(*) Dílson Lages Monteiro

Senhores e senhoras,

Em “Testemunha ocular da história: o uso da imagem como evidência histórica”, obra que se tornou clássica para pesquisadores, Peter Burker afirma:

“Nos últimos tempos, os historiadores têm ampliado consideravelmente seus interesses para incluir não apenas eventos políticos, tendências econômicas e estruturas sociais, mas também a história das mentalidades, a história da vida cotidiana, a história da cultura material, a história do corpo etc. Não teria sido possível desenvolver pesquisa nesses campos relativamente novos se eles tivessem se limitado a fontes tradicionais, tais como documentos oficiais produzidos pelas administrações e preservados em seus arquivos”. (2017:17)

Conclui Burker: “Por essa razão, lança-se mão, cada vez mais, de uma gama mais abrangente de evidências, na qual as imagens têm o seu lugar ao lado de textos literários e testemunhos orais” (2017:17).

Tais palavras, embora concentradas enfaticamente no valor da imagem, do texto literário e das narrativas orais como documento, endossam, também,  o lugar social da genealogia, ao redimensionar a concepção, segundo a qual, qualquer fonte converte-se  em instrumento válido para, não apenas se desdobrar vínculos causais, consequências e cronologia de fatos, mas também, e sobretudo, o modo de pensar de um tempo, referendando Robert Darton, para quem a história traduz uma maneira de pensar.

A genealogia significou, historicamente, um dos fortes aliados aos mais diversos campos dos estudos em humanidades. Dela, até hoje historiadores se valem, entretanto, sua utilização passou por novos contornos. Se antes estava a serviço notadamente de perfis biográficos eivados da exaltação de grandes feitos ou a serviço do positivismo, foi, a par de novas metodologias e apropriações, convertendo-se como objeto válido para um entendimento mais exato das relações de poder, como o fez pioneiramente a historiadora Tania Pires de Brandão ao estudar a elite colonial piauiense   e, modernamente, entre nós, a seu modo, o historiador e acadêmico Reginaldo Miranda. E mais do que a compreensão das relações de poder, verteu-se em objeto igualmente útil ao entendimento do próprio tecido social em crenças, costumes, valores e outras relações de ordem diversa, capazes de investigar conflitos sociais e identidades dos mais variados grupos.

À luz de teorias recentes, a genealogia vem se constituindo como campo de conhecimento para a construção de autoidentidade. Sob essa ótica, o genealogista Gilberto de Abreu Sodré Carvalho explica:

“A genealogia não é um assunto de interesse restrito a nobres estabelecidos há algum tempo ou há tempos, de arrivistas ou de genealogistas de jeito fidalgo, mas sim estudo seriíssimo para entender o desejo de poder e de imanência (sermos intrinsicamente especiais) de cada um de nós. O impulso pelo poder – que nos garante, ao menos na aparência sobreviver – estabelece a competição pela ascensão social e a fuga da descensão” (2017:28).

A esse propósito, esclarece Sodré Carvalho:

“A ausência de memória vinda de genitores, avós e além leva a invenção de um passado, uma vez que o passado real como conhecido é honrosamente vazio, restrito à expressão das mãos, dos olhos, da cor da pele, dos traços do rosto para dar as pistas. Os humanos, de regra, não aceitam de bom grado não terem um passado conhecido que os ajude a desenvolver uma mais completa identidade” (2017:237).

Por essa razão, argumenta o genealogista que somos “roteiristas e atores de autobiografias em curso de encenação e ajustes”.

Senhores e senhoras,

As duas primeiras décadas do século XXI se desenharam como momento fértil e de surpresas com a publicação de dezenas de obras sobre famílias piauienses e seus entrelaçamentos familiares. Entre as famílias estudadas, poucas receberam atenção tão detalhada quanto os Castello Branco. Em 2008, Dr. Edgardo Pires Ferreira, um dos mais respeitados genealogistas brasileiros, cujo fôlego e vocação para estudos de família legaram um denso conjunto de livros nos quais o Piauí colonial e Imperial e outros estados se fazem representar, lançava o volume 5 de A mística do parentesco – uma genealogia inacabada, publicando tomo específico sobre Os Castello Branco, no qual agrupava mais de 13 mil verbetes. Nessa obra, ele ampliava os esforços dos demais volumes, reinterpretando verbetes por meio de ligações de diversas famílias estudadas aos Castello Branco e aos Carvalho de Almeida, alguns dos pioneiros na colonização do Norte piauiense.

