Deu mais tempo, não!
Por Washington Ramos Em: 27/03/2026, às 21H29
[WASHINGTON RAMOS]
DEU MAIS TEMPO, NÃO!
Subiu a ladeira após a ponte Juscelino Kubitschek a mais de 80 km por hora. “Vai mais devagar”, a mulher reclamou. “Deixa comigo”, ele respondeu. Pouco menos de cem metros da esquina da avenida Frei Serafim com a rua Goiás, ele viu o sinal luminoso piscando no verde e mudando para o amarelo. “Dá mais tempo, não”foi a voz da mulher o advertindo. Ele pisou mais fundo e passou no vermelho. Na esquina da Miguel Rosa com a Frei Serafim, o sinal estava fechado. Sem ligar a sinaleira, ele, que estava na faixa da esquerda, foi para a última da direita, que é exclusiva dos ônibus. Uma moça que vinha dirigindo um fusca teve que frear para não bater na traseira dele. Ela deu uma leve buzinada para adverti-lo. Ele a xingou e fez um gesto obsceno. “Para com essa mania de xingar no trânsito”, reclamou a mulher.
Impaciente, acelerando sem necessidade, ele arrancou feito um doido e, mais uma vez sem ligar a sinaleira, foi para a faixa do meio. No cruzamento com a rua Pires de Castro, o sinal tinha acabado de abrir; mas os carros estavam indo devagar. Ele foi logo buzinando atrás de um Dodge Dart antigo, desses cujo para-choque é de aço cromado e impõe respeito. Porém o Dodge continuou lentamente. Talvez de propósito só para matar na unha o apressadinho idiota. Voltou para a faixa da direita e foi ultrapassando todos os carros. Retomou a faixa do meio, pisando fundo. Chegou à esquina do Colégio das Irmãs e viu que no cruzamento seguinte o sinal estava piscando no verde. Ele acelerou fundo e passou no amarelo. Continuou acelerando, passou ao lado da Igreja de São Benedito, cantando pneu. Entrou na rua 24 de Janeiro e pegou a rua Coelho Rodrigues à esquerda, impaciente, acelerando sem necessidade. Os carros à sua frente iam devagar. Continuaram lentos até o sinal na esquina com a rua Barroso, onde ele quase bateu na traseira de uma camionete, pois o sinal estava fechado. Nessas ruas do centro, não há como ir rápido. O trânsito é intenso com muitos carros, motos, pedestres. Isso o faz inflar as bochechas e bufar, olhando para os lados como se todas as pessoas ali nas ruas fossem inimigos seus.
Duas motocicletas pararam a seu lado. Uma à esquerda, e outra à direita. “A droga dessas motos só servem pra atrapalhar! Odeio motoqueiro!”, ele disse. A mulher retrucou: “Você esquece que tem dois primos e um sobrinha que são motoqueiros, que por sinal são pessoas ótimas, me dou muito bem com todos três.”
O sinal apenas abriu, e ele logo buzinou. O passageiro da camionete, um cara parrudo e decidido, desceu e o xingou: “Mete essa buzina no teu rabo, cabra safado!” A mulher começou a chorar e disse: “Taí o que tu ganha com essa pressa infeliz!” Ele foi saindo de fininho sem coragem de revidar o insulto. Foi seguindo. No cruzamento da Coelho Rodrigues com a Rui Barbosa, o sinal havia acabado de fechar, mas ele invadiu e bateu no para-choque de ferro de uma camionete Toyota, dessa antigas. Dessa vez, não deu mais tempo, não. A pancada foi quase toda na mulher.

