Infausta caçada
Por Reginaldo Miranda Em: 29/04/2026, às 23H21
Reginaldo Miranda[1]
Naquela tarde, mal eu estacionara no pátio da fazenda, veio-me o aviso: Né Pereira desejava conversar comigo. Deixara recado urgente, pedindo que lhe avisassem da minha chegada. Não era segredo na vizinhança o infausto em que, dias antes, se envolvera, uma dessas ciladas que o destino prega em quem vive de ler o chão.
À boca da noite, o silêncio da ribeira foi quebrado pelo trote de um animal de montaria. Era ele. Sob uma lua cheia que parecia vigiar o mundo, Né apeou da mula e amarrou-a ao tronco de um frondoso pau-d’arco roxo, cujas flores caíam como testemunhas mudas. Aproximou-se do alpendre onde conversávamos — eu, o vaqueiro e alguns agregados — e cumprimentou-nos com um aperto de mão seco, de pele curtida, como manda a boa lei sertaneja.
Sentou-se. Durante algum tempo, foi apenas vulto e escuta. Ouviu a conversa sobre o plantio e a lida dos animais sob a luz trêmula dos candeeiros. Nada falava, apenas sorvia o tempo, entre um gole e outro de café. Durante a conversa prolongada não deixei de perceber que o taciturno visitante se afastara para junto de um oitizeiro fronteiriço. Na escuridão da noite, buscou o arrimo da roda gasta de um velho carro-de-boi. Ali, entregue à ação do tempo, espicaçou na concha da mão o fumo do cornimboque de chifre de bode que trazia preso à cintura. Com uma faca miúda passou a picar em rodelinhas finas e desmanchá-las na ponta dos dedos o tabaco que fora enrolado em palha de milho que trazia no bolso da camisa. Com a pederneira acendeu o porronca que foi sorvido lentamente, em baforadas intermitentes, quando mirava o céu estrelado e, certamente, pensava no seu destino. Ao final, dissipada a natural ansiedade que seu caso gerava, depois da última pitada deixou cair aos pés a bagana que foi amassada com a chinela de couro. Então, sem chamar a atenção retornou à rodada, sorvendo novo gole de café.
A noite seguia calma, sendo a escuridão abrandada pelo brilho das estrelas e o reflexo da lua cheia a brilhar como se fora uma moeda dourada. O silêncio era entrecortado pelo lento vozerio dos prosadores ou pelo mugido das vacas apartadas no vizinho curral de carnaúba para a ordenha matinal. Vez ou outra mugia um dos bezerros que pernoitavam no pátio ou relinchava um cavalo no descampado à frente. Não era incomum os zumbidos contínuos de grilos e cigarras; piados agudos de corujas; cantos de bacuraus e assuns-pretos, o lamento melancólico da mãe-da-lua, o coaxar das rãs e os estalos de gambás e bugios que vinham do babaçual vizinho, em rica e natural sinfonia de sons noturnos de aves e mamíferos, tão comuns àquela gente matuta e que poderia causar apreensão em citadinos sem vivência sertaneja.
Lá para as tantas, o visitante pediu um "particular". Atendi-o prontamente; Né era velho conhecido, homem de paz, lavrador de pequena gleba herdada dos genitores. Seu único lazer, e também sustento, eram as caçadas. Era homem cheio de ciências: sabia fazer a ceva para cotia, ou armar a espera de veado em pé de pequizeiro, cagaita ou mirindiba. No tucunzal, era mestre no rastejo de caititu. Era ali que descarregava a adrenalina e garantia a carne na panela. Era também supersticioso, acreditando em visagens e coisas do outro mundo que apareciam nas noites densas. Certa vez, amofinou-se com um vizinho brincalhão, acreditando que ele tinha feito mandiga para “arear” seu cachorro de caça que, até então certeiro no encontrar rastro e farejar animais, vinha tendo insucesso nas últimas caçadas.
Pois bem. Entramos para o escritório. Ele, meio cabisbaixo, tirou o chapéu de palha e o colocou sobre o joelho, a perna cruzada.
