Escritor Halan Silva. Foto: jornalista Vanize Lemos
Escritor Halan Silva. Foto: jornalista Vanize Lemos

Carlos Evandro M. Eulálio[1]

 

A obra Gleba de Ausentes: Uma Biografia de H. Dobal, escrita por Halan Silva, ensaísta, poeta, dramaturgo e historiador, agora publicada em sua segunda edição, constitui o marco inicial das comemorações do Centenário de Nascimento do poeta H. Dobal (1927-2008) que ocorrerão oficialmente em outubro de 2027. Gleba de Ausentes é título também de uma antologia do poeta, publicado pela Corisco em 2002. Com esse título dado à biografia, homenageia-se o poeta H. Dobal, criando-se também uma identificação entre o biografado e sua produção literária.

 Os assuntos desta biografia estão distribuídos em duas partes: Dobal e a Geração de 1945 e Do Caderno de Letras Meridiano. É nesta segunda parte, no capítulo XVII que se insere uma antologia de Poemas de H. Dobal (1944-1949).  Muitos desses textos, são poemas intimistas, em primeira pessoa, como Carta para o meu primeiro amor (com o título em Inglês, p.11) e alguns poemas de época que resgatam a memória de nossa cidade na época em que foram escritos, como “Uma tarde no Liceu”, p. 130, e “Súbito Poema para as Meninas do Ipase”. p. 157, antigo Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado.

Antecedem a essas duas partes do livro o Prólogo do autor e dois ensaios, respectivamente dos professores M. Paulo Nunes e Carlos Evandro M. Eulálio.

No prólogo desta biografia, Halan declara sua proximidade com o biografado, fato que confere maior credibilidade à obra. Daí sua importância quanto a esse testemunho, pelo aspecto humano, verdadeiro e denso em emotividade. 

Os estudos sobre Dobal aliam sua trajetória biográfica à análise de sua obra. Além de mencionar os temas centrais abordados pelo poeta, os relatos ressaltam vínculos com os seus contemporâneos da geração de 1945, como O. G. Rego de Carvalho e M. Paulo Nunes. Com estes o poeta idealizou e criou a revista Caderno de Letras Meridiano, da qual foi um dos diretores, tendo colaborado nos seus dois primeiros números. Essa revista circulou em outubro e dezembro de 1949 e setembro de 1950. Apenas três números.  Surgiu num contexto de efervescência cultural, consolidando-se como um marco que redefiniu o futuro das letras piauienses.

Tinha como propósito encontrar novas alternativas para o projeto modernista no Piauí e impulsioná-lo, mediante o lançamento de novos escritores. 

Esta edição da Biografia de H. Dobal é enriquecida com novos textos, como Sol e Chuva, na p. 84 e outros que se acrescentaram aos capítulos já existentes, como a carta de Mário Faustino, datada de 27 de dezembro de 1950, dirigida ao filósofo Benedito Nunes, residente em Belém do Pará, que é inserida, na íntegra, no capítulo IX, intitulado Encontro Marcado, p.58. Reporto-me a esta carta no meu livro Mário Faustino e os Arigós do Piauí.[2] Por meio dela, Mário Faustino, quando aqui esteve em 1949, visitando parentes e amigos, refere-se com surprese e admiração aos intelectuais da terra, pois não esperava encontrá-los por aqui. Sobre o Caderno de Letras e H. Dobal, diz Faustino:

Agora a surpresa: sabes que aqui tem gente culta, inteligente, moderna e de espírito à beça. Se eu arranjar, vou te mandar os três números de uma revistinha de novos daqui: Meridiano. Em seguida, sem citar o nome, Faustino se refere ao poeta Hindemburgo Dobal Teixeira (H. Dobal – 1927-2008):  Tem um rapaz que escreve uns belos poemas, muito simples, muita poesia e muito bom gosto, traduz otimamente ingleses e americanos (inclusive o Eliot e Cummings). Eu dizendo tu não acreditas. Desse mesmo rapaz, que não só tem talento, mas também uma boa cultura, li um interessantíssimo artigo sobre o egoísmo inglês e a generosidade dos saxões e dos latinos, intitulado “D. Quixote versus Robinson Crusoé”. Esse rapaz cita Santa Teresa, Lope de Veja, Quevedo, Calderón, Shakespeare, Unamuno, Bunyan, John Donne, com uma seriedade espantosa. Só tu vendo.

Em seguida cita fatos e nomes de outros intelectuais que aqui conheceu, como o engenheiro Cícero Ferraz de Sousa Martins, o médico Clidenor de Freitas Santos, Rocha Furtado, à época, governador do Piauí, e o padre Zé Luíz Cortez.   

 

Sobre a estrutura da obra:

O livro Gleba de ausentes: uma biografia de H. Dobal, rompe com a clássica estrutura cronológica, isto é, que segue passo a passo a vida do biografado. Nesta obra, Halan distancia-se do tradicional formato diacrônico de narrativa, com começo meio e fim.

Adequando-se ao modelo contemporâneo de narrativa mediatizada, típico da era digital, organiza os capítulos numa sequência autônoma. Isso permite a leitura na ordem desejada.  Esse estranhamento rompe com a expectativa do leitor, que se depara com uma escritura criativa, na forma de expressão e na maneira de narrar, tornando a leitura fluente e mais dinâmica.

Assim, logo na parte inicial do livro, veremos que os primeiros fatos relacionados ao biografado não são aqueles remissivos à sua infância, mas a situações marcantes de 1948, refratadas mais tarde na própria poesia de Dobal.

Mais do que uma biografia do poeta Hindemburgo Dobal Teixeira, este livro oferece um amplo panorama lítero-cultural da Geração de 1945.

Fruto de rigorosa pesquisa, a obra retrata o cenário socioeconômico de Teresina entre a década de 1940 e o início dos anos 1950.

O texto também contextualiza o período sob a interventoria de Leônidas de Castro Melo. O autor expõe os contrastes da gestão, destacando tanto suas grandes realizações em Teresina e em todo o Piauí quanto episódios trágicos — a exemplo dos incêndios nas casas de palha (documentados por Vítor Gonçalves no conto Fogo e no romance Palha de Arroz, de Fontes Ibiapina). Cita, ainda, o episódio da aposentadoria compulsória dos desembargadores Simplício Mendes, Esmaragado de Freitas e Arimateia Tito, manobra que visava afastar magistrados independentes e garantir o controle do Judiciário piauiense.

Gleba de Ausentes: uma biografia de H. Dobal é acrescida em suas páginas finais de uma entrevista que constitui um raro e exclusivo depoimento pessoal de H. Dobal, concedida aos professores Halan Silva e João Kennedy Eugênio.

Com esta obra, a historiografia literária piauiense tem muito a ganhar, tanto pela veracidade das informações que apresenta, com rigor crítico e documental, quanto pela forma envolvente com que se oferece ao leitor.

 


[1] Carlos Evandro Martins Eulálio é professor e crítico literário. Membro efetivo da Academia Piauiense de Letras, cadeira 38.

[2][2] EULÁLIO, Carlos Evandro M. Mário Faustino e os arigós do Piauí. Teresina: - Editora e Livraria Nova Aliança, 2023.