O estudo terminou por resumir os volumes anteriores de A mística do parentesco, cuja edição é 1987, e preencher lacunas, somente descobertas com a circulação dos primeiros cinco volumes da coleção. Por meio do volume específico dos Castello Branco, uma de suas metas era realizar uma releitura de “Apontamentos Genealógicos de Dom Francisco Castello Branco: seus ascendentes e descendentes”, organizada por Antônio Leôncio Ferraz e outros, editada em 1926, hoje rara, livro que a despeito de ter valor incomensurável para a área e seu tempo, exige grande esforço de leitura, muito mais própria aos entendidos no assunto. Ao mesmo tempo, Dr. Edgardo aprimorava mais e mais a metodologia que criou para catalogar verbetes de maneira a que o leitor comum consultasse a obra com relativa facilidade, o que, de fato, tornou-se real. A mística do parentesco é de fácil consulta.

A inquietação em contribuir para um trabalho mais próximo possível dos anseios de pesquisador o conduziria a mover-se incansavelmente na descoberta das lacunas do quinto volume. Assim é que novas famílias descendentes dos Castello Branco do Sul ao Norte do Piauí, com ou sem o sobrenome incorporado ao nome, foram se somando a outras já registradas na obra. O resultado disso apareceu com o mais fascinante volume da Coleção. Poucos anos depois da 1ª. Edição do número 5 de A mística do parentesco, os piauienses e maranhenses receberiam a nova edição desse tomo, mais que triplicada de verbetes, reunindo mais de 45 mil nomes, a que se adicionou estudo do historiador Gilberto de Abreu Sodré Carvalho.

Na esteira dessas publicações ou concomitantemente a elas, o historiador Valdemir Miranda publicava sobre a mesma família o volume 1 de “Enlaces de famílias”, uma genealogia em construção, com registro de quase 15 mil nomes e relações de parentesco. Ele concentrou a atenção na descendência de Antônio Carvalho de Almeida e Maria Eugênia de Mesquita Castello Branco, estabelecidos à época em região hoje pertencente ao município de Batalha em 1725. Interessava ao pesquisador, especialmente, famílias assentadas notadamente entre os munícipios de Piracuruca, Batalha e Esperantina, embora tenha, inevitavelmente, por força da cadeia de casamentos entre parentes, registrado famílias descendentes do casal em outros municípios. Graças a suas pesquisas, catalogaram-se grupos familiares cujo conhecimento de suas raízes jazia quase exclusivamente na poeira da memória oral.

A esses dois estudos, as pesquisas do historiador Reginaldo Miranda, em diversos artigos que investigaram a fundo em fontes primárias não exploradas até então, entre outras questões, Dom Francisco Castello Branco e a história pessoal dele em São Luís do Maranhão, assim como a de outros destacados integrantes dessa família, abriram caminho para novas hipóteses úteis à história, à genealogia e ao memorialismo. Cumpre destacar que todas essas pesquisas se construíram ao tempo em que o genealogista carioca Gilberto Sodré Carvalho investigava em minúcias Os Carvalho de Almeida, família com a qual Os Castello Branco originalmente se consorciam por matrimônio no Piauí, originando uma descendência numerosíssima, aos milhares, descendência da qual muitos dos aqui presentes fazem parte.

