A coluna de hoje traz uma denúncia. Sob nossos narizes distraídos, a nata da juventude brasileira tem mergulhado de cabeça numa droga que deixava Graciliano Ramos (1892-1953) cheio de angústia.

Ainda bem que o grande estilista da língua —um alagoano ranzinza que ajudou a tornar nossa escrita mais afiada e limpa, menos empolada e tola— foi poupado do triste espetáculo. 

“Outrossim, compete ao Legislativo...” “Destarte, é fundamental analisar...” “Não obstante, tal questão...” “Ademais, é fulcral ressaltar...” “Diante dos fatos supracitados, faz-se necessário...” “Por conseguinte, cabe ao ministério...” “Assim, observar-se-ia...”

Esses exemplos de juridiquês não foram extraídos de petições ou sentenças circulantes no fórum nem de despachos administrativos de burocratas de carreira. Se assim fosse, seriam ocorrências infelizmente banais.

Seus autores foram adolescentes brasileiros das mais diversas regiões, gente em torno de 17 anos de idade.

Colhi os exemplos em redações que tiraram nota mil nas últimas edições do Enem.

Estou perplexo. Para dar dicas mais embasadas à minha filha, que fará o exame este ano, fui conferir o que tem merecido a pontuação máxima dos avaliadores treinados pelo MEC.

Agora só consigo me perguntar: como deixamos a coisa chegar a esse ponto? A OAB assumiu o Enem? Por que a garotada está cultuando o jargão bolorento do direito? 

Zeloso de um prestígio fundado em parte em sua incompreensibilidade pelos mortais comuns, o juridiquês nunca aceitou bem o banho de soda cáustica que nossa norma culta tomou no século 20.

Só que os estudantes premiados por suas bacharelices são candidatos a cursos variados, não só aos de direito. 

E nasceram na virada do milênio, quando a lição textual dos modernistas já havia sido atualizada e multiplicada por várias gerações de autores de bom texto. O que é isso?

Estamos diante de um imenso retrocesso cultural e nem temos o consolo de poder atribuí-lo a um ministro da Educação de baixa extração como Abraham Weintraub. É mais antigo.

Estarei exagerando? Duvido. Não falo de pedantismos fortuitos que pudéssemos lançar na conta de jovens afoitos tentando impressionar adultos. A coisa é onipresente nas redações nota mil.

Não em todas elas, espero, mas certamente naquelas que, expostas na internet como modelos, têm maior influência sobre o juízo das novas gerações. 

Trata-se de um sistema. Um sistema que confunde o registro formal da língua com platitudes balofas e distantes da realidade dos estudantes —gerador, portanto, de dissociação entre linguagem e pensamento.

Dois fatores ampliam o potencial de estrago desse sistema. O primeiro é o alcance do próprio Enem (5,1 milhões de inscritos este ano), replicado por incontáveis cursos preparatórios.

O segundo é mais preocupante: o letramento precário do universo ao qual se dirige a mensagem de glorificação do pernosticismo.

Segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) de 2018, apenas 12% dos brasileiros de 15 a 64 anos são plenamente alfabetizados.

Com o talento demonstrado na imitação do estilo de burocratas às vésperas da aposentadoria, sei que essa juventude nota mil sabe escrever coisas fortes e verdadeiras quando o Enem não está olhando. 

O mesmo não se pode dizer das multidões que, diante de tamanho show de cafonice, ficam ainda mais distantes de se assenhorar de uma língua que por direito deveria ser sua.

Sérgio Rodrigues -- Escritor e jornalista, autor de “O Drible” e “Viva a Língua Brasileira”.

Folha de S. Paulo, 22.09.2019