— O senhor soube do que se assucedeu comigo, doutor? — indagou, com a voz num fio de graveto quebrando.
Ante meu aceno afirmativo, ele soltou um ar pesado:
— Pois é, doutor. Eu nunca pensei que uma coisa dessa pudesse acontecer. A panema quando pega a gente, desmancha o juízo.
Vinha pedir que eu o defendesse; confiava que eu poderia "botar a mão sobre ele". Contou-me que, estando há dias sem ir ao mato, encontrara-se com o vizinho e compadre Zacarias, lá nos Cágados, vale do rio Esfolado, onde moravam. Era dia de feira. Entre um trago e outro, combinaram a sorte. Sabiam de uma espera boa, num pequizeiro que derramava flor, perfumando o ar com aquele cheiro doce e enjoado que atrai o bicho e entontece o homem. O caminho do veado já estava fundo de tanto o bicho frequentar. Era só armar o girau nas galhas altas e esperar o bicho se amostrar.
No dia aprazado, prepararam os petrechos. Né levava seus cachorros, bichos afamados que, ao verem a bolsa de couro com rapadura e farinha, soltaram faíscas pelos olhos. Quando ele pegou a bate-bucha, os bichos saltaram faceiros e deram voltas pelo terreiro vindo parar aos seus pés, com o rabo a abanar. Mas naquela tarde, a sorte estava virada. Rodaram a chapada e nada encontraram. Ao cair da noite, amarraram os cães num rancho improvisado para não melar o silêncio e subiram na copa dos pequizeiros. A espera foi vã.
— É bicho desconfiado, doutor — justificou Né, balançando a cabeça. — Ele sente o cheiro da gente, atravessa o vento e não vem.
Pela madrugada, desceram da espera para ganhar o caminho de casa. Foi quando, na beira da estrada, perceberam o rastro de um mateiro. Rastro fresco, fumegando. Resolveram rastejá-lo no corso, separando-se para cercar o bicho. Né tinha a vista enevoada, mas o rastro era guia seguro. De vez em quando, parava e levantava a vista para "tomar a altura" do mato.
Lá para as tantas, ele avistou um arbusto balançar. Apertou os olhos, buscando a forma na penumbra. Viu, com a certeza dos desesperados, o pescoço do mateiro movendo-se, aparando as folhas da planta. O vento soprava de feição, contra o seu rosto, garantindo que o bicho não sentiria o cheiro de gente. Ajustou a mira na curva do pescoço e apertou o gatilho. O estampido seco da bate-bucha quebrou o silêncio da madrugada. Tiro certeiro. Ouviu o gemido e correu, já agradecendo a Deus pela janta.
No entanto, ao chegar ao local, faltou-lhe terra nos pés. A vista turvou-se e o corpo todo tremeu. Era seu amigo que esperneava, gemendo entre as folhas. Zacarias ainda lhe estendeu os braços, pedindo uma ajuda que a morte já vencia. Ao amigo só restou-lhe abraçá-lo fortemente e sacudi-lo, chamando-lhe pelo nome e pedindo-lhe para não dormir: “Acorda, compadre!”, repetia sem parar.
O destino pregara a peça definitiva: o compadre estava agachado, atendendo às necessidades do corpo. Ao aparar umas folhas para higienizar-se, o movimento do braço de Zacarias, subindo e descendo na penumbra, desenhara para a vista curta de Né a silhueta perfeita do pescoço de um veado pastando. Foi quando ele apertou o gatilho.
Ali, no escritório, Né Pereira parecia menor que o próprio chapéu. A caminhada de volta à povoação vizinha, para pedir ajuda, foi a mais longa de sua vida: as ideias embotavam, o ar rareava, as pernas pesavam e o chão faltava-lhe.
— O senhor veja, doutor... a gente caça a vida inteira pra vencer a fome, e termina é entregando a alma pro remorso. Se a justiça me soltar, a mata não me solta mais.
[1] Advogado e escritor. Da APL e do IHGPI. Contato: [email protected]

