Por Caio Porfírio Carneiro

Os poemas deste livro dizem tudo, sutil e silenciosamente, de cada tema que os compõem. Silenciosamente, porque nascem da aguda observação e apurada sensibilidade do poeta, e do coleio, que parecem dizer ao leitor que depois do que ficou dito nada mais há a acrescentar. Ou seja: uma força de verdade, quase transcendental, emerge de cada poema e leva quem o ler àquele estado de levitação, de perplexidade, e à interrogação maior: até que ponto a transfiguração artística amplia as verdades da vida?


 Valendo-se de metáforas ricamente oportunas que nem parecem metáforas e de uma economia de meios no seu versejar, este poeta ascende muito e extrai essencialidades notáveis de “apanhados” do mundo que o cerca, tal como ele o sente e tal como o vê. Como se as criações poéticas viessem à tona em impactos de raios X; como se tudo o que há de aparente e palpável fossem – e até certo ponto são – uma grande mentira.


 Quaisquer destas jóias, tomadas ao acaso, são um impacto e um lavor poético de primeira grandeza. Parecem até ampliações de haicais; parecem até – contraste surpreendente – solfejos de baladas que nos apontam, quase numa acusação, para a verdadeira alma da Vida e das coisas.

 O seio pulsa na plama da mão
 E rasteja sobre a pele
 Em que a coruja constrói
 A nudez dos versos.
   (“De corpo e Alma”)

 Dizer mais o quê? Como, também tomado ao acaso, dizer mais de Tic Tac, tomando-se do poema, todo ele um achado, apenas a primeira estrofe?

 O sonho sobrevive
 Ao segredo das horas
 E o tempo desliza
 Nos dedos da madrugada.

 Se as metáforas ocorrem fáceis é que elas nem parecem tão assim “metáforas”, visto como são postas com grande senso de oportunidade, fazendo um curioso jogo cênico de luz e sombra, de espelho e contra-espelho, bailam e cirandam, dispersam-se e justapõem-se em cadência lúdica que seduz:

 Cai o sereno nas notas da noite
 E o coração do sol se assombra.

 O poema é tão bem concebido que a ênfase do verbo cai, no começo de cada estrofe, dá o tom exato desse jogo pendular de decisão e... indecisão. Daí o título oportuno: “(In) Decisão”.
 As citações continuariam, porque tudo em Os olhos do Silêncio é uma surpresa continuada. Mas não há como deixar de citar esta infinita e doída beleza do início do poema “Olhos no Infinito”:


 A palavra seca
 O rio que nasce
 Nos meus olhos.

 Pouco vimos, na nova poesia brasileira, um poeta de sensibilidade tão apurada e de tantos recursos de criação. Até na simplicidade da disposição formal dos versos e na amostragem inteira dos poemas espelham-se aquela referida dimensão totalizante, em margem para desvio de conteúdo ou de dispersão vocabular. Isto dá aos poemas uma magia própria e de grande encanto.


 Eis porque Dílson Lages Monteiro é “total”, abrangente, objetivo, filosófico, garimpeiro da Alma e da Vida, e, justamente por tudo isto, universal.


Caio Porfírio Carneiro é escritor

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