Entrevista com Vanessa Teodoro Trajano
Por Denise Veras Em: 12/02/2026, às 10H44
“A literatura é inesgotável.”
Avisei à Vanessa que gostaria de entrevistá-la, ao que ela prontamente atendeu, mas eu, por outro lado, me intimidei um pouco. Como apresentar uma escritora que recusa apresentações? Ela já é, chega, aparece e se mostra nua e crua. Vanessa Teodoro Trajano é uma artista prolífica e de muitas facetas, sendo assim optei por permitir que ela conduza o início desta entrevista e me diga ela mesma o que ela quer falar. Vai ser divertido e atrevido, tenho certeza.
Vanessa, em função do objetivo deste projeto, sempre iniciamos perguntando a naturalidade das nossas entrevistadas. De que cidade você é?
Nascida e criada em Teresina. Por isso digo nas minhas bios: “nascida na Terra do Sol do Equador...” põe sol nisso.
O que você gostaria de começar dizendo aos nossos leitores? Sabe cozinhar? Levanta cedo? É uma mulher de hábitos? Nos diga tudo e não nos esconda nada. (Risos)
Sou uma farsa. A Trajano é uma invenção. Quem me conhece sabe que durmo e acordo cedo, sou uma negação na cozinha (queimo e explodo coisas sem querer) e de noite não sirvo para nada, além da minha cama. A mulher boêmia, sedutora e fatal invocada e vivida sob minha pele anos atrás foi um subterfúgio para não morrer. Após um término traumático, chorando por três dias consecutivos, me olhei no espelho e, como me vi com uma beleza típica de quem estava no auge dos seus dezessete anos, me perguntei: para que diabos tantas lágrimas? Automaticamente parei de me lamentar e fui para a vida noturna, para as extravagâncias, para as experimentações sem fim. Como pode ver, a Trajano salvou a minha vida, e vez ou outra ela me socorre de novo. Mas hoje ela é mais uma colega de trabalho do que personalidade inata. Deus me livre se o fosse.
Eu sei que agora, além de escritora, professora, roteirista e ghostwriter você também é quiromante. Fale mais sobre esse seu novo lado.
Sempre tive um pé no sobrenatural. Sonhos premonitórios, experiências inexplicáveis pelo âmbito da lógica, intuição aguçada. Por esse motivo, faz muito tempo que me tornei consulente assídua do tarô e, numa dessas, me disseram: você faria esse tipo de trabalho aqui que eu faço, tem os caminhos abertos. Mas eu nunca quis jogar tarô, minha curiosidade esotérica era outra: as mãos. Em 2017, fiz uma consulta com um quiromante e posteriormente aconteceu tudo igualzinho como ele apontou. O fato martelava na memória desde então, eu olhava para as minhas mãos, buscando entender como aquelas linhas denunciavam o passado e anunciavam o futuro. Daí, num halloween, me fantasiei de cigana e brinquei de ler as mãos das pessoas. Acontece que senti como se já tivesse feito aquilo, como se fosse uma lembrança, mas o detalhe é aquilo nunca aconteceu, nem de brincadeira. Ali eu entendi: deveria estudar quiromancia. E não parei mais. Comecei a atender por incentivo de amigos que disseram que as minhas leituras voluntárias foram assertivas. Então, se você se interessar, posso ler a sua (risos).
Olha só, que interessante! Vou te procurar qualquer dia. (Risos)
Em sua biografia você se apresenta como “cidadã do mundo”. De que maneira essa ideia de deslocamento atravessa sua escrita? Você sabe por que escreve?
Escrevo porque não sou boa com palavras oralizadas. Aliás, minha expressão toda é comprometida. Desastrada, derrubo objetos no chão, motricidade afetada pelo TDHA, fala acelerada, que não acompanha a velocidade dos pensamentos. O corpo em si é um movimento desgovernado. Então escrevo porque esse é o único modo de me expressar com segurança. Na verdade, escrevendo, acredito que estou sempre construindo. De maneira que, cada cidade que morei, cada gente que conheci, representa um tijolo e uma argamassa desse imenso arranha-céu que é a minha literatura.
Você transita por muitos gêneros: poesia, prosa, roteiro e escrita por encomenda. O que muda e o que permanece de você quando você altera a forma da sua arte?
Quando escrevo poesia é porque algo dentro de mim coça ou arde. Quando é prosa, é porque uma história se passa na minha cabeça, com diálogos intermináveis que faltam me enlouquecer – acontece parecido com o roteiro. Enquanto a escrita por encomenda é uma habilidade remuneratória que adquiri por considerar uma coisa fácil de se fazer. E não digo mais nada, vão dizer que estou me achando, (risos). No fim das contas, alternar a linguagem ou o gênero não muda nada em mim. Continuo sendo apenas uma artista que atende as próprias pulsões criativas, e que elas mesmas ordenam como desejam ser elaboradas.
