( Poema do meu E-book Florestal _ Poemas Amazônicos na Desglobalização / 2015 )

*José Ribamar Mitoso

Serei eu um mito europeu?

Um filho de uma amazona transplantada da Grécia e importada do panteão de Zeus?

Serei eu o fígado doce e castigado de Prometeu?

Quantos corvos ainda adoçarão seus bicos imundos na glicose cristal do fogo do conhecimento proibido em meu fígado?

Ou serei eu um peixe Tikuna pescado no igarapé Evare?

Ou um sopro da Vó Ye’pá ...na casa do vento no alto Rio Negro ?

Serei eu uma invenção Aruak Mandi-oca?

Serei um Baré-mira iupirungá filho de Tipa e Mira-Boia?

Serei um encantado máwalis?

Um Baniwa de Niãpirikoli?

Um Manaó/Manaú, Manaus " Mãe de Deus" ?

Serei uma gota gotejada da estrela Uanana?

Serei uma gota desviada do sangue Tariano do trovão bipó diroá masí?

Serei uma nota ancestral de uma flauta caliço na festa cerimonial para Jurupari?

Serei um sorriso Macunaíma de Poronominari?

Serei Diétiro saindo do buraco no lago do leite na floresta Amazônica?

Serei eu um afrodescendente na Amazônia?

Um Estranho em terra alheia?

Um estrangeiro Djeje?

Serei um Jeje-Nagô?

Fon? Fanti?

Mina ?

Ewe?

Axântis?

Yorubá?

Itans de Ifá?

Um Maranõn ?

Um simples São José de Ribamar?

Ou serei um filtro mestiço filtrado e filtrador?

Antropofagia devorada, deglutida e incorporada?

Posso ser tudo isso, se quiser.

Mas tudo que não sou e não posso ser é o que você deseja eu seja.

Então deixa!

Como alguém pode saber mais de mim do que eu mesmo?

Um sopro de Yepá?

Um estrangeiro Jeje-Nagô ?

O fígado doce e castigado de Prometeu?

Guardem os bicos!

* José Ribamar Mitoso ( Escritor, dramaturgo, Professor da Universidade Federal do Amazonas e Doutor em Sociedade e Cultura na Amazônia)