ilustração criada pelo ChatGPT
ilustração criada pelo ChatGPT

 

Em frente ao cineteatro, jovens batem palmas nas coxas e nos sapatos seguindo o ritmo da canção. Uma dona para diante da minha mesa e oferece poemas e aforismos.

— Um compilado de textos autorais postados nas redes sociais — esclarece. 

Mostro interesse e, tão rápido quanto os passos dos dançarinos, um livreto salta à minha mão.

— Pra ajudar no orçamento. E pra ajudar na transformação do mundo.

Acho que deixei escapar uma de minhas caretas costumeiras, pois a dona, num sorriso quase cansado, diz:

— Poemas são sementes que se lançam em jardins. Algumas frutificam, outras não. Mas o importante é semear.

A ideia, convenhamos, não é das mais originais. Ela, porém, parece captar meu pensamento e, subitamente, desanda a falar sobre Nietzsche e um tal de Übermensch.

— Só três reais. Eu podia pedir mais caro, mas não ia vender. E minha intenção não é explorar, como esses comerciantes aqui do centro fazem.

Não sei a quais comerciantes se refere. Talvez à loja de calçados à minha frente ou ao pipoqueiro; talvez (tomara que não) ao carrancudo que prepara meus pastéis.

Entrego à dona uma surrada nota de dez reais. Enquanto conta o troco, diz que o Übermensch é forte e misterioso como as rochas. Não entendo o alcance dessas palavras: nunca fui bom com filosofias e, de Nietzsche, nada li.

            Ela vai, satisfeita, para os lados da galeria. Eu fico olhando os jovens; o pinguço que brotou sei lá de onde e tenta, a todo custo, entrar na roda; e um drone inconveniente que, lá do alto, vigia tudo.