BRUNO ÍTALO: Seleta de poemas inéditos
Em: 26/03/2026, às 23H30
NOTURNO
Bruno Italo
consagro a ti esta palavra
desnuda de luz
faminta de som
ergo em teu altar esta palavra
vertida do éter
pescada no Cócito
é somente tua esta palavra
Vega invertebrada
aversa ao divã
gestada no breu
para que as sílabas
soem cruas
e cada letra vibre
uma nota inaugural
como o trinado do vento
na noite morna
que se dobra
à mão direita de Chopin
COLUMELA
Bruno Italo
ao som de Jobim
o branco das paredes
ondeia o agora
contra as falésias de toda certeza
toda nota é uma casa
cada casa é o mar
desaguam em sua soleira
todas as ruas
avenidas e estradas —
rios de rédeas soltas
o balanço da rede de sisal
faz jangada na maré alta
a palavrassal
maresia o entendimento
vagas envergadas na orla virgem
ecoam na espuma do silêncio
desenterro mil pés
de dunas andarilhas
soergo castelos
em beiras de abismos
acendo o candeeiro
antes de singrar o oceano
posso
enfim
submergir
UMA ODE A HORÁCIO
Bruno Italo
sei que tens
um calo
em todo canto
e mesmo que tua
boca
não abra
sei que abrigas
toneladas
de mar
em tuas odes
mudas
sei porém
— tu não sabes? —
que de ti
o tempo não foge
nem escapa
não se
despe
de
o tempo te abraça
e engendra
o poeta
que se assenhora de
relentos
ainda assim
não te esqueças
que tudo passa
té este poema vai passar
aproveita o dia
sofre
o que seja
canta
o que deixa
o tempo em ti
ANÁTEMA
Bruno Italo
da Nona ao nada
de um muzak zumbindo
sob salvas de bocejos
e silvos de salivas
pouco pode a sinfonia
contra a ode ao cansaço
das vênias sem resposta
na ressaca
das avenidas
nos elevadores
panorâmicos
nas clínicas
psiquiátricas
nos livros
de poesia
ROUFENHO
Bruno Italo
antes de Cartola
cantar Candeia
o fagote semeia
sua reza rouca
arrastando
em tom menor
a beleza humilde
de todas as coisas tristes
essa virtude fria
que não se anuncia
nem se entrega
sem a pedra
da poesia
LONGE DA ESCADARIA DA IGREJA DE SÃO BENEDITO
Bruno Italo
admiro os poetas
que anotam data e lugar
no rodapé do poema
feito pássaros que retornam
anos depois
à exata árvore
de seu nascimento
do outro lado do continente
na falta de uma árvore de caneleiro
escrevo este poema
sem onde
nem quando
VELA
Bruno Italo
I.
ecoa na concha
o assobio de Caymmi —
vento que me leva
II.
barco no horizonte
curimã ê, curimã...
horizonte no barco
III.
o sol vai baixando —
no ar resta a ponta lunar
do seu escafandro
IV.
nenhuma saudade
vive no peito onde o mar
não soube ficar
AVISO AOS NAVEGADOS
Bruno Italo
sugiro desconsiderar
o soslaio pingando
pelos poros das pestanas
as palavras preclusas
no peito das papilas
os avisos espalmados
no cenho das pilastras
o brilho sem recado
no átimo das pepitas
a dissonância ranhenta
dos rumos e das rimas
o jazz dentro da marcha
e a valsa sem torpor
as guerras da gramática
e as guelras do temor
os rins da matemática —
e o amor e o amor e o amor
o que a poesia é
não basta
nem arrasta
o que a poesia quer
é brincar de médico
com o leitor

