O surrealismo mágico na prosa de Antonio Brasileiro
Por Décio Torres Cruz Em: 27/05/2026, às 07H58
O surrealismo mágico na prosa de Antonio Brasileiro
Décio Torres Cruz*
Conhecido pela alta qualidade estética de seus poemas já publicados em diversos livros e antologias ou postados quase diariamente nas redes sociais, Antonio Brasileiro, o poeta baiano de Ruy Barbosa que adotou Feira de Santana como lar, brindou-nos no ano passado com o livro de contos A história do gato e outras histórias (Via Literarum, 2025).
A princípio, o título pode induzir o leitor a pensar que se trata de contos infantis, o que é reforçado pelo tema e pela dedicatória inicial a Jorge Amado, que escreveu uma bela história sobre um gato para seu filho quando este era criança (O gato malhado e a andorinha sinhá). Contudo, à medida que nos aprofundamos na leitura, percebemos que o livro, ao contrário do que fomos induzidos a achar primeiramente, de modo algum se direciona a esse público, sendo muito mais apropriado para leitores jovens e adultos devido à sua complexidade e exigência reflexiva.
Se os seus poemas nos atraem pela beleza, pelo ineditismo e pelo frescor no uso da linguagem poética, este livro nos seduz pelo espanto de uma narrativa incomum, como se o autor retomasse o estilo e as características do realismo mágico latino-americano, fazendo o leitor voltar algumas vezes no texto para encontrar o sentido e não perder os detalhes daquilo que está sendo narrado. Seu estilo e sua técnica, inicialmente, causam-nos uma certa estranheza, à qual vamos nos acostumando à medida que penetramos sua teia discursiva para nos depararmos com um conjunto de contos surrealistas. Composto de dez narrativas, o livro está dividido em duas partes: a primeira, mais longa, é “A história do gato”; a segunda, “Outras histórias”, abrange nove contos mais curtos.
"A história do gato"
O primeiro conto, “A história do gato”, já havia sido publicado pelas Edições Cordel em 1997. O enredo aborda um gato a observar o narrador no momento da chegada da esquadra do comandante Pedro Álvares Cabral ao Brasil, por meio de um diálogo entre o felino, o narrador e o escrivão Pero Vaz de Caminha. A figura do narrador mescla-se com a do gato, causando estranhamento no leitor, pois às vezes o narrador se considera um ente distinto do gato; outras vezes, o mesmo ente. No entanto, o narrador é sempre visto como um gato por Cabral e Caminha, o que pode ser interpretado como uma crítica aos portugueses aqui aportados, que viam os indígenas não como pessoas, mas como animais selvagens. Depois surge a figura imaginária de Tzu, descrito como poeta e filósofo, criado para fazer companhia à solidão do narrador e que descreve a presença de leões que cercam este último durante seu sono e depois adentram o mar.
Aleilton Fonseca, em texto curto de apresentação na orelha, descreve o gato como um “personagem operatório que representa a reação crítica aos invasores", um gato do mato esperto e insubmisso que representa o elemento autóctone com sua “voz crítica reinterpretante dos atos e discursos dos personagens registrados pela narrativa oficial, vista agora numa posição invertida, ou seja, a partir do lugar visitado/invadido”.
Assim, ao reinterpretar o discurso oficial de Caminha de forma irônica e jocosa, inclusive quando mostra os jogos retóricos que encobrem a realidade dos fatos verdadeiramente ocorridos quando Cabral diz uma coisa e o escrivão registra outra completamente diferente do fato, o conto pode ser interpretado como uma elegia à criação, presente tanto na ficção quanto na História oficial, denunciando que o registro histórico pode ser também uma invenção, uma burla e reinterpretação da realidade que se iguala ao jogo ficcional.
"Alírio" e “Não se prendem águias impunemente”
“Alírio”, o segundo conto, narra a história de dois amigos ainda crianças. Toinho, o narrador, ensina a Alírio uma técnica inusitada para aprender a nadar de forma rápida — método que ele havia aprendido com os meninos maiores e que já fazia parte da tradição local: bastava apenas comer piabas vivas. O que era para ser um dia de diversão no rio acaba com um final inesperado, e a história ganha tons de suspense e assombração antes de seu desfecho, mantendo a pegada surreal do livro.