Você é uma mulher jovem, mas já tem uma carreira consolidada, por isso não considero prematuro perguntar: você teve algum momento decisivo em sua carreira? Qual foi?
Quando disse, acho que para você, que se nada acontecesse em dez anos eu iria mudar de ramo. Aí no ano seguinte ganhei um prêmio, depois outro... então, já tive a minha resposta, antes do prazo final estipulado. Não vou mudar de ramo. Porém, cogitei parar por me sentir desvalorizada. Andou pertinho.
Vanessa Trajano tem alguns bons prêmios literários no currículo. O que muda (se é que muda alguma coisa) quando um livro é reconhecido por um prêmio literário?
Para mim? Nada. Para o grande público, crítica e editoras, tudo. Se você tem um selo do Jabuti, Oceanos ou SESC pode considerar que a sua carreira está meio caminho andado. Aí melhora bastante. É mais no sentido de você não ter que correr mais atrás dos leitores, eles chegam até você. O Prêmio viabiliza isso, dando-lhe notoriedade.
3 noites com Maria Eugênia e Trajano-te marcam momentos distintos da sua trajetória. Você percebe uma inflexão estética entre essas obras?
Percebo. 3 noites com Maria Eugênia marca o fim de uma trilogia, iniciada por Mulheres Incomuns e tendo como obra intermediária Ela não é mulher pra casar. Ao encerrá-la, constatei que não pretendo voltar a ela enquanto temática e estilo, considero essas questões resolvidas. E Trajano-te é o meu ato de audácia, uma poesia diferente de Poemas Proibidos e Supermulher e outras performances poéticas. Ainda mantém o tom confessional, mas nasceu de situações tão doloridas para uma mulher que é como se eu tivesse encontrado uma redenção através da escrita. Veja bem: não é mais como quem quer tacar fogo no mundo, e sim como quem pretende pegar as cinzas e criar algo de valia.
Em uma de nossas muitas conversas você me disse que não tem artistas em sua família, você foi a primeira. Como foi para você se firmar no meio literário? Tudo lhe correu fácil ou foi difícil?
Fácil porque você nunca verá me vitimizando. Meus pais eram pobres e semianalfabetos, eu morava na periferia, onde se começava a beber aos doze anos e as minhas amigas quase todas engravidaram na adolescência. Mas eu nunca considerei isso um impedimento. Muito pelo contrário, era material humano. Portanto foi fácil porque eu fiz com que se tornasse fácil. Estudei, trabalhei, ia aos eventos, botava a cara, me articulava com outros autores e gente ligada ao meio cultural e as coisas foram acontecendo. Como acontecem até hoje, quando não me saboto.
Eu costumo carregar comigo caneta e papel (quase nunca uma caderneta porque agora temos o celular) mas, ainda assim, algumas ideias se perdem no limbo da memória, geralmente porque não registrei na hora ou porque o impacto inicial se rompeu. Nesse momento entro em sofrimento, e em mim se eleva a sensação de que se despedaçou a inspiração. Você sente isso quando perde alguma ideia? Como você lida com essa diva voluntariosa que é a inspiração?
Acontece quase toda noite. Fico com preguiça de levantar e registrar. Acabo dormindo, jurando que vou me lembrar no outro dia. Não lembro. Sofro também. Mas depois esqueço. A literatura é inesgotável.
Que pergunta você gostaria que fizessem à sua obra e ainda não fizeram?
Não sei. Faço a mínima ideia. Entrego a responsabilidade de pensar a respeito aos leitores. Quando souberem o que perguntar, me procurem no direct. Não se acanhem não.
O que você gostaria de dizer para a nova geração de escritores que está se formando?
Publiquem menos, leiam mais. Da mesma forma que nem tudo o que a gente pensa se diz, nem tudo o que se escreve se publica.
Ser escritor em um país pouco leitor é uma realidade dolorosa e sacrificante. Você já pensou em desistir da carreira? Caso tenha pensando, o que a fez declinar?
Bom, já respondi isso acima. Fiz uma condição a mim mesma para não parar e recebi uma resposta positiva do universo. Então aqui estou eu, me renovando. Só este ano vou publicar 4 livros, com previsão para mais ano que vem. Tive tempos de limbo, espera, estagnação e dúvidas, mas agora me encontro numa fase produtiva. Devo me recolher novamente? Certamente sim. Eu me escondo mais do que me mostro, apesar de parecer o contrário.
Quem quiser adquirir os seus livros, como deve proceder?
Ela não é mulher pra casar está disponível na Amazon, outros livros em formato E-book estão por lá também e ainda há os que estão em sites de editoras, como a Caravana, Letramento e a Vecchio, em breve. Obrigada pelo papo, senti como se tivesse tomando cafezinho contigo.
Nós é que agradecemos por essa conversa agradabilíssima. Quem quiser te encontrar, te acha onde?
Meu instagram é: @vanessateodorotrajano

