ARISTOTE, LE THÉÂTRE ET LE TEXTE
Por Dílson Lages Monteiro Em: 24/03/2008, às 06H40
Por : Martin Duru
Tradução : Victor Figueira
Fonte original : http://www.laviedesidees.fr/Aristote-le-theatre-et-le-texte.html
ARISTOTE OU LE VAMPIRE DU THÉÂTRE OCCIDENTAL, Paris, Aubier, 2007.
Na opinião de Florence Dupont, a sombra de Aristóteles e da sua Poética encobriu por demasiado tempo o teatro ocidental, fazendo prevalecer uma concepção intelectualista sobre o espetáculo e a performance artística.
O título apreendedor dá o tom: neste livro, Florence Dupont sustenta que Aristóteles "vampirizou" o teatro ocidental ao conceber a tragédia como um texto autônomo e não como um espetáculo vivo destinado a ser representado. O filósofo grego criou assim um paradigma estético que progressivamente se impôs no decorrer da história e que predomina na época contemporânea.
Para defender o seu propósito, a autora lembra que, na origem, as tragédias atenienses se desenrolavam no quadro das festas rituais, chamadas As Grandes Dionisías. As manifestações teatrais eram acontecimentos institucionalizados que só tinham sentido e só ocorriam no contexto ritualizado da vida da cidade-estado. Acontece que é precisamente com esta inscrição na prática, que rompe a conceitualização de Aristóteles. A sua Poética desenvolve uma teoria da tragédia inédita e desligada de qualquer conexão com o real. No centro do dispositivo, encontra-se a noção de mythos, que nos orienta para a idéia de uma récita ou de um enredo narrativo. A partir daí, a tragédia se apresenta como uma sucessão coerente de ações, e é este encadeamento que supostamente produz a catharsis, ou seja, a purificação das paixões dos destinatários da obra. O ponto central da obra de Florence Dupont concerne a este primado do mythos em Aristóteles, um primado que nos conduz a uma leitura textual e não espetacular da tragédia e a um teatro isento de leitores. Com a Poética deu-se então um modelo de teatro desencarnado, sem relação com a dimensão da performance cênica concreta, que foi promovido... e por muito tempo.
Na opinião da autora, com efeito, o teatro ocidental ficou preso nas redes do aristotelismo. Um percurso histórico livre de certas concepções clássicas, modernas e contemporâneas deixa entrever a preponderância desta prisão. No século XVIII, autores como Goldoni ou Diderot desvalorizam as formas populares do teatro para imporem a necessidade de uma dominação do jogo dos atores e de um respeito estrito do texto. No século XIX, o desenvolvimento da figura do encenador, o mestre da interpretação do sentido profundo da obra a ser representada, reconduz a idéia de um teatro "nobre" entendido na sua vocação literária. No século XX, enfim, um dramaturgo como Brecht continua tributário da herança de Aristóteles com o seu conceito de "fábula", que designa a organização narrativa da peça teatral permitindo aos espectadores tomar consciência do seu alcance político e social. Segundo Florence Dupont, a "fábula" brechtiana não faz outra coisa senão ocupar o lugar do mythos aristotélico. E esta invocação da "fábula" conserva a sua atualidade na medida em que ela foi invocada pelo criador Olivier Py durante o controverso festival de teatro de Avignon de 2005.
O livro é assim levado pela vontade de se desprender do "aristotelismo ambiente", ao mostrar a possibilidade de uma outra maneira de encarar o teatro, uma maneira orientada sobre o caráter lúdico e interativo da performance realizada na cena teatral. O teatro não deveria ser compreendido como uma representação neutra de uma récita, mas como uma "festa" obedecendo a códigos precisos e implicando ativamente autores, atores e espectadores. Nesta perspectiva, Florence Dupont se afeiçoa às "formas não aristotélicas" do teatro, em primeiro lugar às comédias romanas de Plauto e de Terêncio. Essas comédias não visam a desenrolar uma história, mas a instaurar um espaço de jogo onde os atores tomam liberdade em relação ao texto, e onde os espectadores participam manifestando suas reações. Nasce desta comunhão um verdadeiro espetáculo que dá ao teatro um suplemento de alma.
Em definitivo, quando Florence Dupont se esforça para romper com a carcaça aristotélica, ela defende um teatro vivo, onde o objetivo não é o culto ao texto, mas o prazer da representação que dele decorre. Resulta daí um elogio recorrente às formas teatrais populares que vão da "commedia dell'arte" até ao "vaudeville", e uma desconfiança pronunciada contra as derivas intelectualizantes deste gênero artístico. Esta tomada de posição, mesmo na sua radicalidade, tem o mérito de relançar o eterno debate: o teatro deve ser considerado uma arte "séria" ou um divertimento destinado essencialmente a um público?

