*Gisleno Feitosa

“A língua é a mais viva expressão da nacionalidade. Como havemos de querer que respeitem a nossa nacionalidade se somos os primeiros a descuidar daquilo que a exprime e representa, o idioma pátrio?” Napoleão Mendes de Almeida, lingüista.

Você já deve ter reparado que, a qualquer lugar que se vá, sempre encontrará um termo em inglês, francês ou espanhol substituindo uma palavra da língua portuguesa.


É comum nos depararmos, logo na entrada de qualquer estabelecimento com o “PUSH”, escrito pertinho da maçaneta. Se você puxar em vez de empurrar, certamente vai ter que enfrentar um brutamonte com cara de bulldog, estampando no peito um vistoso crachá onde está escrito Raimundo e abaixo DOORKEEPER, que te repreende perguntando se “tu não sabe ler”. No puteiro ele é porteiro. Tem mais, se você se deparar com PULL em vez do push, não tente pular; é um conselho de amigo, puxe que é mais fácil e o bacana que tem tudo decoradinho na cachola, não vai te incomodar.


Dia desses um amigo meu quase que “se estrompa-se”. Assim mesmo, de um lado e do outro. Ele trabalha num escritório como continuo – continuo não; lá ele é office boy – onde teve que enfrentar um princípio de incêndio. Incêndio do qual só tomou conhecimento quando resolveu acompanhar os outros colegas desembestados. Até então ele só tinha ouvido um alarme e visto uma luzinha acendendo e apagando com a palavra FIRE. Pra onde ele se virava, estava escrito EXIT. Tanto hesitou que foi para no setor de queimados do HGV. Safou-se, benza Deus!


Essa desnacionalização lingüística ou estrangeiração da nossa língua mãe, de uns tempos pra cá, tem crescido assustadoramente.


Cartaz agora é BANNER; cafezinho é COFFEE BREAK. Ninguém fica mais ligado, fica ON-LINE. Neguin deixou de ser auxiliar pra ser ASSINTANT.


Se você pretende realizar um curso sobre qualquer coisa e anunciar que o mesmo terá tradução simultânea, sonorização, projeção, multimídia, retro projetor, iluminação e filmagem, fique certo de que a freqüência será mínima. Mas se você mencionar que disporá de SLIDE DESK, DATA SHOW e VIDEO-WALL, a negrada bem que pode aparecer.


Em qualquer exposição, não ouse convidar os seus clientes para prestigiar o seu espaço. Tem que convidá-los para visitar o seu SHOWROOM. É chique e atrai mais gente.


Empresa que se presa, hoje em dia, não tem que ter central de atendimento ao cliente; precisa ter é CONTACT CENTER, CALL CENTER e TELEMARKETING. Presidente do Conselho agora é CHAIRMAN. Um nome mais sofisticado para diretor de finanças é CHIEF FINANCIAL OFFICER e aí por diante, meu chapa.


Do jeito que a coisa vai, qualquer dia desses você vai chegar ao emprego e se deparar apalermado com a frase: "PAY DAY WAS WEEK AGO". Esquente não; parece mais não é. Você está é atrasado, pois o pagamento foi feito na semana passada; não se refere a um ato fisiológico como a sua mente imunda e ignorante teima em traduzir.


Lembro que no meu tempo de menino acontecia o contrário, principalmente no futebol quando ainda se grafava football. Naquele tempo goleiro era goalkeeper e a cambada da intermediária era batizada de centerfour e centerhalf. Lembra-se? Acabou. Se no futebol aconteceu assim por que no dia-a-dia não pode acontecer?


Enquanto isso não acontece, se estresse (stress) não meu bichinho, vá curtido da cara deles também. Como eles mesmo dizem ENJOY IT! Ou faça como este amigo velho de guerra, denuncie a seu modo; assim, ó:

"DESNACIONALIZAÇÃO LINGÜÍSTICA".

Mademoiselle “Silvá”
tem, no big bangalô,
um chic abajur grená,
design vip e retrô.

Maitre, garçom, garçonete,
com champagne e cocktail,
servem a soçaite coquete,
que vê “cirque du soleil”.

Se falta no toilelette
o rouge ou o batom.
dá bofete no bufete
causando o maior frisson.

O stress da socialite
é tratado no divã,
com Chivas ou Black-White,
só de panties e sutiã.

A night, curte num pub:
um michê, um petit gâteau,
e go back to Jockey Club,
pra amansar o “pierrot”.

Gisleno Feitosa é médico ginecologista e escritor

gislenoffeitosa@uol.com.br

(86)3233-9444

 

 


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