Gilvanni Amorim

        Talvez estivéssemos sentados na calçada do Ginásio, ou na grama, no cascalho de pedras-de-fogo da Praça Honório Santos, ou aproveitando a sombra da figueira, nos intervalos das aulas... Quando, pela primeira vez, ouvi o nome do poeta. Quem o pronunciou foi sua neta, Mercês Coelho, amiga e colega de turma. Éramos adolescentes e eu já sonhava ser poeta, como os que lia nos livros escolares. Ela falou do avô com devoção... E declamou Janela do Passado. Nunca mais esqueci: o poeta doente, desenganado, para evitar o contágio, não podia abraçar a neta querida: “Debruçado à janela do passado, / Ao longe distingui longos caminhos / Repletos de cardos e de espinhos, / Em fileiras de um lado e de outro lado. / Lembrei-me de mim mesmo, hoje isolado, / Nos lugares desertos e mesquinhos, / Qual ave a cantar fora dos ninhos / Num gorjeio saudoso e sufocado... / Se a criancinha encosta-se ao leito, / Que sorrindo ou chorando, a sorte escrava / Não me permite aconchegá-la ao peito! / Espelho sou, de luz amortecida; / Foge de mim quem outrora me abraçava. / É uma vida sem vida, a minha vida.”


      Depois desse episódio com Mercês, a poesia e a personalidade de Adail Coelho Maia despertaram em mim uma curiosidade que vem se renovando ano após ano e me dando a certeza de que estamos diante de um dos maiores sonetistas da nossa literatura.


      O poeta nasceu em São João do Piauí em 1907. Autodidata, dedicou-se ao estudo do Direito e das disciplinas clássicas, tendo exercido o magistério em sua escola particular e a atividade de rábula, até ser acometido pela tuberculose, que o vitimou em 1962. Estudou também francês e alemão com os padres José Maria Lauth e Francisco Scholz, da paróquia de São João Batista


      Adail é lembrado pelos seus contemporâneos mais pelo temperamento divertido, bem-humorado, do que pelas suas poesias, que traduzem dor, tristeza e sofrimento. Por que esse paradoxo? Por que o poeta escrevia sombrio, diferente do homem alegre que se mostrava no dia-a-dia? Incompreendido como artista, não tinha interlocutores para dialogar consigo, no meio em que vivia, e extravasou sua alma complexa, conflitante, numa lírica repleta de agonia.  

 
      O poeta, tocado pelo gênio que possuía, potencializou o lado lúdico dentro de si, “para melhor viver, para melhor passar” (verso do soneto O Urubu). Ele, para se sentir aceito, talvez inconscientemente, deixava-se-lhe aflorar o lado mais comum, mais apreciável, o do riso e da pilhéria. A face alegre que ele revelava no cotidiano não era blefe, fazia parte da natureza versátil do artista, como observou padre José Deusdará Rocha, que o analisou num trabalho importante sobre a sua obra. Mas, em verdade, a grandeza de Adail Coelho Maia está oculta em sua extraordinária poesia desesperada.     


      Não fosse a dedicação de alguns parentes e do padre José Deusdará, que em 1978 reuniram 60 sonetos do poeta numa modesta brochura, de tiragem reduzida, a obra de Adail estaria toda dispersa. Na época, adquiri dois exemplares e dei um ao meu dileto professor Cineas Santos. O outro, guardo-o como uma relíquia, uma pedra preciosa.


      Nos sonetos predominam, como disse, a dor e o sofrimento, a angústia e a desesperança, mas podemos encontrar um tom de sátira em alguns, como A Questão do Alforje, Brinquedo Perigoso, Segundo a Bíblia e As Três Amigas. Faz tempo li em um cordel um poema épico de sua autoria narrando o massacre do Pau-de-Colher, que ocorreu em 1938 no norte da Bahia, perto das fronteiras do Piauí e do Pernambuco.


      A Desgraçada é uma poesia incomum que me ficou conhecida ao ouvi-la diversas vezes ser recitada por José Wilson Dourado Santos, em festas e rodas de boemia. Nessa composição, dois sonetos de rimas alternadas se justapõem um ao outro formando 28 versos (04 quartetos e 04 tercetos). Trata-se de um soneto duplo, se é que podemos chamar assim, sem ferir os conceitos da boa análise literária.  


      A obra do poeta, profunda do ponto de vista psicológico e marcada pelo existencialismo sartriano, oscila entre dois pólos antagônicos: o Nada e a Transcendência do Ser. Foi padre José quem primeiro enxergou esses traços ao analisar os sonetos: “O tema do Nada ressoa em cada verso, mas de uma forma incoerente. O poeta se sente inútil e necessário, perdido e cheio de esperança. A verdade é que ele tem um sentido trágico da vida e poderia ser levado ao niilismo absoluto, porém sua educação e sua fé o impediram de prosseguir no caminho do Nada.”


      Em Minha Vida, o poeta faz o cálculo de uma conta em que o resultado é sempre zero: “Procurei reunir uma por uma / As parcelas de toda a minha vida. /Por fim a operação foi dividida, / Não dando em resultado coisa alguma!... / Novamente reuni: fiz tudo em suma, / A conta certa e a prova conferida; / E toda a minha história assim perdida / Num lago extinto sem sinais de espuma... / Abri depois o livro do passado, / velho volume de tristeza e pranto, / Na poeira do tempo desprezado... / Numa folha esquecida e amarrotada / Encontrei a soma num escrito a um canto / Como parcela mínima do nada.”  


