Igreja São Benedito
Igreja São Benedito

NOTURNO

Bruno Italo

 

consagro a ti esta palavra

desnuda de luz

faminta de som

 

ergo em teu altar esta palavra

vertida do éter

pescada no Cócito

 

é somente tua esta palavra

Vega invertebrada

aversa ao divã

 

gestada no breu

para que as sílabas

soem cruas

e cada letra vibre

uma nota inaugural

 

como o trinado do vento

na noite morna

que se dobra

à mão direita de Chopin

 

 

 

COLUMELA

Bruno Italo

 

ao som de Jobim

o branco das paredes

ondeia o agora

contra as falésias de toda certeza

 

toda nota é uma casa

cada casa é o mar

 

desaguam em sua soleira

todas as ruas

avenidas e estradas —

rios de rédeas soltas

 

o balanço da rede de sisal

faz jangada na maré alta 

 

a palavrassal

maresia o entendimento 

 

vagas envergadas na orla virgem

ecoam na espuma do silêncio

 

desenterro mil pés 

de dunas andarilhas

 

soergo castelos 

em beiras de abismos

 

acendo o candeeiro

antes de singrar o oceano

 

posso 

enfim

submergir

 

 

UMA ODE A HORÁCIO

Bruno Italo

 

sei que tens

um calo

em todo canto

e mesmo que tua

boca

não abra

sei que abrigas

toneladas

de mar

em tuas odes

mudas

 

sei porém

— tu não sabes? —

que de ti

o tempo não foge

nem escapa

 

não se

despe

de

 

o tempo te abraça

e engendra

o poeta

que se assenhora de

relentos

 

ainda assim

não te esqueças

que tudo passa

 

té este poema vai passar

 

aproveita o dia

 

sofre

o que seja

 

canta

o que deixa

o tempo em ti

 

 

 

ANÁTEMA

Bruno Italo

 

da Nona ao nada

de um muzak zumbindo 

sob salvas de bocejos

e silvos de salivas

pouco pode a sinfonia

contra a ode ao cansaço

das vênias sem resposta 

 

na ressaca

das avenidas

 

nos elevadores

panorâmicos

 

nas clínicas 

psiquiátricas

 

nos livros

de poesia

 

 

ROUFENHO

Bruno Italo

 

antes de Cartola

cantar Candeia

o fagote semeia

sua reza rouca

arrastando

em tom menor

a beleza humilde

de todas as coisas tristes

 

essa virtude fria

que não se anuncia

nem se entrega

sem a pedra

da poesia

 

 

LONGE DA ESCADARIA DA IGREJA DE SÃO BENEDITO

Bruno Italo

 

admiro os poetas

que anotam data e lugar

no rodapé do poema

feito pássaros que retornam

anos depois

à exata árvore

de seu nascimento

do outro lado do continente

 

na falta de uma árvore de caneleiro

escrevo este poema

 

sem onde

nem quando

 

 

VELA

Bruno Italo

 

I. 

 

ecoa na concha

o assobio de Caymmi —

vento que me leva

 

II. 

 

barco no horizonte

curimã ê, curimã...

horizonte no barco

 

III.

 

o sol vai baixando —

no ar resta a ponta lunar

do seu escafandro

 

IV. 

 

nenhuma saudade

vive no peito onde o mar 

não soube ficar

 

 

AVISO AOS NAVEGADOS

Bruno Italo

 

sugiro desconsiderar

 

o soslaio pingando

pelos poros das pestanas

 

as palavras preclusas

no peito das papilas

 

os avisos espalmados

no cenho das pilastras

 

o brilho sem recado

no átimo das pepitas

 

a dissonância ranhenta

dos rumos e das rimas

 

o jazz dentro da marcha

e a valsa sem torpor

 

as guerras da gramática

e as guelras do temor

 

os rins da matemática —

e o amor e o amor e o amor

 

o que a poesia é

não basta

nem arrasta

 

o que a poesia quer

é brincar de médico

com o leitor