[Chagas Botelho]

Chovia a cântaros naquela madrugada. Relâmpagos cortavam o céu tenebroso. Ruídos de trovões brandiam como tambores. Mamãe zanzava pela casa grande cobrindo espelhos para não atrair raios. Vistoriava os cômodos com olhos de vigilante insone. Ainda corria com bacias de alumínio para aparar as gotas grossas que despencavam das goteiras recalcitrantes. As bacias reverberavam o som do gotejo pela moradia adentro. Depois, inconsolável, mamãe ralhava com papai para que ele corrigisse o quanto antes o telhado gotejante.

Vestida num chambre branco e comprido, mamãe vagava pausadamente sob o telhado pluvial. Parecia figura fantasmática a segurar uma vela acesa e em riste. Protegia a chama inflamada com uma das palmas das mãos, para que não se apagasse com o vento vindo de fora. Murmurava à Santa Bárbara uma oração que o pároco da cidade lhe ensinara. Pedia à protetora das tempestades que poupasse as velhas calhas sobrepostas às paredes mal empreitadas. Caso a água encalhasse abundantemente nas calhas feitas de galões de querosenes, sua pobre casinha poderia não resistir.  

Teimosa como mula, na suprema teimosia de velhos, mamãe queria sair na chuva. Chuva que há horas se transformara em temporal. Queria socorrer suas galinhas que se agitavam ensopadas no poleiro. Aliás, ela amava tanto aquelas galinhas de plumagem marrom que seria capaz de pô-las em sua cama. Debaixo de suas asas. Tratava as penosas como tratava as pessoas. Até serem evidentemente colocadas no fundo da panela, no lauto almoço dominical.

Mas, a vontade de salva-vidas de galinheiro, afrouxe-se. Nem mesmo chegou a transpassar a porta de acesso ao quintal. As galinhas que esperassem o tempo melhorar. A chuva amiudar-se. Voltaria às atenções para a casa quase alagada por uma profusão de goteiras. Culparia novamente papai por prestar mais serviço à vizinha do que o próprio lar, já que sua profissão era de pedreiro. Circulou para apertar as tramelas das janelas que gemiam com a força do vento enraivecido.

Era uma missão solitária de mamãe. Já que os outros viventes encontravam-se envoltos de cobertas vermelhas de lã. Colchas, travesseiros, fronhas, lençóis, cobertores, todos vermelhos, um transtorno obsessivo que minha velinha ostentava sem cerimônia. O arrastar de seus chinelos era um movimento sem companhia. Porém, não descansaria da árdua tarefa de guardar sua casa enquanto o dilúvio não amansasse ou dissipasse de vez.

Só que os jorros de água continuavam incessantes, e mamãe mantinha-se firme na vigília domiciliar. Incorporava-se numa verdadeira sentinela noturna. Nada escapava de seu olhar zeloso de dona-de-casa. O mau tempo redobrava seu zelo para o bem estar de sua família e daquele pedaço de chão. Ainda que não tivesse nascido ali, que não tivesse enterrado o cordão umbilical naquele barro, ainda sim, queria findar os seus dias naquela casa que amou desde o primeiro tijolo erguido. E se dependesse dela, aquele torrão jamais viraria um parque aquático. Cuidar daquele bem familiar lhe deixava completa e exultante.

Foi até ao quarto, onde eu e meu irmão caçula dormíamos. Olhou cada um de nós, ternamente. Fez o sinal da cruz em nossas frontes. Com os olhos semicerrados, eu fingia dormir. Aproximou seu rosto sobre o meu e me abençoo baixinho. Pude sentir seu peito arfar amorosamente. A sua respiração exalar um cheiro agradável de cidreira. Envolveu meu corpo franzino no lençol e mais uma vez recostou seu rosto ao meu, e quase inaudível disse: “dorme com os anjos, filinho”.

Deu uma última olhada em meu irmão. Velou seu sono por alguns minutos. Depois o abençoo, em seguida beijou-o e o envolveu numa ponta de lençol quentinho. Saiu em direção a sua alcova com passos curtos e foi descansar. Estava completamente exaurida. Lá fora, a chuva, felizmente, já se aquietava.

Chagas Botelho é cronista e radialista.