Literatura

José Expedito do Rêgo

Ulisses Entre o Amor e a Morte – Acabo de ler a segunda edição do livro de estréia de O. G. Rêgo de Carvalho. Na verdade, eu não havia lido, inteiramente a primeira edição. Lembro-me de ter folheado um exemplar desta, há muitos anos, em casa de um amigo. Ficara-me na lembrança a imagem de um flamboyant e, trepado em seus galhos, um menino triste, sofrendo alucinações auditivas.


Era o meu primeiro contato com as personagens psicóticas de O. G. Rêgo de Carvalho, contato que se iria ampliar em Rio Subterrâneo, de maneira mais profunda e mais íntima, deixando-me impressão indelével.


Continuo achando Rio Subterrâneo o melhor livro do autor, mas o livro de estréia já mostra claramente o que esse viria a ser.


É uma vantagem, para o leitor, conhecer o cenário onde se passa uma história, narrada por um autor de renome. Dá um gostinho todo especial agente ir refazendo, mentalmente, o trajeto de uma personagem, por uma rua conhecida, à medida que se corre a vista pelas linhas da página. A leitura de Jorge Amado, por exemplo, sempre foi para mim uma delícia. Quando, porém, leio um de seus romances passados em Salvador da Bahia, onde estudei tantos anos, o prazer é redobrado. Reconheço não só a paisagem como as pessoas, tipos populares, Cosme de Faria, Cuíca de Santo Amaro, professores da Faculdade de Medicina...


Prazer semelhante, prazer mesclado de orgulho, sinto na leitura de O. G. Rêgo de Carvalho. Grande parte das cenas de Ulisses... é passada aqui em Oeiras, esta Oeiras onde nasci, esta Oeiras onde vivo, esta Oeiras...


Lá está uma velha gravando o nome de Ulisses sobre os lajedos do Pé de Deus, na colina do Rosário. Um de meus passeios prediletos, nos tempos de criança, era justamente ir, em turmas de três ou quatro garotos, ao Pé de Deus e o Pé do Cão, perto da casa da Pólvora. Pelo caminho, colhíamos flores silvestres para enfeitar o Pé de Deus e apanhávamos pedras, para atirar sobre o Pé do Cão. Este ninguém jamais vira, tamanho era o monte de pedras que sempre o cobria. Diziam que era um rastro redondo, igual ao de um cavalo. Também gravei meu nome nas lajes do Pé de Deus.


Lá está Ovídia, que morava num beco, ainda sem nome, perto da casa onde residiu a família de O. G. Rêgo de Carvalho. Lembro-me bem. Vidinha era uma preta velha, tipo Irene de Manuel Bandeira, dessas que entram no céu, sem pedir licença. Vendia petas e bolos-torrados. Quando as crianças iam comprar-lhe os bolos, ela os presenteava sempre com guloseimas, pães-de-ló, suspiros, cocadas. Era uma beleza comprar bolos em Ovídia.


Reconheci quase todas as personagens de Ulisses entre o Amor e a Morte; quero, no entanto, deixar aos leitores de Oeiras o prazer de fazer o mesmo. Porque todo oeirense está no dever de conhecer a obra de O. G. Rêgo de Carvalho. Ele é, sem dúvida, um grande escritor, o primeiro romancista piauiense, cujo nome despertou maior interesse da crítica, no âmbito nacional.


Ulisses entre o Amor e a Morte é um livro suave e de agradável leitura. Não deixa o leitor de nervos abalados e mente aturdida, como Rio Subterrâneo. São imagens da vida infantil e da adolescência. Imagens repassadas de ternura, de amor, de sonhos. Sonhos de criança triste. Aqui e acolá, um começo de pesadelo. Sonhos de adolescência, do primeiro amor, que se perde da lembrança sem fim.


O livro é pequeno, não chega a cem páginas, mas é bom de ponta a ponta. Não tem altos e baixos. São recordações da infância e da juventude, num vale suave, onde se encontram lindas flores sombreadas de tristeza.


(Extraído do jornal “O COMETA”, ano III, nº 14 – Fev/73)     
Teresina, 25 de agosto de 1971

José Expedito Rêgo é romancista oeirense.

Veja Cartas de O. G. Rêgo de Carvalho em resposta à nota de Expedito


Meu caro José Expedito,


Dizer que fiquei sensibilizado com o artigo do Des. Vidal de Freitas (já publicado em O DIA) é dizer pouco. Comoveu-me, imensamente, a nota de apresentação. Tudo o que diz respeito à minha infância em Oeiras é motivo para mim de grande enternecimento.
Agora já não escrevo contos nem crônicas. Estou fazendo outro romance, passado, sucessivamente, em Teresina, Amarante e Oeiras. Chama-se – Era Noite Afonsina. Mas tenho uns poucos poemas, de que faço segredo. Envio-lhe um para publicação no O COMETA, se isso lhe agradar.
Mando-lhe também meu livro Somos Todos Inocentes, para que você, o Possidônio, o Dr. Machado e outros amigos da boa terra o leiam. Se sair algum comentário, mande-me o jornal. Aliás, eu gostaria de receber 3 ou 5 números da edição de agosto para remessa a alguns escritores do Sul, com quem me correspondo.
Advirto que Somos Todos Inocentes é pura imaginação: basta ver que se passa em 1929 e eu nasci em 1930.
Mando-lhe um forte abraço, e outro para os amigos

Geraldo


As Verdes Quintas do Mocha

Quintas exuberantes de verdura,
a apraiar-se pelo Mocha,
prenhe de vozes e de mistério;

quintas de mangueiras sombrias,
em que eu pedras atirava
nos pombos tenros, maduros;

quintas onde me vi a correr
atrás de borboletas amarelas,
faiscantes à luz do sol;

essas quintas não mais verei,
para que fique indelével, puro,
o sentimento agridoce da infância


(Extraído do Jornal “O COMETA”, ano II – nº 1 – Jan/72)

 
Teresina, 12 de março de 1972


Doutor Costa Machado


Motivos de saúde impediram-me de agradecer-lhe, a tempo, a comunicação de ter sido fundado o Instituto Histórico de Oeiras e constituída a sua primeira Diretoria.


Naturalmente, a notícia me alegrou muito. É preciso manter vivas as tradições e a história de Oeiras, seus recantos turísticos e até mesmo as lendas que se transmitem entre as diversas gerações. Tudo isso dá a Oeiras a sua cor, faz dela uma cidade sem igual no Piauí, eis porque aplaudo a fundação deste Instituto, cuja primeira tarefa será, parace-me a de, por assim dizer, tombar a velha Oeiras de modo que a sua fisionomia não se altere com o correr dos anos, o que não atrapalha o progresso, porém marcha o seu lado, tal como Ouro Preto, Olinda, São Luís, Salvador e tantas outras cidades históricas.


Faço votos de êxito. A meu modo tenho divulgado Oeiras fora do Piauí; agora mesmo se encontra no prelo a segunda edição de Ulisses Entre o Amor e a Morte, meu primeiro livro, que, como os demais, evoca tudo que constitui encantamento e sortilégio de Oeiras.


Mando-lhe um abraço, extensivo aos companheiros do Instituto, todos idealistas, ao que sei e vejo.


O. G. Rêgo de Carvalho

 (Extraído do jornal “O COMETA”, Ano II – nº 9 – Set/72 – Oeiras-PI)


 
 COLABORAÇÃO DE JOCA OEIRAS, O ANJO ANDARILHO

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