À margem do fechamento de uma década, quando o tempo vende a ilusão de que pouco ainda apareceria, pelo menos por enquanto, em torno dos estudos sobre essa família pioneira na colonização do Piauí, eis que a vocação do acadêmico Homero Castello Branco Neto ao memorialismo e à genealogia, vocação já expressa em vários livros de mesmo matiz, como “Ecos de Amarante”, surpreende e fascina, mais uma vez, com publicação que mais do que apenas um publicação vale pela obra completa que o é. Não apenas pela utilidade e importância aos interessados no assunto, mas principalmente pelo conjunto dos livros enfeixados em um só livro.

Se em digressão me remeto a outras obras sobre Os Castello Branco, relativamente recentes, é, também, para pôr em relevo que algumas delas beberam na fonte da tradição oral, especialmente, recorrendo ao conjunto de textos basilares coligido nos diversos livros, reunidos, agora, em um só volume pelo escritor Homero Castello Branco Neto. Esses estudos, todos eles, completam-se e dialogam (um motiva a leitura do outro naquilo que traz de não sabido ou não revelado, naquilo que organiza ou seleciona sob outro paradigma, ou mesmo naquilo que corrige).

 

Senhores e senhoras,

Em “Fenelon Ferreira Castello Branco”, que se desdobra em duas publicações de feição complementar (uma delas, autoral, e outra, do próprio Fenelon, o biografado) e “Os Castello Branco ontem e hoje”, que condensa 4 outras publicações sobre a família, escritas por antepassados, em momentos diversos do passado, até chegar ao presente representado pela escritura de Homero Neto, genealogia e memorialismo se intercruzam. É possível lê-los separadamente, ao sabor do diletantismo, mas também a partir de percurso cronológico de escrita e edição. Independentemente da estratégia de leitura, conseguem os livros alcançar, para além de elementos da vida privada, a própria história da família Castello Branco e ramificações, por meio de realizações de dezenas de seus filhos ilustrados, cuja trajetória é resumida em notas biográficas. Soube o autor, frise-se, promover distanciamento dos textos reunidos, para que imperasse a voz da ancestralidade e um dos sentidos originais do conjunto da obra, o de promover o legado das antigas gerações, sobremodo.

Do conjunto, por dever da satisfação pessoal da leitura, destaco no volume intitulado “Fenelon Ferreira Castello Branco” o telurismo que percorre todas as páginas da biografia, nas quais o amor pela figura do tio-avô se materializa em releitura terna, traduzindo em uma só pessoa tio-avô e neto. Em ambos, pela escritura telúrica, abundam “o amor à família, à terra, aos amigos e aos amores”, entre eles, o carinho desmedido pela antiga Barras do Marataoã, expresso em 4 sonetos intertextuais, escritos em 1925 e há muito absorvidos pelos barrenses em versos lidos e relidos quase como hino, entre eles:

Barras

Ó formosa cidade sertaneja

Transbordante de graças campesinas,

Banhadas pelas águas cristalinas

Que o rio Marathaoan além despeja.

 

Viva eu perto de ti, ou longe esteja,

Com essas tuas delícias me fascinas

E já velho revejo-me o traquinas

 

Que brincou, por ali, no adro da igreja,

Como recordo o barco à flor das águas!

E os canoeiros numa trova antiga,

Ao som dos remos, desfiando mágoas!

 

Com essas lembranças minha mente escaldas!

Ó ninho azul, ó minha Terra amiga,

-- Berço de Thaumaturgo e David Caldas.

 

Destaco ainda, no mesmo volume, a publicação, pela primeira vez, dos manuscritos de Fenelon, sob o título seminal “A cronologia da família Castello Branco”, manuscritos que originaram a clássica publicação de Antônio Leôncio Ferraz e outros, sobre a descendência de Dom Francisco Castello Branco. Embora hoje essas informações estejam disponíveis e desmembradas em diversas releituras, o acesso a essas anotações permite cotejar o que já se escreveu sobre esses grupos familiares e mesmo reparar impropriedades. Nos verbetes de Fenelon, agora publicizados em versão fac-símile, o autor optou por registrar as esposas com o acréscimo do nome dos esposos e não o de solteira, diferentemente do procedimento de boa parte dos genealogistas, o que pode gerar esclarecimentos a pesquisadores ou confrontar informações sobre laços de parentesco, embora a catalogação de Fenelon não obedeça ao rigor e ao aprimoramento da técnica de enumeração dos dias correntes.

