Fazenda Cachoeira, hoje Cachoeira do Roberto.
Por Reginaldo Miranda Em: 26/02/2026, às 15H31
Reginaldo Miranda[1]
I. Situação histórica
A presente prancha representa o conjunto arquitetônico primitivo da Fazenda Cachoeira, estabelecida no alto sertão pernambucano por Roberto Ramos da Silva, natural da cidade de Oeiras, no Piauí, capitão de ordenanças e agropecuarista de larga atividade, cuja instalação no local deu origem à povoação de Cachoeira do Roberto. A propriedade situava-se à margem da antiga estrada real que ligava os sertões do Piauí às feiras do litoral de Pernambuco e Bahia, rota secular de tropeiros, mascates e boiadas destinadas ao comércio das capitanias do Nordeste.
A localização, de evidente importância econômica, explica o crescimento precoce da fazenda, que servia de pouso e abastecimento aos viajantes e centro de criação de gado no território entre os rios Pontal e São Francisco. A prosperidade da casa, construída com sobriedade, mas amplitude, reflete a condição do proprietário, herdeiro de tradição sertanista ligada às antigas famílias de colonizadores do interior nordestino.
II. Disposição topográfica
O conjunto arquitetônico obedece à lógica funcional das fazendas-pouso do sertão. A casa-grande ergue-se em plano ligeiramente elevado, dominando visualmente o terreno e permitindo ventilação e defesa natural contra as cheias e enxurradas. A capela de Nossa Senhora das Dores, edificada em 1817 em cumprimento de promessa religiosa do fundador, situa-se em plano inferior, próxima à estrada real, como convinha aos templos rurais destinados ao culto de moradores e viajantes.
Entre a capela e a casa passa a estrada de terra batida, por onde transitavam tropeiros e boiadas, conferindo à fazenda função de entreposto. A paisagem circundante, de caatinga rala com juazeiros e solo pedregoso, corresponde ao ambiente do sudoeste pernambucano, na transição com o sertão piauiense.
III. Arquitetura da casa-grande
A casa-grande apresenta planta alongada e térrea, com numerosos quartos voltados para a frente, cada qual com porta própria, destinados aos hóspedes e viajantes que pernoitavam na propriedade sem perturbar a intimidade da família. Esta prática, comum no sertão oitocentista, atesta o movimento constante da estrada real e a hospitalidade regulamentada das fazendas de trânsito.
As paredes são de taipa caiada; o telhado, de duas águas com telhas de barro envelhecidas; a varanda frontal possui mureta contínua, sem colunas, conforme a tipologia das casas sertanejas do Piauí e Pernambuco. A casa integrava ainda cozinha separada, currais de caiçara, estribaria e dependências de trabalho.
IV. A capela de Nossa Senhora das Dores
A capela, pequena e de nave única, segue o modelo das ermidas rurais do Nordeste: fachada simples com porta central, frontão triangular e cruz superior. Embora a capela atual apresente reformas posteriores, a reconstituição procura aproximar-se do aspecto primitivo, de taipa caiada e telhado singelo, erguida com auxílio de missionários capuchinhos e destinada à assistência religiosa da povoação nascente.
Em torno da capela desenvolveu-se o núcleo da futura vila, sede paroquial entre 1867 e 1870, onde se celebravam as missas em desobriga e a tradicional festa do Divino Espírito Santo.
V. Vida econômica e paisagem
A cena inclui discretamente gado curraleiro pé-duro, vaqueiros montados em cavalos sertanejos e viajantes na estrada, evocando a economia pastoril da fazenda. O curral, os caminhos de terra e a vegetação de caatinga compõem a paisagem histórica do sertão pernambucano-piauiense do início do século XIX, marcada por estiagens periódicas e criação extensiva.
A casa, a capela e a estrada formam, assim, tríplice símbolo da sociedade sertaneja: família, fé e trânsito comercial.
VI. Significação histórica
O conjunto arquitetônico da Fazenda Cachoeira representa a gênese de Cachoeira do Roberto, povoação que se tornaria centro comercial e religioso regional. A casa-grande testemunha a colonização agropecuária do sertão interior, enquanto a capela simboliza a religiosidade católica que estruturava a vida social, e a estrada real evoca o fluxo de mercadorias e pessoas que integrou os sertões do Piauí, Pernambuco e Bahia.
A prancha, portanto, conjuga memória genealógica e memória regional, conforme o propósito iconográfico do Álbum.
Notas
- Informações genealógicas e históricas sobre a fazenda e sua fundação baseiam-se em tradição familiar e em notícias publicadas na imprensa oitocentista acerca de Delfina Rodrigues Seabra, matriarca da linhagem, cuja numerosa descendência se espalhou pelos sertões do Piauí, Pernambuco e Bahia.
- A tipologia arquitetônica segue modelos documentados de casas-grandes sertanejas de Oeiras, Valença, Campo Maior, Jerumenha e Santa Maria da Boa Vista, caracterizadas por planta alongada, quartos frontais e ausência de colunatas.
- Sobre a importância da estrada real dos Sertões de Dentro para o comércio de gado e charque, ver cronistas regionais e os Anais Pernambucanos de F. A. Pereira da Costa.
- A capela de Nossa Senhora das Dores, erguida em 1817, tornou-se sede paroquial provisória entre 1867 e 1870, evidenciando a centralidade religiosa da fazenda na região.
[1] Advogado e escritor. Membro da APL e do IHGPI. Contato: [email protected]

