(Miguel Carqueija)

O encontro entre Lena e Lorne trará sérias consequências ao desenvolvimento da trama:

CAPÍTULO 6

LORNE HURNE


        Já não existem muitas casas luxuosas em Gloria. As poucas que existem são de altos funcionários do governo; entretanto a de Lorne é média e causa inveja. Tem cachorros, mesmo, para a sua proteção — coisa bem rara hoje em dia.
        É por isso que o Faisão Verde hesita. Gosta de animais e não gosta de lutar com eles. Entretanto, o seu método requer uma incursão noturna ao reduto de Lorne. Abordá-lo de outra maneira seria revelar-se a si mesma.
        Telefonar para Lorne seria loucura. Nunca se sabe a quem estão escutando. E os cachorros, se latirem, podem chamar atenção de alguma patrulha.
        Lena medita.
        Finalmente, após dias de planejamento, faz a tentativa.
        A noite é a grande protetora da clandestinidade.
        Lorne mora numa rua tranqüila e de pouco tráfego, no bairro Equinoderma. Ao se aproximar do portão, cerca de uma da madrugada, Lena usava uma roupa masculina ou unissex, e um boné escuro. Então, da mochila retirou rapidamente o que precisava e olhou em volta. Como não existissem cachorros visíveis no terreno ao lado, ela galgou o muro com facilidade; resolveu-se pela abordagem lateral. Já colocara a caixa preta no peito e acionou as bolas, que subiu até o alto do muro divisório entre as duas propriedades. A ausência de vida noturna, sob aquele insípido regime político-social, ajudava Lena. De noite em geral as pessoas dormiam. E agora ela já estava no alto do muro, com seu anulador de alarmes ligado.
        Nada de pisar o chão do quintal, pensou Lena. Os cães não voam; é preciso atingir a casa por via aérea.
        Também convém espalhar o fino pó anestésico pelo ar, com os mini-ventiladores. E rezar para que dê resultado com os cães, pois não foi possível fazer testes satisfatórios... a não ser em Rita. Como ela não é cachorro...
        Logo Lena se encontra no telhado e usa a descoesão molecular para penetrar na casa. Afinal, não é tão difícil... para ela. Uma vez no sótão, pode agir com mais tranquilidade.


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        A porta do sótão estava trancada, como seria de esperar. Lena observou em volta, com a lanterna frontal acesa. Nada de muito interessante para ela, afora umas pinturas a óleo num canto. O sótão era bastante asseado, mais até do que muitas salas de estar. Aquilo denunciava o trabalho de um pequeno robô serviçal, outro luxo, mais raro ainda que os canídeos.
        O Faisão Verde utilizou então suas engenhocas para abrir a porta do sótão.
        Ao fazê-lo cometeu o seu primeiro erro.
        Nunca lhe ocorrera que uma casa pudesse ser tão bem resguardada, que até a porta de uma água-furtada para o interior da residência, ao ser forçada, acionasse um mecanismo de defesa.
        Os seus ouvidos sentiram a campainha de alarma lá embaixo e o sensor do relógio indicou a presença de gás anestésico. Só que esse gás devia ser ejetado quando a pessoa intrusa estivesse ainda no ato de arrombar a porta. Ora, Lena não a arrombara: abrira-a de forma heterodoxa. Assim mesmo o alarma havia funcionado.
        “Que coisa. Um homem que toma tais precauções tem certamente algo a esconder”, pensou ela.
        Descendo a escada rapidamente, Lena viu-se numa saleta com várias portas e resolveu acionar seu mecanismo de bolas para qualquer eventualidade. Súbito uma porta à sua esquerda se abriu e Lorne, de pijama, e apesar de toda a surpresa, apontava-lhe uma arma.
        — Não se mexa — disse tranquilamente.
        No segundo seguinte a pistolaser voou da mão de Lorne e colou-se a uma bola esvoaçante, presa à caixa preta de Lena.
        — Acalme-se, Lorne. Temos de conversar pacificamente. Eu sou o Faisão Verde.


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        Mais duas pessoas apareceram. Uma mulher relativamente jovem e uma moça de avental, uniforme de doméstica.
        Hurne fez-lhes sinal para que não gritassem.
        — Eu já lhe esperava, mas não sabia quando viria.
        — Não foi fácil descobrir um meio de abordá-lo.
        — Então vamos para o meu escritório. Mas antes devolva a minha arma.
        — Peço-lhe que me apresente as outras pessoas.
        Lorne Hurne hesitou e pensou depressa. Naturalmente o Faisão Verde tinha de ser detalhista. Cada detalhe podia garantir sua vida.
        — Esta é minha esposa, Marilú.
        — Muito prazer — disse a mulher, na cara de pau.
        — Igualmente. Creio que já ouviu falar de mim.
        — É você que se intitula o “Faisão Verde”?
        — Isso mesmo.
        — E esta é a Nara, nossa empregada — completou Lorne.
        — Alô — disse Nara, sorrindo.
        O Faisão Verde também sorriu.
        — Aprecio o ambiente familiar. Coisa rara hoje em dia.
        — Todos aqui são de absoluta confiança — observou Lorne.
        — E quem mais está aqui em casa? Além do gato, é claro.
        Realmente, de outra porta, apenas encostada, surgira um belo gato preto e branco, após empurrá-la.
        — Para que esse interrogatório? Eu é que lhe pergunto se trouxe mais alguém.
        — Estou só.
        — Então venha comigo. Dê-me a pistolaser.
        Lena retirou a arma da bola, travou-a e deu-a a Lorne. Este a colocou no bolso e fez sinal ao Faisão, para que o seguisse.


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        O escritório era ótimo na aparência, com as paredes todas forradas como que por um estofamento de poltronas ou sofás. O Faisão Verde sabia estar lidando com um ser humano de estirpe superior e por isso, apesar da provável aliança, não descuidava a guarda. Lorne colocara-se atrás de sua mesa de trabalho, visando a parede oposta onde não havia porta nem janela. A janela ficava no lado à direita de Lorne (ou à esquerda de Lena); a porta à sua esquerda. Mas não ficavam na visão da janela.
        — Quem é você? — começou Lorne.
        — Eu já me apresentei.
        — Mas eu não posso aceitar um apelido. Uma máscara.
        — E por que não? Você também se esconde.
        Lorne passou o polegar e o indicador da mão direita no queixo.
        — Não digo que você não tem razão. Só que é um pouco diferente.
        — Em detalhes, apenas.
        — Então, nada me pode revelar a seu respeito?
        — Se o fizer, será em ocasião de minha escolha.
        — Então o que você quer?
        — Uma aliança com os Rebeldes. Mas note bem: para derrubar o governo iconoclasta. Não aceitarei meias medidas.
        — Mas é isso que nós queremos!
        — Mas as ações dos Rebeldes, Lorne, não chegaram a desestabilizar o regime.
        — As forças são desiguais.
        — Deixarão de sê-lo.
        — Um momento! Você quer dizer que representa — só você — o fator necessário para derrubar o Saturnino?
        — Não apenas eu, mas os meios de que disponho.
        Lena mordiscou a bochecha. Quase dissera “não eu sozinha”! Já era tão difícil disfarçar a voz...
        Lorne encarou-a fixamente:
        — Você nos ensinará os seus truques?
        — Se Deus quiser eu o farei. Se vocês puderem reproduzir os meus aparelhos, a derrubada desse governo será coisa fácil. De dois meses no máximo, a partir da obtenção do arsenal.
        Lorne teve um ligeiro sobressalto. De dois anos para dois meses!
        Ele ainda não sabia disso, mas suas chances começavam a superar as de Iantok.