais atuante existe agora no panorama  heterogêneo  da criação literária do país.

Seu ensaio é positivo na medida da em que traz  para o debate a  questão dos  relações entre os novos autores e a realidade editorial brasileira, assim como  são prestimosos seus juízos  acerca dos  novos  meios eletrônicos em que a literatura se faz presente, como os blogs de literatura, abrindo  um vasto   espaço virtual  no campo da ficção e, diria,  da poesia. A produção  literária hoje em dia não pode  descartar a interatividade entre autor, leitor, crítico e  a atividade  editorial, uns e outros  não dispensando, na ponta, todas as mídias de que  dispomos nos conturbados dias  que vivemos.

     No tocante ao gênero poético, não conheço ainda uma síntese em livro, semelhante ao trabalho de Erik  Karl, que,   pelo menos, enfoque,  num mapeamento seletivo, os  novíssimos poetas  da  “geração 90 e da geração 00”, para usar  as duas  classificações que  aparecem no ensaio.  De certo tal mapeamento de conjuntos de autores mais  representativos  será um  trabalho  que exigirá tremendo  esforço devido à grande quantidade de poetas novos e novíssimos espalhados pelo país inteiro e muitos,  provavelmente, de boa  qualidade, a se ver pela leitura de alguns que nos  chegam ao conhecimento. 

     O livro de Alexei Bueno, Uma história  da poesia brasileira, de 2007,   já foi um bom passo nesta direção. Só assim dotar-se-á o leitor ou leitor  especializado de um lúcida visão em conjunto   do que  se tem  publicado no país nas duas últimas décadas. A própria Coleção Contemporânea, da Civilização Brasileira,  que tem Evando Nascimento  como organizador,   bem poderia   pensar  num empreendimento cultural deste porte.

    O que se nos apresenta no momento atual é a constatação de que o  historiador literário, o crítico e o ensaísta têm pela frente  uma tarefa hercúlea dado que  a copiosidade  de autores  de poesia, mais do que na prosa,  ou   tanto quanto esta, não para de crescer,  segundo o próprio Erik Karl   declara  no estudo.

2.UM TEMA E UMA FORMA.

        Após essas considerações  gerais, quero, agora, me deter  em dois aspectos  importantes na construção das obras ficcionais de nossos dias:  1) um certo excesso  de personagens desempenhando na narrativa o papel da figura de escritor ou de um professor universitário de letras  escritor; 2) um excessivo  uso do recurso metaficcional em romances, decorrente, muitas vezes,  daquele papel  do personagem narrador às voltas com as vicissitudes  de quem lida com a criação literária. Uma das consequências disso seria um problema    conectado com a função do leitor, reduzindo este  a um seleto e elitista grupo de especialistas  e teóricos da literatura, e afastando,  por outro lado,  o leitor comum ou médio que não alcançariam,  em geral,  os complexos  e  intrincados  mecanismos ou estratégias metaficcionais. Seria isso uma espécie  de crise de assunto ou tema no âmbito da narratividade?

Posto sejam recursos explicitamente contemporâneos, segundo  aparecem em  autores como Ítalo Calvino, Milan Kundera, Doris Lessing em The golden notebook (1962), John Fowles, em The French lieutenant’s woman (1969) Guimarães Rosa, num bom  exemplo que é o conto  “Corpo fechado” da obra Sagarana  ou mesmo de remota data, como,  entre outros, podem-se ver em Lawrence Sterne, Machado de Assis,  ou implicitamente já  possamos encontrá-los em  Miguel  de Cervantes, em Don Quixote de la Mancha. Esses recursos, predominantemente focados no metatexto, de resto, notáveis como elementos novos acrescidos às técnicas narrativas, na realidade, aprofundam o conhecimento epistemológico do que sejam   os fundamentos da criação literária. No entanto, se empregado   abusivamente,   podem ter  efeito negativo na recepção do leitor médio, tendo-se  em vista o pressuposto de que a nenhum escritor interessas só  o leitor ideal que esteja teoricamente   sintonizado com o escritor. Afastam por isso o interesse  do leitor comum, que frui e aprecia  narrativas mais  focadas em tramas da vida humana e na  perspectiva existencial como representação  de mundos possíveis.

     Veja bem, a minha ressalva não se assenta absolutamente  na recusa desse tipo  - o que seria de minha parte um   reducionismo de natureza conservadora -, de narrativa pela narrativa. O que me preocupa é o emprego indiscriminado  que alguns escritores de hoje têm feito desses recursos internos tanto no país quanto no exterior, de tal sorte que chega ao cansaço e este se afigura um meio caminho para a  exaustão que a ninguém positivamente  interessa.

    Até  me parece, em algumas vezes,  que o ficcionista, para ser bem visto pela comunidade literária, o esprit de corps do meio acadêmico-universitário, para dar prova de atualização,  de modernidade,  deva, por obrigação,  testar sua experiência de docente  de literatura (em geral, tais autores são professores  de letras)   a fim de mostrar-se, reafirmo,  em sintonia, ademais,   com alguns autores do exterior.

    Lembro a este  escritor, no entanto,  que uma ficção bem  articulada e sem fazer concessões anacrônicas ao Romantismo, Realismo e  Naturalismo ou a outros estilos literários, muito bem pode explorar, em linguagem renovada e com originalidade de composição, os velhos (eternos) e novos temas da humanidade, sem que, com isso,   possa ser rotulado de passadista.

       Recorde-se que o antigo e o atual – haja vista o sucesso que têm tido bons autores de romances históricos - podem ser temas do escritor de hoje, desde que a habilidade do artista transforme o antigo em formas novas e até  transgressoras, e mais, sem prejuízo de legibilidade  do leitor em contato com a obra.

    Se a literatura, em qualquer parte hoje, persiste na imitação da imitação, no modismo  pelo modismo,  creio que chegará  a impasses que  nenhum crítico ou leitor desejarão para o  futuro da narrativa. Quanto mais persistir na estratégia de expressar-se literariamente por hermetismos,  a  condição literária vai  seguramente perder leitores, os quais irão procurar sem dúvida as leituras mais excitantes, como a ficção   policial e os apelos e facilidades  dos bestsellers estrangeiros.

     Ao   girar  em demasia sobre  um mesmo    eixo  temático   do próprio ato de narrar e seus inúmeros   percalços, o escritor de ficção tenderá a perder contato com a realidade dos leitores,  os quais dele fugirão, uma vez pressentindo  tratar-se de obras que para eles não passam de quebra-cabeças ou charadas  metaficcionais. O autocentramento, no campo da literatura, não irá  resolver todos os impasses epistemológicos sobre as aporias de Sísifo, incapazes de responder plenamente e de vez aos enigmas da  criação literária, tal como os  surrados  problemas da origem da  vida  ou da existência , ou não, de um  Criador  do Universo.  

NOTAS.

(1) Sobre este artigo,  informo ao leitor que já estou dele   fazendo uma republicação aumentada e melhorada. 

(2) Sobre este autor e outros hisoriadores literários brasileiros, remeto o leitor ao meu livro Breve introodução a curso de letras: um orientaçao.Rio de Janeiro: Literis; Quártica, ,2009, p.8-97. 

(3)_ Parece-me que o autor não chegu a realizar esse empreendimento, o que é   uma pena.