Na terceira história, “Não se prendem águias impunemente”, o personagem encontra-se num local onde não sabe precisar direito como chegou, já que não consegue se lembrar do que havia acontecido antes. Devido à pouca iluminação, ele imagina o espaço como um poço, que depois descobre ser uma parede com uma águia nela esculpida, portando uma pulseira na pata. Em seguida, a pulseira abre-se como uma porta, por onde o personagem passa e desce degraus que o levam a salas suntuosas. Alguém o chama de Marquês de Lantejel e anuncia sua entrada em outra sala, onde se encontram pessoas numa suposta festa em que ele seria o anfitrião. De repente, num alvoroço, entra um cachorro doido; carabineiros surgem e o matam, e então o personagem se vê de volta ao quarto escuro, gritando para ser retirado dali. mas ninguém o ouve. Ele, então, faz um boneco de barro com uma enorme águia no ombro para sua irmã, a única pessoa que gosta dele. Com elementos que lembram tanto um conto de Edgar Allan Poe quanto os absurdos dos textos de Kafka, o conto mescla elementos do horror com visões aterradoras de uma mente insana.
“Galinhas” e outras histórias
“Galinhas” é a quarta história, que gira em torno de uma inundação de pintos, todos nascidos fêmeas, de onze galinhas. A avó do personagem-narrador desconfia tratar-se de coisa do demônio, mas ninguém acredita, até o dia em que todas as galinhas desaparecem sem vestígios. Depois de alguns dias, surge uma enorme ninhada de mil pintos, todos fêmeas. As pintinhas crescem, mas um dia tornam a desaparecer. Passado algum tempo, o tio do narrador começa a ter visões de galinhas gigantes até cometer uma tragédia.
Nas outras histórias (“Gertrudes”, “As lâmpadas”, “A gente se acostuma com tudo”, “Não me acharão nunca”, “Esperando por ela” e “Guerra de mamonas”), encontramos as mesmas características que perpassam o livro, ressaltando o seu caráter de realismo mágico.
Mosaico da tradição mágica
No plano da linguagem, encontramos uso de metáforas e símbolos associados a aspectos fantásticos do enredo no qual episódios mirabolantes passam a interferir na vida dos personagens. A associação de uma linguagem peculiar a elementos mágicos do enredo faz com que os textos deste livro adquiram um status de alegoria, permitindo o surgimento do caráter absurdo da realidade cotidiana (a violência, o elemento surpresa, o inusitado, o sobrenatural, o inexplicável, o nonsense, o fantástico, a repressão) de forma velada, como artifícios de denúncia daquilo que subjaz à realidade objetiva.
Em suma, A história do gato e outras histórias apresenta-se como um mosaico de textos com referências literárias indiretas a grandes mestres da literatura, tais como Borges, Gabriel García Márquez, E. T. A. Hoffmann, Kafka, Maupassant e Poe, aos quais este autor se une. Brasileiro faz uma elegia à criação literária e à escrita como jogo e brincadeira, na qual o que mais importa é o próprio encanto da fabulação. O leitor é convidado a adentrar o universo da ficção, percorrer a magia de suas alamedas e desfrutar desse prazer proporcionado pelo engenho da criatividade e do talento artístico.
Sobre o autor
Nascido em Ruy Barbosa (BA), Antonio Brasileiro adotou a cidade de Feira de Santana como sua residência física depois de ter passado por Salvador e pelo Rio de Janeiro. É membro da Academia de Letras da Bahia, onde ocupa a cadeira número 21 desde que tomou posse em 2010, e membro correspondente da Academia Feirense de Letras. Artista multifacetado, Antonio Brasileiro é escritor, pintor, ensaísta e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana, com doutorado em Literatura Comparada pela UFMG, mestrado em Letras pela UFBA, e graduado em Ciências Sociais. Possui, ainda, uma longa experiência como editor. Estreou na literatura em 1973, com o livro Poemas; Antônio Brasileiro e Ruy Espinheira Filho (Edições Cordel, 1973). Deste então, escreveu diversos livros em variados gêneros (poesia, ensaio, romance, conto), dentre os quais, destacam-se: Os Três Movimentos da Sonata (Poemas); (Editora Civilização Brasileira, 1980); Antologia Poética (1968 - 1996) (Fundação Casa de Jorge Amado, 1996); Caronte (Romance; EGBA, 1995); Poesia Completa (em dois volumes, Mondrongo, 2022); e o recente A história do gato e outras histórias (Via Literarum, 2025).
* Décio Torres Cruz é escritor premiado, membro da Academia de Letras da Bahia, da ACL (SP), da ALARJ e membro correspondente da APL. Autor, dentre outros, de Viagens & travessias, A poesia da matemática, Histórias roubadas e Paisagens interiores.