Em “Os Castello Branco ontem e hoje”, tal qual na biografia de “Fenelon Castello Branco”, a leitura é a da curiosidade que anestesia. Agora, pela transmutação do leitor a tempos e a espaços diversos, tendo como acalanto as velhas raízes rurais. Por isso, o livro tem o cheiro, o sabor, o vento e a visão das percepções do mundo rural e de tempos que somente existem na memória, essa fábrica fascinante de subversão da concretude enfadonha dos dias medidos em horas. Nos diversos apontamentos sobre a família, na teia da saga familiar de registrar para a posterioridade a saga dos tempos idos, Homero Ferreira Castello Branco, Herbert Marathaoan Castello Branco, Moisés Castello Branco Filho e Homero Ferreira Castello Branco Neto transformam-se em única voz, a do cotidiano que é a escrita de si, pretensiosamente interessada em segurar as lembranças nas palmas das mãos e repassá-las, o quanto possível, às novas gerações. Assim, o leitor percorre o lugar social dessa família na história, da casa-grande aos postos de poder do mundo cosmopolita, em variados campos da atuação humana, com um “parêntese” extenso para enumerar a grande quantidade de nomes do grupo familiar integrando a Academia Piauiense de Letras.

O leitor, quando além de leitor, emprega a palavra escrita como meio de expressão estética, ou como registro utilitário do tempo e da memória, com ou sem o rigor científico, tem a convicção da excelência de um livro se, diante dele, explode a emoção inesperada e um anseio de posse positiva: “Este livro, eu desejaria tê-lo escrito!”

Parabéns, Dr. Homero Castello Branco, este livro, desejaria ter escrito! Nós, seus pares nesta Casa de Lucídio Freitas e A. Tito Filho, desejaríamos tê-lo escrito.

O mais a ser dito fica por conta da curiosidade dos leitores.

Muito obrigado!

(*) Dílson Lages Monteiro é literato e pesquisador, titular da cadeira 21 da Academia Piauiense de Letras

 

Oração proferida em 26.10.2019 na sede da Academia Piauiense de Letras, por ocasião do lançamento de “Os Castello Branco, ontem e hoje” e  “Fenelon Castello Branco” (edição conjugada), de autoria de Homero Ferreira Castello Branco Neto.

 

 

Referências:

BURKER, Peter. Testemunha ocular: o uso de imagens como evidência histórica. São Paulo: Unesp, 2017.

CARVALHO, Gilberto de Abreu Sodré. Homo genealogicus: gênese e evolução do ser humano socialmente importante. São Paulo: Edição do Autor, 2017.

CASTRO, Valdemir Miranda de Castro. Enlaces de família – uma genealogia em construção (volume I). Esperantina-PI: Edição do Autor/EDUFPI, 2014.

COSTA, Lena Castello Branco Ferreira da. Arraial e Coronel: dois estudos de história social. Cultrix, São Paulo, 1978.

DARNTON, Robert. O grande massacre dos gatos e outros episódios da história cultural francesa. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2017.

FERREIRA, Edgardo Pires. Os Castello Branco – a mística do parentesco (volume 5). São Paulo: Línea B Editora, 2008.

________. Os Castello Branco e seus entrelaçamentos familiares no Piauí e no Maranhão (2ª. edição revista e ampliada). São Paulo: Abc Editorial, 2013.

FERREIRA, Homero Castello Branco. Os Castello Branco ontem e hoje/ Fenelon Ferreira Castello Branco (edição conjugada). Teresina: Nova Aliança, 2019.

MIRANDA, Reginaldo. Capitão Francisco da Cunha e Silva Castello Branco. Disponível em https://www.portalentretextos.com.br/materia/capitao-francisco-da-cunha-e-silva-castelo-branco,12977 > acesso em 25.10.2019.