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            — O rádio incomoda, senhor?

            Notícias do Oriente Médio, bravatas trumpistas, escândalos tupiniquins broxam até o mais imbrochável dos mitos. Mas, como meu destino é logo ali, não implico. Poderia ser pior: uma estação gospel, uma playlist femineja...  

            Ruas malcuidadas, pessoas fora das calçadas, prédios pavorosos desfilam pela janela entreaberta.

            — Pode parar aqui mesmo.

            — Aqui, senhor?

            — Aham.      

            Ele para. Em cima do bueiro.

            Perdeu mais uma estrelinha, resmungo. 

            Entro no sebo. Não deveria — afinal, tenho uma pilha de livros em casa, muitos ainda embalados, à minha espera. Mas não resisto. Nunca resisto. O Doctor Google já me disse que essa compulsão tem nome: bibliomania.  

            Pequenas caixas de som tocam Voyage, voyage. Embalados pela canção, meus olhos dançam sobre as bancas. Letras escarlates, na cartolina branca, seduzem os que padecem do mesmo mal que eu:

                                               UM POR 10, 2 POR 15, 3 POR 20

            Um rapagão de bíceps tatuados desliza os dedos pelas lombadas. Parece querer tirar, na sorte, uma preciosidade. Lembro-me daqueles programas vespertinos de televisão: o apresentador escarafunchava uma ou duas cartas entre milhares e, num sorriso ensaiado, anunciava os felizardos.

            Ainda existem tais sorteios? Tenho vontade de perguntar ao jovem que, diante da estante, não se decide. Há tanto tempo não assisto televisão… Pensando nisso, continuo também a garimpar. 

            Uma edição de bolso de A mão e a luva, enquanto outro hit desperta em mim reminiscências.

            Entra uma mulher com um menino. As sacolas dela e a mochila dele me espremem contra as estantes de gibis. 

            — Escolhe um livro, filho. Um só, hein.

           Ainda com o Machado debaixo do braço, folheio antigas edições do Zé Carioca e da Margarida.

            De repente, bate uma saudade danada — saudade de quando recebia essas revistinhas. Ah, o mês, naquela época, custava a passar. Mas, quando o carteiro apontava na esquina com o pacote verde-musgo entre as cartas, parecia que a felicidade vinha de carona naquela bicicleta. 

            — Pinóquio? Cê levou um desse outro dia. Escolhe outro, vai. 

            Agarrado ao livro, o menino faz beicinho.

            Sorrio; pergunto seu nome.

            A mãe fecha a cara para mim e, puxando-o até o caixa, resmunga:

            — Tá bom, então. Vambora. 

            Um senhor, de longos cabelos brancos e óculos fundo de garrafa, comenta com o atendente:

            — O personagem vive numa cama de hospital, lembrando o passado. Quando a enfermeira traz o remédio, pede que ela escreva as memórias num caderno. Acho que esse velho é apaixonado por ela. Paixão meio destemperada, como a que teve por uma tal Matilde.

            Engraçado. Velhos — assim como o inferno — são sempre os outros. Rindo da minha lógica, pego outro romance.

            Os acordes iniciais de Karma Chameleon se espalham pela loja.

            — Nunca gostei do Chico escritor. Mas esse Leite Derramado é ótimo.    

             O atendente — um rapazinho de belos cílios e olhar tímido — assente com a cabeça enquanto se afasta para atender uma dona que procura Olhos d’água.          

            O senhorzinho pergunta se já li o Chico. Como não lembro de absolutamente nada do livro  — apenas que o alaranjado da encadernação, aos poucos, desbota na quarta prateleira da minha estante — desconverso e digo que O Irmão Alemão me surpreendeu.

            — Não gostei, não — retruca, retirando da banca uma daquelas edições em capa dura do Círculo do Livro. 

            Puxo um exemplar desgastado de Gabriela, Cravo e Canela: há séculos não visito o universo amadiano.

            Uma foto 3x4 salta das páginas. Ao cair, revela — em preto e branco — um homem calvo, de terno claro, fartos bigodes e olhos esbugalhados.

            — Aqui parece sítio arqueológico: a gente encontra de tudo.

            O senhorzinho, que voltou a conversar com o atendente, não me ouviu:

            — É de uma romancista e filósofa francesa, nascida no Marrocos em 69. Agora não vou lembrar o nome…

            O retrato volta às páginas amareladas.

             Ao som de Nikita, levo três livros e duas revistinhas ao caixa.