      Os niilistas do romantismo alemão negavam a existência e a fé nos valores fundamentais. Goethe criou personagens que não vêem sentido na vida: Fausto, desiludido com o mundo, pensa em se matar; o sofrimento do jovem Werther o leva à descrença e ao suicídio. Heinrich Heine, o último dos grandes poetas românticos alemães, nos versos finais de Morfina reduz a vida ao Nada Absoluto: “Dormir é bom; morrer, melhor; / O certo, porém, seria nunca ter nascido.”

 
      O Nada na poesia de Adail, embora na superfície se pareça ao niilismo alemão, afasta-se em essência da idéia de morte; é mais fruto da natureza múltipla e angustiada do poeta, somado à sua consciência acerca do fim trágico que se aproxima. O poeta maldiz a sorte, apesar de, às vezes, mostrar-se resignado e de acreditar na imortalidade da alma: “Não quero pranto, pois me fere o peito; / Nas horas tristes do meu passamento / Quero a mudez da campa e o esquecimento / Para a minh’alma ter maior proveito...” (versos de Momento Final).  


      Faz algum tempo, escrevi uma carta ao poeta José Cronemberger – autor de dois belos hinos sobre São João do Piauí, musicados pela compositora Neli Damasceno – e ali eu colocava Adail Coelho Maia no patamar dos grandes sonetistas brasileiros. A qualidade estética de sua poesia, sobretudo, em O Usurário, O Ébrio, O Urubu, Se As Flores Falassem, Janela do Passado, Reveses e Minha Vida, pode-se comparar à de sonetos já consagrados pela crítica e pelo público, como: Pequei, Senhor..., A cada canto um grande conselheiro (Gregório de Matos); Psicologia de um Vencido, A idéia, Versos Íntimos, Vencedor (Augusto dos Anjos); O Sapo, A Moenda, Saudade (Da Costa e Silva); As Pombas, Mal Secreto (Raimundo Correia); Via Láctea, Nel Mezzo Del Camin (Olavo Bilac); Se Eu Fosse Um Padre, Da Vez Primeira (Mário Quintana); entre outros. 


      Em O Usurário, o poeta atinge o seu auge estético. A métrica exata e a rima alternada, perfeita, puxam o ritmo dos versos, numa marcação suave e melódica que encanta e faz bem. Este soneto tem qualidade para figurar em qualquer antologia de nossos maiores de todos os tempos, pela musicalidade, pela criação e originalidade das idéias:

                              “Pensando simplesmente no dinheiro
                               Vive o rico usurário, noite e dia.
                               Se alguém lhe bate à porta, traz primeiro
                               A nota do que tem por garantia!
 
                               Por quase nada, tudo ele avalia
                               Num gesto de sagaz aventureiro;
                               E em tão pouco tempo, cheio de alegria,
                               Leva do pobre o traste derradeiro.
 
                               O seu Deus é a riqueza conseguida,
                               Com ela pensa em se livrar do inferno
                               Porque com ela triunfou na vida.

                               Mas um pesar em seu viver influi,
                               Saber que morre e o desespero eterno
                               De não poder levar o que possui.”                                                                                                             

      Entretanto, a obra de Adail Coelho Maia está no limbo, dispersa, talvez, no mofo de carcomidos baús, clamando por ser reunida, divulgada e estudada nos bancos escolares. É preciso tirar o poeta do esquecimento imerecido. O centenário de seu nascimento passou em branco. Não podemos mais deixar isso acontecer.


      Sonho em levantar o nome do poeta e apelo aos seus parentes e amigos a juntar tudo que porventura tenham dele para começarmos esse trabalho. Penso em organizar a sua obra completa numa edição especial, enriquecida pelo mencionado estudo do padre e por um ensaio literário assinado por algum crítico de nome. Para isso, preciso da ajuda de todos, dos familiares do poeta, de professores, alunos e diretores de colégio, e das autoridades da Educação e Cultura.


      Precisamos colocar a obra de Adail nos currículos escolares para que a juventude a conheça. Todos nós, sanjoanenses, devemos nos manifestar a favor dessa idéia. Não podemos mais desprezar a sorte de ter como conterrâneo um artista no nível de Adail Coelho Maia e não o exibirmos ao resto do País. É como disse padre José: “Unicamente poderemos entender o Cisne de São João como um verdadeiro e grande artista. Ninguém sonhou mais alto do que ele sob este céu sanjoanense.”


      O gênio incompreendido do poeta plana nas alturas. Conhecer a sua obra e celebrar a sua memória devem ser a nossa profissão de fé. 

      ------------------

      P.S.: O texto integra o conjunto de crônicas e contos de Relatos da Aldeia, a ser lançado no dia 25 de abril, às 20- horas, na ABB, em Teresina.  Aguarde entrevista do autor para Entre-textos. Foto - Willian Tito (180graus.com)

(86)3233-9444

 


>