Entre monstros e fantasmas, Ayrton de Souza transforma Teresina em cenário de Para sempre madrugada
Em: 23/07/2026, às 23H09
Da Redação de Entretextos
A literatura fantástica produzida no Piauí ganha um novo capítulo com o lançamento de Para sempre madrugada, livro de contos do escritor teresinense Ayrton de Souza, que será apresentado ao público no dia 29 de agosto, na Biblioteca Estadual Cromwell de Carvalho, em Teresina. Publicada pela Editora Geleia Total, a obra reúne dez narrativas que transformam situações aparentemente comuns do cotidiano em experiências marcadas pelo horror, pelo insólito e pelo sobrenatural.
Distante do terror convencional, o livro utiliza fantasmas, monstros, assombrações e quebrantos como recursos literários para revelar medos muito reais. Hospitais públicos superlotados, a síndrome de burnout, a fumaça das queimadas durante o calor extremo, a violência no trânsito e o esgotamento das relações humanas surgem sob uma nova perspectiva, em que o fantástico serve para expor aquilo que a rotina costuma tornar invisível.
Como define o próprio autor, "este é um livro sobre as ruas abandonadas que moram nas pessoas", sintetizando uma proposta narrativa que aproxima o horror da experiência urbana contemporânea.
Mais do que provocar suspense, Para sempre madrugada constrói uma geografia afetiva de Teresina. A cidade deixa de ser apenas pano de fundo para tornar-se personagem, atravessada por memórias, tensões sociais e imaginários populares. O resultado é uma literatura que dialoga com a tradição do fantástico latino-americano, mas preserva forte identidade regional ao incorporar referências culturais, espaços urbanos e elementos do folclore piauiense.
A publicação também reforça o momento de expansão da literatura contemporânea produzida no estado, especialmente entre autores que exploram narrativas fantásticas, de horror e ficção especulativa. Nesse contexto, a Editora Geleia Total tem desempenhado papel importante na divulgação de novos escritores e no fortalecimento da produção cultural piauiense.
HORROR QUE NASCE DO COTIDIANO
O aspecto mais singular da obra talvez seja justamente a escolha de localizar o horror em situações reconhecíveis pelos leitores. Em vez de recorrer apenas ao sobrenatural, Ayrton de Souza transforma experiências coletivas — como o calor sufocante da capital, o desgaste emocional do trabalho e o abandono dos espaços urbanos — em matéria-prima para histórias inquietantes.
Essa aproximação entre realidade e fantasia dialoga com a trajetória acadêmica e literária do autor. Formado em Letras pela Universidade Federal do Piauí (UFPI) e mestre em Letras, Ayrton participou do Grupo de Estudos sobre o Mal na Literatura (GEMAL), dedicado às narrativas insólitas e às representações do horror na literatura. Essa formação aparece refletida em sua escrita, marcada pelo interesse nas fronteiras entre o cotidiano e o extraordinário.
TRAJETÓRIA CONSOLIDADO
Antes de Para sempre madrugada, Ayrton de Souza já vinha construindo uma produção voltada ao fantástico. Em 2020, foi um dos selecionados pelo edital Arte como Respiro, promovido pelo Itaú Cultural, durante o período da pandemia. No mesmo ano, publicou o e-book O Vírus em Dolores, obra que também aproxima elementos fantásticos das inquietações sociais daquele momento.
Além de escritor, atua como editor e integra o coletivo cultural Geleia Total, publicando contos e artigos dedicados à literatura e à cultura produzidas no Piauí. Entre suas narrativas destacam-se textos como "Fatiado na rua" e "O Lamento dos Girassóis Noturnos", ambos marcados pela presença do insólito e por uma atmosfera sombria ligada ao espaço urbano. Em 2025, organizou a obra Piauí 2123, dedicada à ficção especulativa produzida por autores piauienses.
LITERATURA PARA PENSAR A CIDADE
Ao lançar um livro que transforma Teresina em território de fantasmas, monstros e assombrações, Ayrton de Souza propõe também uma reflexão sobre a própria cidade e seus habitantes. O horror, em Para sempre madrugada, não surge apenas do sobrenatural, mas das contradições sociais, das violências cotidianas e das marcas emocionais deixadas pela vida urbana.
Nesse sentido, a obra reafirma a vitalidade da literatura piauiense contemporânea ao mostrar que histórias profundamente enraizadas em um território específico podem dialogar com temas universais, despertando identificação em leitores muito além das fronteiras do estado.
O lançamento de Para sempre madrugada representa, assim, mais um passo na consolidação de uma nova geração de escritores piauienses que encontram no fantástico uma poderosa ferramenta para interpretar a realidade e ampliar o imaginário literário do Piauí.

