(*) Fonseca Neto

Era tarde plena, mas deus-sol caía rápido nos desvãos do poente.


Abriu-se a campa no chão para retê-lo. Mais rápido, um feixe intenso de raios em cor o arrebatou para a inconseqüência do tempo.


“A tarde traz / a poeira do vento. / Traz o crepúsculo / cortando o vermelhão das espatódias. (...). A tarde traz / as alvíssaras da morte”.


Fechadas as congressivas do crepúsculo ela chegou para ele pela boca da noite amena deste 22 de maio, antes do amanhecer roxo de nossas jitiranas quaresmeiras tardias. “[Era] outono cheio para ele e os frutos [faziam] festa no pomar”.


“Na praça dos Tribunais / perece o mundo. / Na tarde anônima / um homem anônimo / nenhuma lembrança / deixará de si. / Conformado com a tarde, / começa a cerimônia / da partida”.


Naquela câmara rarefeita de luz e de gente no meio da tarde real do dia 23, nem o encomendador das almas da cerimônia dele lembrou chamar-se Hindemburgo. Anônimo não é, contudo, e dele ficam lembranças que avultarão pelo corpo do mundo quando não mais deserta de sensibilidade for a província. Amigos assistiram-no ante velas ardendo: Paulo, Cineas, Halam, Celso, Eustáquio, OG. E Rosila, a parenta.


“Trovões distantes trazem / de um horizonte escondido uma tarde de chuva. / A chuva transforma a tarde / nas trevas da noite. / A noite traz de novo os amores perdidos, / uma ambição abandonada / o tremor das almas transidas no túmulo dos corpos”.


No tempo conseqüente aquela tarde tornar-se-ia inelutavelmente em noite. Todavia, a chuva caiu mansa para ungir o poeta na hora máxima da angélica subida; chuva sertã não faz treva. Qual ambição? As almas estavam em festim na dança da recepção...


“No cemitério aberto / a tarde pára: que partida / disputam os mortos / nos seus túmulos / em preto e branco”.


No burgo dos mortos os túmulos são mesmo preto e branco. Deles a maioria manchada pelo caruncho do esquecimento, são ali talvez tantas e tamanhas as solidões –“o suado compasso das solidões / justapostas”.


Solidões da matéria sem voz, ainda que cheia de poesia. No cemitério velho da chapada, que dividido fora qual a iníqua sociedade das classes distintas, plantado está agora o corpo-matéria dele na parte dos pobres. Não há mais diferença: água e pó somente para amassar novo poetar.
“O meio-homem / que sobe e desce / pela antigüidade / desta ladeira / seria um homem pleno / se lhe bastassem apenas / a suavidade da tarde, / a viração do mar, / a indolência do tempo”.


O homem completo: o corpo faltou ao compromisso de sustentar-lhe a arquitetura física necessária à mente ardendo em verso e vigor sem parar. Subindo e descendo dobrou a esquina dos 80. Era de outubro do Novecentos e 27, talvez por isso traquinasse tanto com a suavidade dos caldeirões vermelhos do entardecer. Encarou, extático, a existência; “Stella vespertina”: poetou as tardes, não temeu a morte noturna de que são a véspera.


E no roteiro sentimental de sua viagem ao silêncio –a cidade “tem lugar para os mortos”– roçou o Mafuá, antes do encontro pitoresco, na mansão de José, com Maria Tijubina, Maria Bananeira, David, Lucídio, Gregório, Torquato, Marcílio.


(H)indemburgo Dobal: com um burgo a emoldurar-lhe a alcunha, daria poética conseqüência às intenções paternas, cruzando os caminhos e poemando a vida dos burgos de sua inspiração vital: Teresina, Brasília, Campo Maior, São Luís, Londres.


“Tarde / Tíbia tarde / Turvo / Descruzar de caminhos”.

(*) FONSECA NETO, professor da Ufpi
Publicado originalmente no Diário do Povo - 26.05.2008

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