CADÊ MEU CHEIRO?
Por Washington Ramos Em: 18/06/2026, às 10H43
[WASHINGTON RAMOS]
C A D Ê M E U C H E I R O?
Dezenove anos de idade e há um ano e meio sem arranjar namorada. Não porque não quisesse, mas porque não conseguia mesmo. Levou fora nas cinco últimas tentativas, a mais recente foi de uma pretinha que ele, por ser moreno-claro, julgava que ela iria aceitar. Ele chegou a pensar que ela devia até se sentir orgulhosa em namorar com ele, que tem a pele mais clara do que a dela. Quebrou a cara. Ficou triste. É duro ficar tanto tempo sem caminhar de mãos dadas com uma garota, sem abraçá-la, sem sentir o cheiro natural de mulher, principalmente aquele suave aroma um pouquinho parecido com cheiro de carbureto que se desprende do nariz de algumas mulheres. São raras as mulheres que têm esse cheirinho. É muito tempo sem ser mirado de perto por olhos femininos, sem se ver neles refletido e ser por eles atraído como na ressaca da Capitu.
Ele estava até perdendo o gosto de ir a festas. Ir para ficar sozinho, vendo casais dançando de rosto colado, e ele encostado numa parede, cruzando e descruzando os braços por não ter um ombro de namorada para nele repousá-los. Não é nada interessante isso.
Sua última namorada tinha sido um nerd que só queria saber de estudo, de computador, de celular, de notebook, de internet, enfim, do mundo digital. Era obcecada. Passava horas e horas navegando na web, se esquecia até de se alimentar. Uma vez, ela marcou um encontro com ele na Pintos da praça Rio Branco para comprarem uma blusa que só havia nessa loja. Nem no Pintão não havia.
Após a compra ela disse: “Vamos ali sentar naquele banco, preciso acessar um sítio de Matemática Pura e Aplicada. Dizem que o governo colocou internet grátis nesta praça. Quero experimentar.” Foram de mãos dadas. Sentaram-se. Ele pôs o braço nos ombros dela e os acariciava lentamente, exercendo uma leve pressão. A nerd nada sentiu. Olhava para a tela do celular como se estivesse vendo um punhado de ouro em pó. Seus olhos brilhavam, ela engolia em seco, sua barriga esfriava em ondas, sua respiração se tornou mais ofegante.
Já eram cinco horas da tarde. As lojas no entorno da praça estavam fechando as portas. A partir das 16:30, o centro de Teresina começa a se esvaziar. Ele circulou o olhar ao redor e viu que moradores de rua começavam a andar por perto deles dois. Então, com uma certa timidez diante de tanta tara por Matemática, ele arriscou: “Vamos para um lugar onde a gente fique mais à vontade? Que tal meu apartamento?” “Não, nada disso”, ela respondeu, “tua internet é muito fraca, vou pro meu apartamento, mas vou sozinha. Não esquece de acessar o fórum sobre análise combinatória que eu te indiquei. É muito bom. Depois a gente conversa.”
No dia seguinte, ela, pelo Whatsapp, perguntou o que ele tinha achado do tal fórum. Ele disse que não tinha assistido. Não gosta de Matemática. No mesmo instante ela deu um fora nele. Ele, coitado, dela não ganhou nem um cheiro sequer. Bem que o pai dele tinha avisado: “Meu filho, te sai dessa nerd. Mulher estudiosa e inteligente não sabe amar, não é boa de cama, é fria como uma barra de gelo. Quando jovem, namorei com uma assim. Terminei com ela logo no primeiro encontro, pois cheguei pra ela perguntando pelo meu cheiro, e ela disse que não tinha cheiro a dar a ninguém.” ( continua na quinta-feira da próxima semana)

