Por Bráulio Tavares

Qualquer livro sobre poesia se vê na obrigação de fornecer uma definição, o que é virtualmente impossível, porque a poesia foi e é praticada em contextos culturais muito diferentes, que valorizam diferentes aspectos dela. Em vez de definições (que são, também por definição, uma fórmula universalista capaz de se adaptar com justeza a qualquer espécimen considerado) o que temos são descrições, que registram nosso contato com um espécimen, mas talvez não valham para espécimens diferentes (ou seja: definições partem do geral para o particular, descrições fazem o caminho inverso).

 

Minha descrição de poesia (prática, utilitária, para uso doméstico, sem pretensões científicas) é: “Forma de criação literária em que se busca uma linguagem auto-referencial, mais condensada do que a da prosa, sujeita a mais nuances de interpretação, e na qual o ritmo, as repetições e os aspectos sensoriais e visuais do texto têm maior importância”. Acho que isto cobre uma área muito grande da poesia, tendo a vantagem de reconhecer a importância do ritmo e das repetições, mas sem receitar a métrica e a rima como elementos obrigatórios.  

 

A palavra “poesia” vem do grego “poiesis” que, se não me engano, exprime conotações de artesanato, coisa feita com capricho, criação que é fruto da habilidade técnica. A interferência transformadora da ação humana sobre a massa informe da realidade – no caso, a massa informe das palavras, que quando “em estado de dicionário” são rasas de significado, mas que têm esse significado potencializado ao infinito pela articulação poética. 

 

Robert Frost dizia que “Poesia é aquilo que se perde na tradução”. Ou seja: poesia é algo que não está no texto, mas na tessitura dos subtextos, das conotações, das associações indiretas de idéias que se acumulam por baixo daquelas palavras. Traduzir as palavras é perder essa rede de nuances, e, na melhor das hipóteses, substituí-la por outra que não estava nos planos do autor do texto original. Esta incapacidade de transpor nuances de uma língua para a outra lembra a frase de (creio) Goethe, segundo a qual “traduzir poesia é como empalhar raios de sol”. E o tradutor Paulo Rónai perguntava: “E por acaso escrever poesia não será exatamente a mesma coisa?”

 

Frost também dizia que ninguém deve dizer “eu sou um poeta”, porque “poeta” é uma palavra de louvor, de aclamação. A condição do poeta não é algo que pode ser definido pelo Ego, é algo que o Ego torna manifesto. É percebido “de fora”, mas não pode ser controlado “de dentro”.  É uma honraria social, um sinal de que as coisas que aquele indivíduo diz têm significado especial para o seu grupo. O cara pode não ser poeta no grupo e na época em que vive, mas, mil anos depois, talvez seus versos sejam encontrados e relidos de outra forma. Ou seja, a posteridade pode criar nuances de sentido que não ocorreram aos contemporâneos do poeta. É um dos sonhos que nos servem de consolo nos momentos mais difíceis.

 

 

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