[Lena Castello Branco]

Depois de alguns anos, volto à Cidade de Goiás. Não é de hoje meu amor pela vetusta Vila Boa, sua paisagem, seu feitio urbano e, sobretudo, os bons e queridos amigos que aqui residem. O tempo separa as pessoas, os caminhos distanciam-se - mas o querer bem permanece. 


A estrada está excelente. De pista dupla, é um tapete que se estende no rumo do Oeste. Sucedem-se pequenos e médios núcleos urbanos, assim como fazendas, plantações, reflorestamentos. A paisagem intercala tonalidades de verde, salpicado do colorido de ipês e caraíbas. Não lhe falta a placidez do gado nos pastos que vão amarelecendo, nesse tempo de estiagem.


Eis que estamos em Goiás, cuidando de minimizar os solavancos nas ruas calçadas de pedras irregulares, vindas de outros tempos e feitas para passantes outros. Por um momento, fecho os olhos e posso entrever à minha frente um homem solene, de fraque e cartola rumo ao trabalho – será ele o legendário Dr. João Gomes Machado Corumbá? O douto goiano formado em Coimbra que, não obstante, preferia usar chinelas a rígidos borzeguins? E que, ao morrer, legou sua fortuna à Nação Brasileira, com vistas a subsidiar o ensino das Ciências?


Mais em frente, a Casa de Cora Coralina; logo em seguida, a Igreja do Rosário. Aqui perto mora a prezada amiga Antolinda (a Tia Tó); é pena que não haverá tempo para visitá-la. Chegamos à Pousada do Ipê onde um chalezinho nos acolhe, a varanda voltada para o rio – e um enorme cajueiro, com os galhos apoiados em uma forquilha, espécie de engenharia primitiva a ajudar a natureza.


Floriano, filhos e netos me acompanham, pois irei receber a Comenda de Mérito Anhanguera e desejo partilhar com os familiares a alegria da distinção que muito me honra. E que – segundo a lei que a criou – tem por finalidade premiar pessoas e instituições que tenham contribuído para o desenvolvimento de Goiás. Velha professora aposentada, pesquisadora e historiadora de ofício que sou, sinto-me feliz com o reconhecimento de meu trabalho, nas searas da Educação e da História de Goiás.


Vamos para o Largo do Chafariz onde será realizada a cerimônia de entrega das comendas, a ser feita pessoalmente pelo Governador Ronaldo Caiado, a quem aqui renovo meus agradecimentos. A noite está clara, com estrelas e luar. No Largo, arquibancadas foram erguidas para autoridades e homenageados; em frente, ficam familiares e populares, enquanto a Orquestra Filarmônica de Goiás se apresenta em caprichada performance. Políticos de expressão nacional prestigiam o evento; cidadãos anônimos circulam em trajes que seriam “de passeio”, conforme determinado no convite oficial. Há de tudo: ternos antiquados, retirados de baús e armários, cheirando a naftalina; outros, novíssimos, com vincos e marcas do alfaiate. Moças e senhoras usam do tradicional ao exótico – e haja exótico nisso!


É aniversário da Cidade de Goiás. Bem à nossa frente, no amplo Largo que em suave declive chega rumo ao Rio Vermelho – o das pepitas de ouro - aconteceu o rito secular da fundação de Vila Boa de Goyaz. Era o começo de tudo quanto hoje aqui se celebra: a chegada oficial da civilização ocidental e cristã; a presença da língua e da cultura portuguesa, que irão mesclar-se a expressões indígenas e africanas; a sucessão das atividades econômicas, da mineração à agropecuária, ao comércio, à agroindústria, aos serviços. Oficialmente, Goiás nasceu aqui!


(Publicado em O Popular, Goiânia, 10/08/2019).