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            Era uma vez um lugarzinho perdido entre as serras mineiras, onde trens carregados de bauxita rilhavam pelos trilhos de um ramal esquecido. Ali morava um menino — desses comuns, de óculos, botas ortopédicas, shorts e camiseta de super-herói — que passava os dias estirado no tapete da sala, assistindo aventuras animadas na televisão.

            Hein, coméquié?

            Calma, impaciente leitor, muita calma. Vossa senhoria não foi enganada: isto é uma crônica, sim. Uma crônica, porém, dos tempos do faz de conta — quando sacis, bruxas, fadas e animais fabulosos reinavam em quatorze polegadas ou giravam na vitrola, em coloridos elepês. Uma crônica inspirada nas histórias publicadas na coleção Fantasminha, que por anos povoaram a imaginação do menino.

            Falando em reinar, a viajante leitora alguma vez esteve no reino dos canecos? Não? Tadinha... Pois aquele menino de botas ortopédicas, shorts e camiseta de super-herói de lá não saía. Tantas foram as vezes que saracoteou entre muros e ameias do castelo do Rei Canequinho que um dia, afastando a franja e ajeitando os óculos, decidiu:

            — Vou ser rei também!

            Para isso, naturalmente, precisava de um reino onde erguer seu castelo e, no alto da mais alta torre, um estandarte com seu brasão. Precisava também de uma rainha —  não qualquer rainha, mas uma tão gentil, bondosa e sensata quanto Noquinha. Juntos, escreveriam cartas à dona cegonha, pedindo que lhes trouxesse, dentro de um lençol tecido no linho mais alvo do mundo, um bebê rechonchudo e esperto.

            Ah, e não poderia faltar, no reino daquele pequeno mineiro, um inventor. Genial e habilidoso, capaz de causar inveja às demais monarquias. Um inventor prático e ligeiro como Olavo, o Comprido, pronto para solucionar qualquer problema que surgisse.

            Assim — agora autoconsagrado rei — viveria os dias mais felizes de sua majestática vida ao lado da família real e de seus súditos. Se bem que, algumas vezes, o medo e a aflição espreitariam: como em todo canto do universo, um homem ardiloso tentaria, a todo custo, tomar o trono para si. Vil e invejoso como Maneco Mau, ele se esconderia na montanha mais sombria, onde tramaria, por dias e noites, logros e golpes.
            Felizmente, a guarda real estaria sempre pronta para deter quaisquer investidas do malfeitor. Enquanto guerreavam contra suas hordas perversas, o rei passearia de braço dado com a rainha pelos jardins do palácio, e o príncipe traquinas brincaria nos canteiros floridos com o rato da lua.

            E, assim, viveriam felizes.

            Até que...

            Até que chegou o inverno. As nuvens escureceram, a natureza emudeceu. E aquele menino — que fez a besteira de não escapulir para a Terra do Nunca — cresceu. Cresceu e ficou besta; cresceu e desistiu de ser soberano de reino algum; cresceu e foi bater ponto numa burocrática e insossa repartição, onde sufoca saudades entre ofícios e intimações, esperando, sabe-se lá o quê da vida.