Na foto, José Pires Ferreira Neto (n.1809, no Maranhão; f.1908, no Rio de Janeiro)

 (*)Dílson Lages Monteiro

"O ciclo, longo nos anos e denso na minha dedicação, se finda. Quando observo o trabalho no seu todo, fico feliz em concluir que fui bem-sucedido, junto aos estudiosos, em apresentar uma alternativa conceitual para as pesquisas genealógicas no Brasil. Parti de um casal único para contemplar abrangentemente os seus milhares de descendentes. Essa é uma novidade reconhecida. Mostra a genealogia como efetiva ciência auxiliar da história social, mediante a descrição documentada da dinâmica dos casamentos. As investigações que venham a ser feitas sobre a história social brasileira poderão contar com o antecedente de ‘A mística do parentesco’, seja como documentação de fatos, seja como modelo metodológico". Assim avalia  Edgardo Pires Ferreira  várias  décadas de pesquisas sobre a família Pires Ferreira e seus entrelaçamentos familiares em vários estados brasileiros.

As pesquisas de Edgardo Pires Ferreira sobre famílias nordestinas e os assentamentos delas ao longo da história começaram a partir da investigação da genealogia de Domingos Pires Ferreira e seus descendentes em vários estados, sobretudo, em Pernambuco, Piauí, Maranhão e Rio de Janeiro. Comerciante radicado em Pernambuco, Domingos teve no filho José Pires Ferreira (o primeiro do nome) a extensão de seus negócios no Piauí, onde José se estabeleceu por volta de 1790. Aqui se casaria com a filha de um dos pioneiros do comércio do charque, João Paulo Diniz, e em casamentos com descendentes das famílias Castello Branco e Carvalho de Almeida, inicialmente, daria origem a milhares de descendentes no Norte do Piauí. 

As pesquisas de Edgardo Pires Ferreira, no Piauí, ganharam fôlego na década de 1980. Em visita ao Estado, sob recepção e acolhimento da senhora Anita Gayoso, o antropólogo percorreu todo o Baixo Parnaíba, catalogando nomes e cercando-se de toda forma de registro que fosse aliada às suas pesquisas, de modo a que não apenas colhesse informações sobre “quem é filho de quem”, mas também abordasse a estrutura familiar do ponto de vista social, econômico e até político. O resultado foi a catalogação de mais de 30000 verbetes e uma pesquisa que não se esgotou com a publicação, a princípio, de 4 densos volumes de genealogia, sendo um deles dividido em 2 tomos.

A sede por descobrir mais sobre os entrelaçamentos familiares levou a leitura e exame regular de vasta bibliografia e fontes primárias sobre o Piauí, a fim de subsidiar e apontar orientações que encaminhassem a novas descobertas, o que de fato aconteceu. Muitos dos antigos colonizadores e suas famílias, no século XVIII e mesmo antes disso, foram catalogados. Entre eles, estariam nomes como os irmãos Carvalho de Almeida, os irmãos Barbosa Ferreira, estabelecidos entre Brejo-MA, União e a antiga Barras do Marataoã; a numerosa família de José Carvalho de Almeida, liderança de Barras Vila, para se citar apenas alguns, e um volume significativo de fatos que ajudam a compreender com mais detalhes o Piauí ao longo de sua história pelo viés da genealogia.

Manifestando-se sobre os volumes de “A mística do parentesco”, disse Antônio Houaiss: “No gênero, não há entre nós – mesmo incluídos os nossos Clássicos da matéria – nada de comparável”. Para o poeta João Cabral de Mello Neto “a pesquisa revela dedicação e competência excepcionais, resultando um material de grande valia para investigações históricas, demográficas, sociológicas e antropológicas”. Diz o biógrafo e crítico literário Francisco de Assis Barbosa: “É obra de fôlego, que merece ser divulgada, mesmo porque são poucos os estudos genealógicos, em nossa bibliografia histórica, e a maioria deles destituída de fundo científico e técnico”.

 Todo esse trabalho ganhou há quatro anos um novo enfoque e nova forma de circulação. O autor, que é sociólogo de formação, disponibilizou gratuitamente em plataforma na web todos os seis volumes de A mística do parentesco. Ela pode ser acessada em www.parentesco.com.br. Além de disponibilizar o conteúdo dos livros, a plataforma traz rico acervo icnográfico de cerca de 2000 fotografias que retratam pessoas, valores e costumes, reforçando o alcance de suas pesquisas para a história social. Acervo com fotos dos três últimos séculos, a cada dia mais encorpado com novas colaborações que são encaminhadas ao pesquisador e antropólogo. Além disso, o conjunto de documentos agrega novos instrumentos e fontes primárias aos estudos de família e afins, o que torna as anotações, os novos registros e as contribuições reunidas e descobertas mais recentes de interesse para campos variados do conhecimento.

Ao consultar a Plataforma Parentesco, por exemplo, o leitor é surpreendido com duas raras fotografias de José Pires Ferreira Neto, nascido em 1809, bisneto de João Paulo Diniz, neto do patriarca José Pires Ferreira e pai de 21 filhos de quatro consórcios, entre eles, figuras como o senador Joaquim Pires Ferreira e Maria da Assunção Pires Ferreira; esta, como resultado de imbricamentos, sobretudo, com as famílias Castello Branco, Carvalho de Almeida e Rodrigues Lages, daria origem à extensa família Pires Lages do Norte do Piauí. São fotos importantes para o Piauí e para a história sociocultural do Brasil.

Outra grande novidade da Plataforma é a possibilidade de uma leitura verticalizada ou horizontal dos dados reunidos na página. Nela, desenvolveu-se, por exemplo, ferramenta que cataloga número significativo dos ancestrais dos inseridos na página, possibilitando associações de modo direto e permitindo a não especializados uma compreensão mais clara das teias familiares.

A mística do parentesco e o denso e abnegado trabalho de pesquisa em genealogia de Dr. Edgardo Pires Ferreira consagram, em definitivo, essas pesquisas, como uma das mais destacadas contribuições desse ramo do conhecimento ao entendimento dos assentamentos humanos no Nordeste do Brasil.

SOBRE O AUTOR

Filho de João Antônio Pires Ferreira e Henriqueta de Carvalho Sanmartin (casados a 12.06.1930), nasceu em Teresópolis, Estado do Rio de Janeiro, a 8 de fevereiro de 1937.

Formou-se em Sociologia pela PUC Rio – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro; em Museologia pelo Museu do Louvre, Paris, França; em Arqueologia pelo Instituto de Pré-História de Jerusalém, Israel; e em Zooarqueologia pela Universidade de Michigan. Foi membro de missões arqueológicas em Israel, Irã, México, Peru e Equador. De 1992 a 1994 dirigiu a Fundação Bienal de São Paulo.

Casou em São Paulo, capital, a 06 de junho de 1981, com Marianne Ramira Ligeti, n. em Cascais, Portugal, psicóloga, especialista em Psicologia Corporal, professora e tradutora, filha de Nicolas Ligeti e de Fanny Schwarz. Sem geração.

Sócio correspondente do IHGGS – Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba. Sócio Titular do Colégio Brasileiro de Genealogia desde julho de 1988.

Autor de A mística do parentesco: “uma genealogia inacabada: Domingos Pires Ferreira e sua descendência, 4v. (1987)”, “A mística do parentesco: os Castello Branco e seus entrelaçamentos familiares: Francisco da Cunha Castello Branco e sua descendência” em duas edições, “A teia do parentesco em Pernambuco”.

(*)Dílson Lages Monteiro é literato e professor, membro da APL.

           

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